O que a pandemia e o mercado financeiro estão nos ensinando sobre sustentabilidade

O que a pandemia e o mercado financeiro estão nos ensinando sobre sustentabilidade

Glauco Requião*

20 de outubro de 2020 | 04h00

Glauco Requião. FOTO: DIVULGAÇÃO

Como sabemos, a crise global desencadeada pela pandemia do novo coronavírus afetou diretamente a economia mundial. Vimos diversas empresas com sua saúde financeira seriamente abalada e, não raro, foram os casos de falência ou decretação de concordatas. Mercados financeiros mundiais tiveram resultados preocupantes e somente agora mostram recuperação. Neste contexto, os setores mais afetados foram os de transporte coletivo de pessoas, turismo e afins, seguidos pelas seguradoras e construção civil, conforme levantamento realizado pela GuiaInvest, entre os meses de março e abril deste ano.

Atentos à a este cenário, procuramos entender o desempenho das empresas que executam suas atividades no Brasil, com uma comparação bem simples: empresas que atendem critérios denominados internacionalmente de ESG’s – isto é, respeito a critérios ambientais, sociais e de governança corporativa, que são atributos da sustentabilidade empresarial moderna –, tiveram desempenho mais estável, ou melhor que as demais? A sustentabilidade informa algum valor que deva ser percebido pelos investidores e empresas?

O índice IBOVESPA, por exemplo, que reúne as empresas mais importantes do mercado de capitais brasileiro, registrou uma variação negativa de (-16,30%) ao longo deste ano. Enquanto que o índice  “It Now ISE” –  que é um ETF (Exchange Traded Funds) – fundo de investimento que busca refletir a performance do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) – registrou uma variação negativa de (-11,46%), no mesmo período.

Para entender melhor, o ETF traduz o ISE B3, que é uma ferramenta para análise comparativa da performance das empresas listadas na “B3”. Essa categoria conta com empresas que estão avaliadas sob o aspecto da sustentabilidade corporativa, baseada em eficiência econômica, equilíbrio ambiental, justiça social e governança corporativa (os então critérios ESG’s). Sendo que sua mais recente carteira foi anunciada em novembro de 2019 e vigora no período de 06 de janeiro de 2020 a 01 de janeiro de 2021, reunindo 36 ações de 30 companhias que representam 15 setores e soma R$ 1,64 trilhão em valor de mercado. Esse montante equivale a 37,62% do total do valor de mercado das companhias com ações negociadas na B3, com base no fechamento de 26/11/2019.

Outro dado importante sobre este tema pode ser obtido quando analisamos a relação das 20 ações das empresas que tiveram as maiores perdas nos meses de abril e maio deste ano, publicada pela GuiaInvest, e não encontramos nenhuma empresa participante da carteira ISE 2020. Também vale anotar, a título de comparação, que, dentre as três maiores perdas relacionadas no mesmo levantamento, temos que estas empresas também registram uma variação negativa em 2020, sendo: IRB Brasil (-84,71%), IMC (-61.78%) e Marisa (-39.84%). Enquanto que ao relacionarmos os piores desempenhos neste ano, das empresas que compõem a carteira ISE, temos: Cielo (-49,37%), BRF (-42,07%) e Banco do Brasil (-39,72%). Por outro lado as cinco maiores altas, registradas pelo site especializado “Ação e Reação” (http://www.acaoereacao.net/), até agora pertencem às ações das empresas WEG (+79%), Marfrig (+65%), B2W Digital (+50%), Klabin (+40%) e Natura (+35%). Destas, somente a Marfrig não compõe a carteira ISE 2020.

Obviamente que esta é uma análise inicial, não sendo o resultado de um estudo técnico aprofundado, mas podemos sim extrair algumas conclusões interessantes: 1) sim, podemos afirmar que as empresas que atendem os critérios “ESG” estão tendo um comportamento melhor que as demais, em dois sentidos: não sofreram tanto no início da pandemia, agindo rapidamente, e estão se recuperando de forma mais sólida e rápida que a média geral; 2) sim, a sustentabilidade informa valores que são extremamente úteis em tempos de incertezas, pois estes valores nunca mudam independentemente das circunstâncias externas.

Justamente por estas conclusões que demonstramos rapidamente neste texto, o assunto está gerando interesse dos investidores e empresários, que quase sempre procuram obter a “fórmula mágica” do sucesso e da rentabilidade. No entanto, sustentabilidade não é modismo ou instrumento para se ganhar dinheiro, é sim um modo de vida, uma percepção íntima da responsabilidade que temos perante o mundo, às pessoas e à natureza. Deve transmitir verdade. Afinal, valores são adquiridos pelas boas práticas constantes, com resiliência e compromisso. Não é possível adotar critérios superficiais, esperando resultados imediatos. Que mais empresas entendam o que isto significa e possam modificar a história dos mercados financeiros, demonstrando que resultados são pura e simples expressão de seu modo de agir coerentemente.

*Glauco Requião, advogado, consultor em sustentabilidade e criador do portal Postura Sustentável

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.