O que a morte do fundador e CEO da corretora de criptomoedas QuadrigaCX nos ensina?

O que a morte do fundador e CEO da corretora de criptomoedas QuadrigaCX nos ensina?

Entenda por que milhões em criptomoedas que eram custodiadas pela corretora canadense podem estar comprometidas para sempre

Tatiana Revoredo*

14 de fevereiro de 2019 | 05h00

Tatiana Revoredo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em uma era peer-to-peer – onde ativos digitais são transacionados diretamente pelas pessoas, sem intermediários – exige-se que a custódia “digital” alcance um novo patamar, uma nova mentalidade.

Isso porque o gerenciamento de chaves privadas de contas acima de um milhão de dólares evidentemente não caberá a um único indivíduo, como recentemente presenciamos no episódio envolvendo o fundador e CEO da QuadrigaCX Gerald Cotten.

A demanda por custódia digital de ativos de criptomoeda aumentou rapidamente nos últimos anos, à medida em que a especulação, a posse e o uso de criptomoedas foram se tornando mais populares. E sua oferta vai desde soluções robustas de custódia em conformidade com o padrão institucional, como o Coinbase Custody, até ofertas de custódia mais flexíveis e controladas, como carteiras pessoais de criptomoeda – as famosas wallets.

FOTO: KAREN BLEIER/AFP

Com o aumento do número de pessoas usando criptomoedas como reserva de valor por longos períodos, e o crescimento das ameaças à segurança, a custódia digital promete ser não apenas um assunto importante, mas um tópico essencial para o futuro desta nova classe de ativos digitais, chamada de criptomoedas.

Mas o que é custódia digital?

Custódia de ativos – o que é?

A custódia é um serviço prestado pelos profissionais para a realização e manutenção de ativos valiosos, comum entre instituições e indivíduos de alta renda.

Este serviço não é usado pela grande maioria das pessoas, que usam bancos como custodiantes de seus ativos. Isto é, eles normalmente optam por armazenar os poucos objetos de valor que possuem em uma conta bancária ou cofre.

Corretoras têm dominado a custódia das criptomoedas

As corretoras (conhecidas por exchanges) dominam a custódia das criptomoedas. Os traders parecem confortáveis em manter seus fundos nas exchanges, dado que a soma das maiores corretoras detêm em torno de 4% da oferta circulante da Bitcoin.

Manter ativos em corretoras é freqüente entre os investidores de varejo. Instituições com muito capital normalmente abrem contas corporativas em múltiplas bolsas para negociações mais líquidas. Corretoras como a Bittrex, a Poloniex, a Kraken, a OKex e a Huobi abriram as portas para as instituições, onde fornecem mais opções de serviços personalizados e custódia.

No entanto, os hackeamentos das corretoras Mt. Gox em 2014, da Bitfinex em 2016 e da Coincheck em 2018 nos mostraram que as exchanges não são exatamente o que se chamaria de “risco zero”.

De outro lado, todas as pessoas com um certo nível de conhecimento em criptomoedas sabe que o modo mais seguro de armazená-las é usando um tipo de carteira digital de armazenamento a frio, as famosas hardwallets. Será?

Carteiras (wallets)

Carteiras são meios de armazenar pares de chaves públicas e privadas que identificam e dão acesso às criptomoedas no blockchain.

Carteiras podem ser hot wallets (em português, carteiras quentes) e cold wallets (carteiras de armazenamento a frio).

Hot wallets estão conectadas à internet. Eles podem incluir carteiras de software ou carteiras web. Onde esta carteira é armazenada apresenta um ponto de falha – se um ator mal-intencionado se apossar da carteira, eles poderiam roubar fundos de usuários.

Carteiras frias (cold wallets) estão offline e isoladas, como uma carteira de hardware ou uma carteira de papel. Carteiras de hardware são mais seguras, mas mais complicadas para o usuário comum.

Executar uma transação em uma carteira de hardware requer que se uma confirme a transação usando um botão no dispositivo físico.

Para proteger os indivíduos da perda de fundos, caso percam seu dispositivo, cada carteira de hardware receberá uma frase-de-segurança.

Uma frase-de-segurança é um conjunto de palavras que são inseridas em um aplicativo para recuperar o acesso a uma carteira independente da posse do dispositivo.

Embora as carteiras de hardware sejam uma das opções mais indicadas para a custódia de criptomoedas, elas se tornaram um problema para a corretora canadense QuadrigaCX.

O procedimento normal era que o fundador e CEO da QuadrigaCX, Gerald Cotton, transferisse a maioria das moedas para o armazenamento a frio, em uma hardwallet, como forma de proteger as criptomoedas contra hackers ou outros furtos virtuais.

Com a morte de Gerald Cotton, contudo, “o inventário de criptomoedas da Quadriga ficou indisponível” – afirmou a viúva, Jennifer Robertson.

Embora Jennifer tenha o laptop de Gerald, a hardwallet é criptografada e ela não tem a senha ou a frase de recuperação. Conquanto um consultor tenha sido contratado para tentar recuperar o conteúdo do laptop, ele ainda não obteve sucesso até o momento.

Takeaway

Usar uma carteira de hardware (“cold storage”), e certamente é uma das melhores soluções até hoje.

Carteiras quentes (ou seja, software) são mais propensas a ataques porque estão “permanentemente” conectadas à rede. As carteiras de hardware têm “espaço aberto”, ou seja, não conectadas pelo design, até que você as conecte. Portanto, seus fundos são protegidos por sua chave de hardware, protegida por elementos de hardware seguros.

Mas quem protege sua senha da hardware? Onde você a guarda? E se você morrer?

Que este episódio da QuadrigaCX sirva, não para amedrontar ou desestimular o interesse pelo uso de criptoativos, mas sim, para chamar a atenção de que toda inovação exige mudança de comportamento, bem como será necessário, em uma era peer-to-peer, que a custódia “digital” alcance um novo patamar.

*Tatiana Revoredo, coautora do livro Criptomoedas no cenário internacional: Qual é a posição de Bancos Centrais, Governos e Autoridades?. Autora de vários artigos sobre blockchain, criptomoedas e digital transformation. Cursa Cybersecurity em Harvard. Especialista em Direito Digital pelo Insper. Masters of Laws em Direito Constitucional pelo LFG. Bacharel em Direito pela PUC/SP

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