O que a juíza feminista que conquistou os EUA tem a nos ensinar

O que a juíza feminista que conquistou os EUA tem a nos ensinar

Aline Mendes*

21 de setembro de 2020 | 08h30

Aline Mendes. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Enquanto ouvia o podcast “Bom dia, Obvious”, uma das falas foi justamente no sentido de que, para nós mulheres estarmos aqui, muitas deram infinitos passos de formiga. Certamente, Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte americana, que morreu na sexta-feira (18), foi uma dessas mulheres.

Apesar do seu 1,55cm de altura, da fala mansa e de ser conhecida pela discrição, mas com uma certa dose de humor, RBG jogou luz sobre a causa feminista. Foi verdadeiramente uma grande defensora dos direitos das mulheres.

Em cada um dos casos em que esteve à frente como advogada de defesa ou do outro lado do balcão, como juíza na mais alta corte do país, era como se ela quisesse transpor para o mundo a igualdade entre homem e mulher existente dentro da casa dela em plena década de 1950. Casada e com o apoio do marido, Marty, começou a cursar Direito quando Jane, sua primeira filha, ainda era bebê. No próprio documentário “A Juíza” (2018), que conta a sua história, Marty (1932-2010), que foi um reconhecido advogado tributarista, é tido como um homem à frente do seu tempo. Não à toa, em uma das entrevistas, ele próprio faz piada com uma das frases da filha Jane: “Papai cozinha, mamãe pensa”.

Na Escola de Direito de Harvard, eram RBG e mais oito mulheres num universo de 500 homens. Em razão da transferência do marido para Nova York, ela acabou se formando em Columbia dois anos mais tarde. Apesar de terminar a faculdade como primeira da classe, não recebeu nenhuma oferta de emprego. Teve dificuldade de conseguir uma posição em escritórios de advocacia. “Eu era judia, mulher e mãe”, dizia ela.

Lecionou Direito em universidades e foi uma grande ativista advogando em defesa da igualdade de gênero, responsável por importantes sentenças. Sua abordagem sempre foi muito estratégica e cautelosa. Ela teve o cuidado de ir de encontro às leis e políticas sexistas uma a uma.

A ascensão na carreira veio com a indicação de uma cadeira na Corte de Apelações do Distrito de Columbia, em 1980, e, treze anos mais tarde, com uma vaga na Suprema Corte, a segunda ocupada por uma mulher. Ela gostava de brincar que haveria mulheres suficientes na Suprema Corte de nove assentos “quando houver nove”. E se transformou em um fenômeno nos Estados Unidos principalmente entre os jovens. Ganhou blog, documentário, filme biográfico. Sua caricatura ilustrou canecas, camisetas e até tatuagens. O motivo: sua dissensão ao se opor a uma bancada de inclinação conservadora. Suas discordâncias eram contundentes e ela não se esquivava de criticar as opiniões de seus pares. Assim, a cada julgamento, os americanos esperavam ansiosamente pela publicação de seus votos.

Três semanas atrás, tive a oportunidade de rever “Suprema” (2018), filme biográfico estrelado por Felicity Jones, e também mergulhei no documentário “A Juíza” (2018) – este último indicado ao Oscar -, sobre a história de vida e a carreira de Ginsburg. Mesmo sendo minoria e muitas vezes solitária, ela conseguiu fazer com que sua voz fosse ouvida. Talvez, por seguir à risca um dos conselhos de sua mãe: “Nunca com raiva. Isso seria destrutivo. Sempre é uma oportunidade para ensinar”. Assim ela foi dando seus passos de formiga. Nos 60 anos dedicados ao direito, RBG deixou um grande legado e inspirou mulheres ao redor do mundo, não somente da área jurídica, mas também fora dela. Foi uma mulher que chegou ao mais alto cargo da corte americana, mas não parou por aí. Ela seguiu suas convicções.

Voltando ao podcast “Bom dia, Obvious”, agora cabe a nós darmos os nossos passos de formiga para as mulheres que estão vindo por aí, uma vez que, como bem disse Ginsburg: “As mulheres pertencem a todos os lugares onde as decisões são tomadas. O que não pode ocorrer é as mulheres serem a exceção”. Quem sabe um dia deixemos de ser uma maioria que ainda é minoria nos espaços de poder, tão evidente aqui no Brasil. Temos apenas 11,9% de prefeitas e 13,5% de vereadoras, sub-representação que se repete em cargos de liderança no serviço público. As eleições 2020 estão aí batendo à porta e podem representar um ótimo começo na quebra deste paradigma.

*Aline Mendes é jornalista, assessora parlamentar de comunicação e Master em Liderança e Gestão Pública – turma 7 -, do CLP – Liderança Pública. É uma das cofundadoras da Rede Mulheres Públicas

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