O que a filosofia tem em comum com a educação infantil?

Ana Paula Alberto Lopes*

25 Novembro 2018 | 03h30

Quando pensamos em educação infantil, logo nos vem em mente a criança pequena atrelada aos cuidados mais básicos da primeira infância. E apontamos aqui que realmente é isso, é impossível dissociar o educar aos cuidados da mais tenra infância. O nosso enfoque aqui é articular esse cuidado à filosofia. Mas como isso é possível? Pois bem, me explico.

É do imaginário de todos que a Filosofia é uma ciência humana, abstrata e quase que inalcançável aos que ainda não se apropriaram da educação escolar. Porém, ao mergulhar no universo filosófico, percebemos que ela é a base para o pensar. Através do pensamento filosófico que os seres humanos alcançam as funções superiores do pensamento, nome este dado pelo estudioso Lev Vygotsky. Em sua obra, Pensamento e Linguagem, o autor aponta que para que o pensamento alcance níveis superiores, é necessário que a criança tenha como suporte a linguagem.

Quando apontamos aqui a questão da linguagem, destacamos a importância das múltiplas linguagens principalmente na educação infantil, sendo elas, linguagem artística, linguagem corporal, linguagem oral e escrita, linguagem matemática, entre outras.

E é aqui que entra aquilo que consideramos o foco da educação infantil: o brincar. A base para todo desenvolvimento está no brincar, pois será nesse momento que a criança, ao explorar, torna-se uma grande investigadora, e assim, alcança níveis superiores de pensamento, sendo atravessadas necessariamente pela linguagem.

A médica e estudiosa Emmi Pikler dedicou-se a observar bebês na mais tenra infância, ressaltando a importância do primeiro ano de vida de crianças pequenas. Ao observá-las, Emmi Pikler percebeu que os mais básicos cuidados como o banho, a troca, a alimentação, tudo isso influencia no desenvolvimento da criança. A criança pequena descobre o mundo e se descobre por meio de seus sentidos. É através dos sentidos que estabelecemos contato entre o mundo interno e o mundo externo.

Tudo o que vemos, ouvimos, tocamos, experimentamos exerce um reflexo físico, uma ação pequena, e um reflexo psíquico, sensações e sentimentos. Os sentidos nos informam sobre o mundo externo e transformam nosso mundo interno, o que acontece dentro de nós.

E o brincar é nada mais do que isso, explorar, conhecer um objeto a fundo, sua funcionalidade, e assim criar e (re)criar novas possibilidades. O constante movimento do brincar potencializa a aprendizagem.

O papel do adulto nesse processo de significações é fundamental para a construção do simbólico no pensamento infantil. Ademais, ressaltamos a importância para a construção de vínculos, do afeto, da criação de memórias que ecoam no imaginário das crianças, possibilitando um desenvolvimento sadio e integral.

O educador, ao assumir esse papel de mediador das relações, faz com que a criança pequena perceba a essência do pensamento do outro, possibilitando assim uma melhor socialização e melhor organização do próprio pensamento. É aqui que lembramos do papel filosófico do ato de educar. A criança ao manipular, explorar, vivenciar, investiga tudo que está a sua volta, e assim seu pensamento vai se constituindo.

Poderíamos ficar aqui tecendo mais e mais sentidos sobre tal assunto, porém faz-se necessário um ponto final.

Enfatizamos, portanto, a importância do ato de brincar, de experimentar, sentir, explorar, investigar na educação infantil, criando assim a base para o pensamento filosófico e investigativo, sustentado pelo vínculo e afeto, tão essenciais para o desenvolvimento infantil sadio.

*Ana Paula Alberto Lopes, professora regente na Educação Infantil do Colégio Marista Champagnat

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