O que a COP 26 fala sobre a estratégia ESG de governos e organizações?

O que a COP 26 fala sobre a estratégia ESG de governos e organizações?

Mariane Prado*

30 de novembro de 2021 | 16h50

Mariane Prado. FOTO: DIVULGAÇÃO

A sigla ESG tem ganhado cada vez mais destaque no dia a dia de empresas, ONGs, mercado financeiro, órgãos reguladores e dos governos, então como devemos entender a conclusão da COP26, encerrada esse mês depois de semanas intensas de estudos, promessas e negociações entre lideranças de quase 200 nações? Diante do sentimento geral de incertezas sobre a implementação de medidas eficazes a tempo de evitarmos uma catástrofe em escala global, fica claro o papel das empresas em acelerar a adoção de práticas em seus negócios e em suas cadeias produtivas.

Estima-se que nos últimos anos, os investimentos em marcas mais sustentáveis cresceram cerca de 36% no mundo, 90% dos brasileiros buscam marcas mais responsáveis em questões socioambientais e o mercado financeiro vem pressionando cada vez mais as empresas pelo compromisso em relação ao ESG, priorizando e direcionando os investimentos para as companhias que tenham compromissos com a implementação de práticas sustentáveis, com estratégias que integrem a responsabilidade ambiental, a diversidade, com inclusão e equidade, além de melhores práticas de governança. O velho discurso de impacto negativo de boas práticas socioambientais no desenvolvimento econômico das nações evidencia a urgência da transformação nas práticas das lideranças políticas e empresariais.

Os governos têm o dever de atuar de forma eficaz na defesa do meio ambiente, com políticas públicas para promover o desenvolvimento sustentável e evitar danos. Com melhores critérios de gestão de recursos, políticas mais assertivas e fiscalização mais rígida quanto à exploração de recursos naturais, podemos evitar consequências e ficar um passo mais próximo da recuperação dos danos já causados.

Desastres naturais como enchentes, deslizamentos, secas e furacões estão tornando-se cada vez mais intensos e frequentes e os impactos já podem ser sentidos na agricultura, na biodiversidade, na qualidade e abundância de água potável e na proliferação de doenças. É consenso entre especialistas a relação direta entre o modelo de exploração do meio ambiente e a pandemia do novo coronavírus iniciada em 2019.

Esse modelo econômico impacta na vida de todos e agrava as desigualdades sociais. As mulheres constituem a maior parte da população mundial pobre e, portanto, são mais dependentes dos recursos naturais ameaçados pelo contexto das mudanças climáticas, o que significa exposição a riscos de saúde materna e maior vulnerabilidade à violência, que inclusive registrou crescimento aviltante durante a pandemia. A COP26 destacou com a Little Amal, uma boneca articulada de três metros e meio, que 80% das pessoas deslocadas por desastres e mudanças climáticas em todo o mundo são meninas e mulheres. Não faltam exemplos sobre os efeitos que a morosidade de governos na adoção e na fiscalização de políticas públicas ambientais gera, colocando em risco populações inteiras de países vulneráveis. Pois as práticas ESG estão intrinsecamente relacionadas aos debates da COP26.

É hora de a iniciativa privada assumir seu protagonismo na transformação do planeta e embora esse desafio pareça tão grande, está longe de ser inalcançável. Muitas iniciativas podem ser facilmente adotadas por empresas de todos os tamanhos e setores e destacam-se a cada dia, criando um lugar comum onde certificações verdes, economia circular e net zero, por exemplo, são tão essenciais quanto seguir regras definidas por lei.

É urgente que as empresas insiram a sustentabilidade na estratégia do negócio de forma definitiva, percebendo as oportunidades e integrando práticas na sua gestão. Olhar o todo e não a parte é outra premissa: ESG pede uma visão holística do negócio. É hora de promover mudanças na cultura organizacional, com atenção para toda cadeia produtiva, para processos, fornecedores, legislações, ciclo de vida dos produtos e dos serviços. Incluir o tema na comunicação da organização, dando visibilidade externa e interna para a sustentabilidade. E o mais importante: sustentar o discurso e cumprir as metas.

O pensar ESG deve ser estratégico, visando a longevidade dos negócios e da sociedade. As iniciativas podem demandar investimentos e a relação custo-benefício não pode ser calculada no curto prazo, mas certamente farão a diferença. Estamos atravessando um caminho sem volta e o passo precisa ser acelerado.

*Mariane Prado é diretora de Responsabilidade Social Corporativa & Comunicação Latam no Bureau Veritas

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