O que a Black Friday ensina para as crianças?

O que a Black Friday ensina para as crianças?

JP Amaral e Maíra Bosi*

27 de novembro de 2019 | 08h00

JP Amaral e Maíra Bosi. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Em menos de uma década, essa data que marca o início da temporada de compras nos Estados Unidos se tornou, também aqui, uma das principais datas para o comércio. Sim, estamos falando da Black Friday. Aquele dia em que os descontos e condições de pagamento parecem “imperdíveis” e tudo à nossa volta nos faz pensar que não podemos perder a oportunidade de comprar. Um mês inteiro dedicado ao consumo desenfreado! E, se crianças aprendem com o exemplo, o que uma data voltada ao consumo exacerbado pode estar ensinando para elas?

Apesar de não observarmos um aumento significativo da – ainda existente, mas ilegal – publicidade infantil em razão da Black Friday, as peças publicitárias feitas para essa data geram estímulos consumistas que, sem dúvida, afetam os pequenos. E isso, por si só, já merece nossa atenção. Crianças estão em uma delicada fase de desenvolvimento e leis, como o Marco Legal da Primeira Infância, determinam que elas devem ser protegidas da pressão consumista e da exposição precoce à comunicação mercadológica.

Ao contrário de outras datas comemorativas que também movimentam fortemente o comércio, como Natal, Dia das Crianças e Páscoa, a Black Friday sequer tem um objetivo fraternal por trás do consumo. É simplesmente consumir por consumir, e com urgência.  Mesmo que haja a pesquisa para garantir a melhor compra, nem sempre há uma reflexão fundamental sobre se, de fato, aquele produto é necessário. Em tempos de crises ambientais, como o impacto do plástico para o clima, é primordial começarmos a fazer escolhas justas pelas e para nossas crianças e questionarmos as empresas a repensarem seu modelo para uma verdadeira economia circular.

A publicidade segue trabalhando, dia e noite, para estimular a compra de artigos supérfluos com a promessa de que esse consumo trará reconhecimento social e felicidade. Como consequência, temos pessoas eternamente insatisfeitas e desejantes pelo próximo lançamento, o que está diretamente conectado ao superendividamento, que atinge altos níveis em nosso país e, pior, ao estresse familiar, que afeta gravemente as crianças.

Outro efeito colateral do consumismo, também presente na Black Friday, é a violência. Os vídeos e notícias que aparecem sobre esta data são cenas assustadoras: homens e mulheres se empurrando para entrar primeiro em uma megastore; adultos arrancando produtos das mãos uns dos outros e, também de crianças. Há, inclusive, vídeos que mostram tais cenas, supostamente cômicas, em canais de youtubers cujo público-alvo são crianças. Sem dizer a violência psicológica, aquela que remete ao status social perante o consumismo – quem não tem, está fora. Queremos mesmo ensinar aos mais jovens que é comum estes tipos de violência em nome do consumo de um bem?

Não há nada de errado em aproveitar promoções para, finalmente, adquirir aquele produto desejado e necessário quando não é baseado no impulso e com um comércio justo feito pelas empresas, pensando na ética e melhor interesse da criança e do seu futuro. Que as crianças de hoje possam crescer livres de padrões consumistas, atentas a um olhar crítico sobre o que e como consomem, com a liberdade para brincarem, aprenderem e se desenvolverem integralmente. Que a Black Friday se torne uma data para refletirmos sobre isso junto com as crianças.

*JP Amaral, mobilizador do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana; Maíra Bosi, coordenadora de comunicação do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana

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