O quarto homem

O quarto homem

Ademir Furtado*

24 de março de 2021 | 04h30

Ademir Furtado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Era uma vez um reino muito distante, onde o rei era alto e muito magro, por isso o povo o chamava de palmito. Mas esse rei era muito vaidoso e sensível, enfurecia quando alguém o tratava dessa maneira jocosa, então os súditos se contentaram em falar apenas Mito, que é uma palavra muito mais bonita. E como esse rei achava que tinha uma origem divina, ele gostava de ser chamado de mito, assim como se ele fosse um semideus, e quando ele saia na rua o povo gritava: Mito, Mito. E o rei se sentia muito contente.

Nesse reino havia também muitos esculápios que tratavam as moléstias do povo, e o rei escolhia um deles para ser o chefe e comandar as diligências necessárias à boa saúde da população. O primeiro que chegou foi nomeado porque amava o rei sobre todas as coisas e pessoas. Homem jovem, bem-disposto, simpático com todo mundo, e como não havia doença no reino, todo mundo vivia feliz.

Um dia veio uma peste trazida por estrangeiros. De repente, as pessoas começavam a tossir, paravam de respirar, e se não fossem atendidas logo, morriam, e os seguidores de Esculápio passaram a ter muito trabalho, porque a peste pulava de uma pessoa para outra só de chegar perto. Então o chefe dos homens da ciência aconselhou que todas as pessoas deveriam permanecer em casa. Acontece que aquele povo era muito feliz, gostava de andar na rua, conversar com amigos, se abraçar. Então o chefe foi ter com o rei.

– Majestade, mandai que vossos súditos permaneçam em casa e determinai o fechamento das portas do reino para evitar que essa praga avance mais ainda.

– Fechar tudo? Trancar o povo em casa? Estais, por ventura, a caçoar de vosso soberano?

– Eu, simples mortal, não ousaria tal atrevimento na frente de Vossa Alteza, só digo o que as investigações e o Conselho dos Especialistas recomendam.

– Bobagem, isso é só uma gripezinha, e o meu povo tem histórico de atleta, cura-se fácil com benzedura. Chamai os benzedeiros do reino.

– Majestade, peço vossa permissão para informar que alguns benzedeiros já morreram.

– Maldito seja aquele que me traz notícias desagradáveis. Estais demitido. Retirai-vos da minha frente antes que eu perca a cabeça e mande cortar a vossa.

O segundo que chegou, quando foi chamado estava em profundo sono, devido ao cansaço após uma intensa jornada de trabalho. Apresentou-se com uma expressão ainda sonolenta.

– Aqui me tendes Majestade, pronto para servir-vos.

– Ide ter com esses enfermos, aplicai os tratamentos que eu, na minha mitológica sabedoria, prescrevi: chás com as ervas do meu reino, que têm eficácia comprovada por mim para qualquer doença.

O segundo, ainda sonolento, saiu tropeçando com um pé no outro, na saída resmungou alguma coisa que não se pode ouvir direito porque a fala terminou com um grande bocejo. Uma semana depois ele voltou à presença do soberano.

– Majestade, é com imensa tristeza e não menos temor que informo a Vossa Magnanimidade que os chás com as ervas do reino não fazem efeito.

Essa doença é desconhecida, não existe tratamento, meu antecessor tinha razão, o melhor, por enquanto, é fechar as portas do reino e trancar o povo em casa.

O rei saltou do trono, já tomado de cólera.

– Mandarei… Não, não mandarei. Eu mesmo cortarei a cabeça do próximo que me falar em tamanho sacrilégio. Trancar o povo em casa? E quem me chamará de Mito quando eu sair na rua? Quem baterá palma para os meus ditos espirituosos? Estás demitido também, retirai-vos da minha magnânima presença.

O terceiro que chegou, na verdade nem chegou, porque já estava lá quando o segundo foi defenestrado. E também não foi escalado entre os especialistas da ciência médica. Na verdade, tratava-se de um soldado, baixinho, gordinho, que não possuía nenhum conhecimento sobre qualquer doença nem sobre qualquer remédio, mas como todo o soldado, desenvolvera uma grande habilidade, muito valorizada por monarcas, sabia bater continência e dizer “Sim, senhor”, uma espécie de ciência da logística que ele, ao longo de uma vida de subalterno, aprendeu a pôr em prática. Seu lema era obedecer sem questionar, desde que a ordem venha de um superior. Em resumo, um amontoado de lipídios que se prestava de maneira exemplar para cu mprir as determinações reais.

Escolheu seus batalhões de soldados e enviou-os pelas terras do reino para colher as ervas milagrosas e transformá-las em tonéis de chá e determinou que os médicos dessem aos pacientes. Mas as mortes aumentavam a cada dia, o povo entrou em pânico e se parou a reclamar, queria um tratamento que realmente os livrasse daquele cataclismo. Além disso, o povo não confiava mais no soldadinho baixinho porque a cada dia ele falava uma coisa diferente, como se estivesse perdido no meio de uma imensa floresta sem saber o caminho que deveria seguir, e se puseram a rir dele. Foi se queixar ao rei sobre a ingratidão que sofria mesmo depois de todos os esforços feitos para colher as ervas mais frondosas do reino para curar os doentes. Mas, a essas alturas, o rei também não sabia mais o que fazer, e se recusava a decretar o fechamento do reino e mandar todo mundo pra casa. Então, nesse caso, a melhor coisa a fazer é demitir alguém. Demitiu o terceiro e chamou o próximo.

O quarto homem foi escolhido entre os médicos do reino, e chegou com a pose de quem entendia do assunto. Conhecido como membro da corte, um dos entusiastas que batiam palma quando qualquer membro da família real contava piadas, tinha a confiança do rei de que não fecharia nada, nem impediria os habitantes de seus domínios de saírem para a rua; que continuaria tudo como estava. Até porque, não havia mais muita coisa a fazer a não ser enterrar os mortos. Ele sentou numa cadeira confortável no gabinete, no alto da torre, e pela janela avistava o cemitério onde se amontoavam milhares de mortos todos os dias. E o povo continuou feliz porque não precisava permanecer em casa. Quando as pessoas passeavam perto do castelo, a potestade real aparecia na janela, acenava para elas lá em baixo, e ouvia um coro gritando a palavra que ele mais gostava de ouvir: Mito, Mito.

*Ademir Furtado é graduado em Letras pela UFRGS, escritor, autor dos romances Se eu olhar pra trás (Editora Dublinense) e O conto do anu (Editora Age)

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.