O punhal invisível

O punhal invisível

José Renato Nalini*

09 de fevereiro de 2021 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Um verniz de civilização inibe os indivíduos que não perderam de todo o escrúpulo de se portarem selvagemente. A vontade seria liquidar o inimigo, assim como acontecia nos primórdios da história. Força física, às vezes potencializada com pedras ou madeira, a eliminar o adverso.

No fundo, o ser humano ainda é o mesmo. Primata disciplinado pela educação, pelo controle social, pela promessa de sanções, mas pronto a ressurgir em sua barbárie, à menor provocação.

Durante bom período a violência e a força física foram coibidos, na dissuasão resultante do apelo à razão. Em momentos sombrios, tais impulsos são estimulados. Cria-se uma série de argumentos persuasivos: teorias da conspiração, invocação a um anacrônico sentido de soberania, como se conviver em paz fosse evidência de debilidade de caráter. Estimular o uso de armas é ferramenta eficaz. O discurso edificante de que elas servirão a proteger os inocentes é surreal. Arma é instrumento letal. Fabricado para matar. Exatamente o contrário de quem estabelece uma hierarquia axiológica em que a vida está em primeiro lugar.

Um sintoma da deterioração da moral coletiva é o uso que as pessoas fazem desse punhal invisível que é a palavra. A palavra fere, corta e mata. As reputações são dissecadas. A maledicência grassa à vontade. Inventam-se estórias e versões. Todas elas tendentes a destruir a honra objetiva de alguém que só cometeu o pecado mortal de pensar de forma diferente.

Os assassinatos perpetrados pelo verbo não são menos graves do que os cruentos, praticados diuturnamente, tradução nem sempre levada a sério nas estatísticas que nos colocam entre os países menos pacíficos em todo o planeta.

É fácil ponderar a respeito: “O assassino típico planeja seu crime, o prepara, o realiza, e, ao realizá-lo, liberta-se por um tempo de seus impulsos; por outro lado, aquele que não mata porque não pode matar, embora tenha desejo de fazê-lo, o assassino irrealizado, veleidoso e elegíaco da matança, comete mentalmente um número ilimitado de crimes, atormenta-se e sofre muito mais que o outro, já que carrega a nostalgia de todas as abominações que não soube perpetrar”.

Essa reflexão de Emil Cioran é muito atual. Os cães raivosos que distilam espuma venenosa no projeto permanente de dilapidação de conceito dos alvos de seu ódio, são perigosos porque não se satisfazem com a veiculação de suas cruéis zombarias. Sabem que as pessoas atingidas continuarão a praticar os atos que irritam os partidários de outra ideologia. Como são obrigados a observar o êxito que muitos deles obtêm na continuidade de suas posturas, potencializam a ira e extravasam sua cólera, tornando-se a cada momento ainda mais destrutivos.

Seremos todos assim? Ou só a maioria?

Para grande parte dos pensadores mais profundos, o ser humano é cruel e abjeto por natureza. Escreveu Cioran que “conhecer a nós mesmos é identificar o motivo sórdido de nossos gestos, o inconfessável inscrito em nossa substância, a soma de misérias patentes ou clandestinas das quais depende nossa eficácia. Tudo o que emana das zonas inferiores de nossa natureza está investido de força, tudo o que vem de baixo estimula: produzimos e rendemos mais por inveja e rapacidade do que por nobreza e desinteresse”.

Como explicar, então, a nobreza de caráter, o devotamento à causa da dignidade do outro, o apostolado de verdadeiros mártires que se imolaram para a salvação alheia?

Não é o que acontece, lamentavelmente, no território da política partidária da Democracia Representativa em plena agonia.

Ali, constatar o que tem acontecido em todas as partes do mundo, mas de maneira muito enfática no surrealismo brasileiro, daria plena razão a Cioran, quando assinala: “Qualquer que seja o setor que nos ocupe, para triunfar nele, temos que cultivar o lado insaciável de nosso caráter, conservar nossas inclinações ao fanatismo, à intolerância e à vingança”.

O fenômeno de fundamentalismo ao contrário de alguns considerados eleitos, pois entendem estar em perfeita consonância com os mandamentos cristãos, leva a pensar se não é verdade que, “por mais alto que nos elevemos, permanecemos prisioneiros de nossa natureza, de nossa queda original”.

É a soberba, o incomensurável amor de si próprio, a arrogância de se pensar filho escolhido do Criador, que leva à cruzada de aniquilar todos os que não seguem idêntica jornada. Vilipendiar quem não se consagra à obra divina adquire a forma de missão. Quase uma fatalidade.

Ostentar como galardão ser fidelíssimo seguidor dos dogmas religiosos pode não ser um título glorioso, principalmente quando isso se converte em passaporte para êxitos profissionais. Medite-se a respeito deste asserto: “Aquele que saiu do anonimato ou que se empenha em sair, prova que eliminou todo escrúpulo de sua vida, que triunfou sobre sua consciência, se é que algum dia a teve”.

O punhal invisível da palavra machuca, fere e mata, ainda quando utilizado para a propagação da boa-nova, para buscar a conversão do outro, esse infeliz que tem dúvidas, que não se entregou à nossa rígida certeza e que não consegue pensar como nós.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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