O propósito ‘S’

O propósito ‘S’

Cassio Grinberg*

15 de maio de 2020 | 07h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Diversificar? Mudar de rumo? Como sintonizar a estratégia quando a conta precisa ser paga?

Do ponto de vista do planejamento, sabemos que existe uma linha tênue entre a diversificação e a perda de foco. No livro Profit from the Core, Chris Zook e James Allen mostraram que apenas 11% das empresas do mundo crescem mais que 5% por um período de dez anos, obtendo retorno sobre o capital investido. Isso aconteceria porque a maioria das estratégias de crescimento destroem valor por diversificar demais — fugindo do core (núcleo) do negócio.

Ainda segundo os autores, a perda de foco foi uma das causas do tombo de boa parte das empresas durante a crise econômica de 2008. Desviaram recursos do negócio principal, se alavancaram e, quando a conta chegou, não conseguiram pagar. Mas e agora, que a crise ao que tudo indica será maior? E que a conta, pelo visto, chegou bem antes?

É importante que neste momento haja uma flexibilização dos limites do core — o que demanda cuidado no foco. Se sua empresa tem um propósito definido, dependendo do impacto da covid é hora de dar um passo atrás. Você passará a adotar o Propósito ‘S’, de sobrevivência — e não se preocupe se isso momentaneamente mudar tudo: a transformação pode indicar um novo e lucrativo caminho. E, por consequência, um ajuste do propósito.

Trazendo para o caminho da ação, teremos que examinar primeiro as ideias. Quanto mais, melhor. Nossas equipes vivenciam o problema tão intensamente quanto nós, então peça a cada um pelo menos 20 ideias do que fazer. Avalie recursos e talentos, e veja como eles podem ser utilizados para produzir o que hoje está vendendo. Seja em termos de produtos ou em termos de serviços. Liste os materiais que você utiliza, as máquinas, o processo.

Nos EUA, é bastante comum as pizzarias venderem o produto em fatias. Este mercado praticamente desapareceu. O que algumas fizeram? Estão comprando grades de plástico e usando os fornos para derreter e fabricar máscaras. Festas de casamento, bar mitzvás, formaturas — tudo está sendo adiado. Alguns fornecedores de flores, no entanto, estão aproveitando que as pessoas estão valorizando a presença em casa e oferecendo montagem de mesas para jantares em família.

Nem todo mundo precisa passar a fabricar máscaras. A não ser, é claro, que o movimento faça sentido e não acarrete a perda de foco. De resto, quanto mais perto do core, menos custo teremos na mudança — sendo bem-vinda a habilidade de transitar entre os extremos do medo da diversificação e da rigidez de uma armadura de foco. Sempre é bom, no entanto, nos cercarmos da experiência de outras crises, mesmo que diferentes em muitos aspectos.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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