O presidente improvável: um documentário acerca da trajetória de Fernando Henrique Cardoso

O presidente improvável: um documentário acerca da trajetória de Fernando Henrique Cardoso

Rodrigo Augusto Prando*

05 de abril de 2022 | 07h00

Fernando Henrique Cardoso. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Fui, pela primeira vez, após mais de dois anos ao cinema. A situação pandêmica suspendeu, para muitos, esse hábito. Em cartaz, “O improvável presidente”, do Diretor Belisário Franca, acerca da trajetória intelectual e política de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Com pipoca no colo e refrigerante, acompanhei, com mais seis pessoas, o filme!

O documentário é uma conjugação de conversas de FHC com notórias figuras que estiveram presentes em sua vida acadêmica, vida pública e vida política. Há, portanto, nomes nacionais e estrangeiros. Amigos de longa data como Boris Fausto e seu filho Sérgio Fausto, atualmente, superintende da Fundação Fernando Henrique Cardoso; Celso Lafer, José Gregori, Gilberto Gil, Gilda Figueiredo Portugal Gouveia, Maria Hermínia Tavares e Beatriz Cardoso, filha de FHC. Há colegas acadêmicos estrangeiros como, por exemplo, Manuel Castells, Alain Touraine e políticos como Ricardo Lagos e Bill Clinton. Nas conversas, FHC vai relembrando momentos de sua existência, às vezes, provocado pelos interlocutores, noutras pelo próprio diretor que não aparece em cena.

A história do Brasil e a trajetória de FHC estão intrinsicamente ligadas ao século XX e início do XXI. Foi Celso Lafer, salvo melhor juízo, num artigo que afirmou que os intelectuais estudam e criticam o poder, podem auxiliar o poder e, raramente, chegam a exercer o poder. FHC cumpriu estas três dimensões. Sua formação em Ciências Socais, na USP, o levou ao domínio do ferramental analítico, especialmente, da Sociologia e da Ciência Política; chegando ao topo da carreira acadêmica como Professor Catedrático. Teve, contudo, sua docência interrompida pela perseguição do Regime Militar e sua aposentadoria compulsória e, consequentemente, necessidade de exilar-se em outros países. O arbítrio dos autocratas da ocasião, no entanto, deu a FHC uma projeção internacional a partir de sua permanência na CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) e da publicação, em coautoria com Enzo Faletto, da obra “Dependência e Desenvolvimento na América Latina”. Assim, na seara da docência e da pesquisa, FHC esteve em salas de aulas e fez investigações em países da América do Sul, da Europa e nos EUA. Mesmo com excelentes condições de trabalho no exterior, FHC volta ao Brasil e funda, junto a outros professores e intelectuais atingidos pelos militares, o CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). No CEBRAP, com recursos de fundações estrangeiras, puderam, com certa segurança, devolver pesquisas aplicadas e melhor compreender a situação política, econômica e social do Brasil dos 1970. Foi lá, no CEBRAP, que FHC estreita laços com o MDB na figura de Ulisses Guimarães. Como a política sempre esteve presente no bojo de sua família, FHC toma gosto pela relação com setores da política nacional que lutavam pelo restabelecimento da democracia.

Politicamente, FHC chegou à condição de suplente de Senador e quando Franco Montoro foi eleito Governador de São Paulo, FHC retorna do exterior para assumir uma cadeira no Senado. Relembra – com Nelson Jobim – a enorme agitação que se deu, em Brasília, por ocasião da Assembleia Constituinte e da redação da Constituição de 1988. Em dado momento, foi rememorado, também, a derrota de FHC para Jânio Quadros na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 1985. Dali em diante, FHC permanece no Senado, ganha musculatura política, será um dos fundadores do PSDB e, após o impeachment de Collor, exerce dois ministérios no Governo Itamar Franco: Ministro das Relações Exteriores e Ministro da Fazenda. Como titular da pasta da Economia, FHC orquestra a construção de um plano econômico objetivando o controle da hiperinflação e a estabilidade da economia nacional. Neste campo, a conversa se desenvolve com Pedro Malan e Pérsio Arida, este destacando o importante papel de FHC em comunicar, didaticamente,  à sociedade e à classe política a complexidade do Plano Real. O sucesso do Real foi, como se sabe, a base que levou à vitória de FHC sobre Lula, em 1994 e, depois, sua reeleição em 1998. Aliás, aqui, um parêntesis: FHC afirma não ter certeza de que o estatuto da reeleição seja benéfico, ponto bastante explorado pelos jornalistas que resenharam o filme.

Conheço relativamente bem os fatos narrados no documentário, pois foi objeto de estudo de minha tese de doutorado. Mesmo assim, alguns momentos são, sempre, reveladores. Um que me chamou a atenção foi quando Beatriz Cardoso, Bia, assim chamada pelo pai, questiona o porquê da narrativa do PT em relação a FHC ter “colado”, de que era, por exemplo, neoliberal. FHC responde que é a narrativa, mas não a realidade. Noutro momento, FHC afirma que deveriam ter “cacarejado” mais em relação aos acertos do governo, lembrando da galinha que anuncia com vigor o ovo botado. Na discussão sobre a diferença do professor e intelectual e do político no que tange à comunicação com a sociedade, FHC diz que aprendeu que não era necessário um novo discurso a cada cidade ou palanque no qual estava e que o importante era escolher três pontos e reafirmá-los com ênfase. Disso, há uma passagem, quando chega dos EUA, e, recém guindado à condição de Ministro da Fazenda, fala aos jornalistas, ainda no aeroporto, que o problema do Brasil era: “Em primeiro lugar a inflação; em segundo lugar, a inflação e em terceiro lugar, a inflação”.

Ao fim e ao cabo dos 100 minutos do documentário de Belisario Franca, resta-nos uma dose de alegria e de tristeza. Alegria por, com todas as críticas – legítimas – que se possa fazer às posições políticas e ao Governo FHC, até os adversários reconhecem que foi um democrata no exercício do poder. Tristeza de ver que, após dialogar com amigos e figuras políticas, em português, inglês, espanhol e francês, temos políticos, hoje, distantes dos ideais democráticos e que, sequer, dominam o básico do idioma pátrio. Triste, ainda, é perceber que aos 90 anos, lúcido, FHC é obrigado a vivenciar a crise de seu partido e os ataques populistas tão evidentes à democracia e às nossas instituições.

P.S.: Se o estimado leitor e a estimada leitora me permitem uma sugestão, além do filme, podem ter um bom resumo da trajetória de FHC na obra “A arte da política: a história que vivi”, da Editora Civilização Brasileira, de 2006; dos “Diários da Presidência”, em seus quatro volumes, da Companhia das Letras e, seu último livro, “Fernando Henrique Cardoso: um intelectual na política {memórias}”, da Companhia das Letras, de 2021.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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