O potencial do Brasil para a descarbonização da produção de alimentos

O potencial do Brasil para a descarbonização da produção de alimentos

Olaf Hektoen*

20 de outubro de 2021 | 06h00

Olaf Hektoen. FOTO: DIVULGAÇÃO

Falar da vocação agrícola do Brasil e dos recordes de produtividade que o País alcança a cada safra se tornou comum. Não é à toa que o agronegócio é uma das grandes forças do PIB e uma segurança para a economia nacional, mesmo em tempos de crise. Considerado por muitos como o “celeiro” do mundo, à primeira vista parece que o país encontrou no campo seu porto-seguro. Porém, a demanda crescente por alimentos é apenas uma das grandes tendências globais. Do outro lado da mesa, há um apelo urgente por uma produção cada vez mais sustentável – questão que já impacta os negócios e deve ganhar ainda mais força a partir da próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP26, que acontece em novembro.

A boa notícia é que estamos no caminho certo para cultivar um futuro alimentar positivo para o clima. Quando olhamos para dentro da porteira, o produtor rural brasileiro é um dos maiores adeptos de tecnologia, e é ela que viabiliza a agricultura de precisão, permitindo a otimização de recursos e maior eficiência da operação. Em sua maioria, o agricultor também já promove práticas benéficas para o meio ambiente, como o cultivo por cobertura e o plantio direto, modelos que revolucionaram a agricultura brasileira.

Mas, é claro que ainda não chegamos lá, e há muitas oportunidades. Uma das mais relevantes está no fertilizante. Ao mesmo tempo em que é um insumo essencial para garantir a segurança alimentar global, pois permite maiores índices de produtividade agrícola sem a necessidade de expansão da área plantada – responsável por quase 50% da produção mundial –, ele responde por uma fatia das emissões de gases de efeito estufa (GEE) na produção de alimentos. Então, como conciliar o “alimentar o mundo” com o “proteger o planeta”?

Hoje, o fertilizante nitrogenado é produzido a partir de derivados de compostos fósseis, como o petróleo e o gás natural, e necessita de fontes de energia – nem sempre sustentáveis – em seu processo. Porém, essa cadeia pode ser transformada no curto prazo com a substituição do gás natural, por exemplo, por biometano como fonte para a produção de amônia verde, reduzindo em no mínimo 80% a emissão de gases em sua fabricação. A amônia verde é a base para a produção de nitratos (fonte que fornece o nitrogênio para as plantas), e pode ser originada em processos químicos via energia renovável, como a eólica, a solar, ou até pelo biometano, um biogás feito a partir de resíduos orgânicos. O último da lista é uma das alternativas mais promissoras para o Brasil, devido à nossa produção rural de larga escala e que gera os resíduos orgânicos necessários para a produção do gás. E a indústria nacional já tem se movimentado nesse sentido, firmando parcerias e se preparando em infraestrutura, com a expectativa de início da produção do fertilizante verde por aqui a partir de 2023.

Além de um processo produtivo mais sustentável, essas soluções a base de nitrato já contribuem diretamente para aumentar a eficiência do uso do nutriente no campo ao não volatilizar (ou seja, perderem parte de sua composição como forma de gás ao serem aplicados em determinadas condições climáticas), o que consequentemente diminui o impacto ambiental e proporciona rendimentos mais elevados, se comparado a outras fontes.

A partir desse cenário, conseguiremos ver em muitas culturas a economia circular funcionando na prática. Um exemplo é a sucroalcooleira, em que os resíduos da lavoura de cana-de-açúcar se transformam em biometano, este em amônia verde, e esta em fertilizantes nitrogenados, que são reaplicados para nutrir o canavial. Ao certificar esses processos e insumos inteligentes para o clima em programas bem estruturados, como o Renovabio, toda a cadeia sairá ganhando – o produtor rural, a usina, a indústria, o mercado, o consumidor e, é claro, o planeta.

Portanto, é justamente a combinação de dois fatores principais que nos levará à descarbonização da cadeia da produção de alimentos: introduzir práticas que sequestram carbono no solo e reduzir as emissões de gases do efeito estufa das operações agrícolas. Fazem parte desse conjunto o fertilizante verde, as ferramentas digitais, o conhecimento agronômico, a adoção de práticas positivas para o clima, e ainda todo o suporte para o agricultor, que desempenha um papel-chave nesse processo, seja em recomendações nutricionais, em soluções financeiras ou na criação de novos fluxos de receita. Assim, fica estabelecido o “cultivo de carbono”, que ainda contribui para a saúde do solo, uma vez que melhora sua estrutura, a capacidade de retenção de água e troca de nutrientes. E isso resulta em safras de maior produtividade, maior resiliência (tolerância ao estresse) e menor necessidade de insumos.

Por fim, para consolidar essa agenda verde e fazer com que ela ganhe escala, temos desafios importantes pela frente, e o primeiro deles é criar os meios para viabilizar uma economia de baixo carbono no Brasil, de forma ampla, definitiva e integrada. Precisamos monetizar o ativo ambiental gerado pelo agricultor, permitindo que ele invista nesse novo modelo de negócio. Para isso, ainda esbarramos na falta de regulação do mercado de carbono para comercializar safras certificadas e de soluções para monitorar as propriedades rurais – jornada que tem sido acelerada pela inovação aberta, com o trabalho das agtechs. Ao mesmo tempo, é urgente que o país crie políticas de incentivo com base em parâmetros de sustentabilidade bem estabelecidos, tornando matérias-primas como o biometano mais competitivas, por exemplo, e atraindo mais investimentos para o mercado, de ponta a ponta desta cadeia.

A COP-26 certamente traçará metas ainda mais audaciosas. E o Brasil, como uma das principais potências agrícolas mundiais, estará mais uma vez nos holofotes, com total capacidade para liderar essa transformação global dos sistemas alimentares. Devemos avançar com consistência neste compromisso, do campo à mesa, e só conseguiremos alcançar um futuro positivo para o clima se trabalharmos juntos, ampliando o diálogo e somando forças entre esfera pública, privada, academia, agricultores, sociedade e todos que fazem parte da cadeia da produção de alimentos. Alimentar o mundo e proteger o planeta é possível e necessário.

*Olaf Hektoen, presidente da Yara Brasil

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