‘O Planalto que pediu’, disse Zambelli ao pedir a Moro que não abandonasse governo Bolsonaro

‘O Planalto que pediu’, disse Zambelli ao pedir a Moro que não abandonasse governo Bolsonaro

Deputada federal que depôs na quarta-feira, 13, no inquérito Moro contra Bolsonaro, exibiu diálogos por Whatsapp com ex-ministro da Justiça e Segurança Pública minutos antes da renúncia que abalou o Planalto

Fausto Macedo e Pepita Ortega

14 de maio de 2020 | 19h20

Foto: Reprodução

A deputada federal Carla Zambelli (PSL) tentou fazer com que o ex-ministro Sérgio Moro não deixasse o governo Bolsonaro, pouco antes de o ex-juiz anunciar sua demissão no último dia 24, indicam mensagens obtidas pelo Estado. Pelo Whatsapp, a parlamentar diz que o Planalto a pediu para falar com o então ministro e afirma que ‘não teria porque’ Moro sair do governo uma vez que, segundo ela, o diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo teria pedido para sair do comando da corporação. O ex-juiz respondeu: “Se o PR anular o decreto de exoneração, ok”.

Na conversa, Zambelli diz ainda que foi até o Ministério da Justiça para tentar conversar com Moro como sua ‘admiradora. Tudo o que os criminosos querem é a sua saída. Não dê esse gosto a eles, por favor. O Brasil precisa de você”, diz a deputada em outro trecho da conversa.

As mensagens corroboram parte do relato feito pela deputada à Polícia Federal nesta quarta, 13, em Brasília. Zambelli foi intimada a depor no inquérito sobre suposta tentativa de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal após Moro tornar público conversa em que a parlamentar pedia para que o então ministro aceitasse uma vaga no Supremo Tribunal Federal em setembro, e também a troca na Polícia Federal, aceitando o delegado Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro, como novo chefe da corporação. “Vá em setembro para o STF. Eu me comprometo a ajudar. A fazer o JB prometer”. “Prezada, não estou à venda”, responde Moro.

No depoimento à PF nesta terça, 13, Zambelli afirmou que ouviu do ex-Diretor-Geral da corporação, Maurício Valeixo, que ele havia pedido demissão. A informação teria sido obtida em ligação pelo Whatsapp no dia 23 de abril.

A versão da deputada, no entanto, contraria as informações prestadas por Moro e por Valeixo à PF. O ex-chefe da corporação disse que não houve ‘formalização’ de sua exoneração como ‘a pedido’. Moro também afirmou que embora o decreto de exoneração de seu homem de confiança constasse a indicação de que pediu para deixar o cargo, o ex-diretor-geral não o teria feito.

A parlamentar também disse aos investigadores, na sede da Polícia Federal em Brasília, acreditar que o presidente Jair Bolsonaro não confiava no ex-diretor da PF porque o então ministro Sergio Moro era “desarmamentista”. Segundo a deputada, Moro e o presidente Jair Bolsonaro haviam tido “algo recente” sobre esse tema.

Questionada sobre a troca de mensagens tornada pública por Moro no dia de sua demissão, Zambelli disse que “como ativista, chegou a trabalhar junto ao então presidente Temer na indicação de Ives Gandra Martins Filho à vaga do STF do Ministro Teori” e que, por isso, achava que poderia “trabalhar junto ao presidente Jair Bolsonaro” para que Sérgio Moro fosse o substituto do ministro Celso de Mello. O decano se aposenta do Supremo Tribunal Federal (STF) no fim deste ano.

Ainda sobre a tentativa de emplacar Moro no STF, a deputada afirmou que não chegou a conversar com Bolsonaro, ou interlocutores do presidente, sobre a proposta feita a Moro. Zambelli disse que as mensagens foram uma tentativa de aproximar o então ministro do presidente Jair Bolsonaro e nada tiveram a ver com uma suposta tentativa de interferência do chefe do Executivo na Polícia Federal.

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