O petismo na economia, a China no mundo

O petismo na economia, a China no mundo

Tony Volpon*

21 de agosto de 2019 | 06h00

Tony Volpon. FOTO: DIVULGAÇÃO

Como contar a história da economia brasileira neste milênio? Fora seu inicio, que coincidiu com o final do governo Fernando Henrique Cardoso, essa história passa pelos dois governos petistas de Lula e Dilma Rousseff.

O contraste entre esses dois governos, apesar de pertencerem à mesma matriz ideológica, tendo grande coincidência entre seus dirigentes (especialmente com a onipresença da liderança política pessoal de Lula no PT), não poderia ser maior: o governo Lula, por várias métricas objetivas, como crescimento econômico, distribuição de renda e solidez fiscal, foi um sucesso; enquanto, no governo Dilma, se viu um constante retrocesso em todas essas métricas, culminando na recessão de 2014, a maior da história brasileira. Uma recessão que, do ponto de vista do desemprego, dos níveis de investimentos, e da crise fiscal, ainda não acabou.

Como explicar essas gritantes diferenças? No meu novo livro, Pragmatismo sob coação, aponto um agente não tão oculto como sendo o grande responsável: a China. Mas não somente a China como grande compradora das nossas exportações, que elevou os preços de variadas matérias prima, gerando um período de abundância, que infelizmente acabou antes do que muitos esperavam.

Não que nada disso não seja verdade, mas a história vai muito além. No livro explicamos como a entrada da China na economia global a partir do novo milênio, dado as particularidades de seu modelo de desenvolvimento, foi responsável pelos excelentes anos que antecederam a crise de 2008, e que coincidirão com boa parte do governo de Lula. Mas também explicamos a forma de relacionamento entre a China e os EUA, onde contra todo o senso econômico uma China pobre financiou o consumo de um EUA rico, o que gerou uma crescente fragilidade financeira que acabou desaguando na crise global de 2008. A história da economia global (e brasileira), como também da política global hoje tomada por várias formas de populismo, decorre diretamente das consequências da “Grande Crise Financeira” de 2008, o mais importante evento econômico do milênio.

Explicamos no livro as peculiaridades do sistema politico e econômico chinês, suas várias mutações e desafios que hoje dominam as manchetes com a crescente rivalidade geopolítica, comercial e tecnológica entre a China e os EUA. Não é forçoso argumentar que a história global nas próximas décadas será, em grande parte, determinada pela relação conflituosa entre a emergente potência chinesa e a ainda hegemônica potência americana.

O segundo grande tema do livro, de onde decorre o seu título, é uma expressão que cunhei em 2014, quando era chefe de pesquisa de mercados emergentes do banco de investimento japonês Nomura, em Nova York, para descrever o que eu acreditava ser uma surpreendente virada pragmática e ortodoxa da politica econômica que a recém-reeleita Dilma Rousseff iria adotar. Aqui exploro a relação complexa entre a política e os mercados financeiros, tomando tanto o governo Lula como o governo Dilma como exemplos de quando essa relação funciona, e pode ser benéfica, e quando ela se torna nociva e destruidora. Discuto meu período como diretor do Banco Central no governo Dilma entre 2015 e 2016, anos do pior período econômico da nossa história e da grave crise política que levou ao impeachment e o fim dos governos petista em nível nacional.

No Brasil, país fechado, de tamanho continental e com grande presença do estado na economia, a grande parte das explicações por tudo que acontece acabam sendo direcionadas a Brasília. Nossa tendência é de ignorar, ou pelo menos menosprezar, a importância das forças e tendências globais que acabam sendo os fatores determinantes do nosso destino. Nos últimos vinte anos, muitos dos erros e oportunidades perdidas foram frutos da má compreensão da dinâmica global. Em Pragmatismo sob coação, explicamos o que aconteceu para que seus leitores estejam mais bem preparados para entender o que vai acontecer.

*Tony Volpon é economista-chefe do UBS Brasil, Professor do Mestrado Profissional em Economia da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV) e autor do livro Pragmatismo Sob Coação – Petismo e Economia em um Mundo de Crises (Alta Books)

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: