O perigo do revisionismo histórico autocrático para a paz mundial

O perigo do revisionismo histórico autocrático para a paz mundial

Deijenane Santos*

24 de março de 2022 | 05h40

Deijenane Santos. FOTO: DIVULGAÇÃO

O revisionismo histórico de autocratas com inclinações imperialistas é responsável por grandes tragédias ao longo da história humana. Em épocas mais recentes, a catástrofe da guerra foi o meio utilizado por líderes ávidos pela conquista territorial e pelo domínio dos povos, a exemplo do regime nazista de Adolf Hitler, da Guerra da Bósnia (1992-1995), perpetrada principalmente pelo sérvio Slobodan Milosevic e, recentemente, pela invasão da Ucrânia liderada por Vladimir Putin.

Adepto do conceito da Geografia Política conhecido como Lebensraum (Espaço Vital) de autoria de Friedrich Ratzel, Hitler acreditava que a Alemanha Nazista deveria dominar territórios tidos como essenciais para o progresso do Terceiro Reich e foi exatamente esse tipo de pensamento que o levou a anexar os Sudetos na antiga Tchecoslováquia, em 1938, região rica em minérios, e de quebra, unir-se à população local de etnia alemã.

Além da motivação do Espaço Vital, os avanços territoriais de Hitler também eram resultado de um revanchismo alemão, em decorrência das punições infligidas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (1919), após a Primeira Guerra Mundial. Na visão de Hitler, o interesse alemão em reconquistar os territórios perdidos era legítimo, a Alemanha não poderia se curvar aos seus inimigos. Em razão do imperialismo do Terceiro Reich, o mundo mergulhou no maior conflito já testemunhado pela humanidade, a Segunda Guerra Mundial.

No início dos anos de 1990, a comunidade internacional assistiria ao esfacelamento da antiga Iugoslávia. A Guerra da Bósnia trouxe a carnificina para o horário nobre e milhões de pessoas acompanharam o maior e mais sangrento conflito fraticida de que a Europa teve notícia. Por certo que todos os lados (sérvios, bósnios e croatas) envolvidos no conflito cometeram inúmeras atrocidades, mas há quase um consenso entre os estudiosos do assunto no que tange à responsabilidade da Sérvia e de seu líder, Milosevic, pelas maiores crueldades da guerra.

O nacionalismo revisionista de Milosevic não só desmembrou o que sobrara da Iugoslávia após a morte do marechal Tito, como também deu início aquele que seria o maior conflito na Europa no pós-Segunda Guerra. A partir da década de 1990, Milosevic estaria disposto a colocar em prática o seu plano revisionista de criar uma grande Sérvia, livre de quaisquer outras etnias. Quando a Bósnia-Herzegovina, região na qual habitavam sérvios, croatas e muçulmanos (bosníacos), decidiu se separar da antiga Iugoslávia, a exemplo de Eslovênia, Croácia e Macedônia, os sérvios, contrários à ideia, atacaram a população da Bósnia e deram início à guerra.

Acredita-se que cerca de 200 mil pessoas tenham morrido nesse conflito, principalmente bosníacos, lado mais perseguido pelos sérvios. A milícia de Milosevic, liderada por Ratko Mladic, conhecido como o Carniceiro dos Bálcãs, aterrorizou a população da cidade de Sarajevo, capital da Bósnia durante o maior cerco da história militar moderna. Os habitantes da cidade eram alvejados por snipers e por bombas da milícia sérvia dia e noite, um verdadeiro inferno na terra. Com a guerra da Bósnia, a Europa voltou a ver campos de concentração e imagens de homens emagrecidos e amedrontados foram transmitidas pela imprensa para o mundo.

Testemunhou-se ainda a Limpeza Étnica (expulsão em massa de bósnios e croatas de suas terras, além de assassinatos e estupros por parte principalmente dos sérvios) e o Genocídio de Srebrenica (1995) no qual entre sete e oito mil homens e meninos bósnios foram mortos pela milícia sérvia. Puro terror diante dos olhos do mundo.

Veja-se o caso mais recente, a invasão ucraniana pelo exército russo de Vladimir Putin. O mundo está refém de um homem que não mede esforços para alcançar seus objetivos imperialistas. Putin deseja a volta do antigo Império Russo dos czares e acredita no protagonismo da Grande Mãe Rússia, uma idealização que vê a Rússia como uma nação que deve ser protagonista no cenário mundial. Putin é a história que se repete, é o tirano com anseios imperialistas que não obedece a quaisquer regras do jogo internacional.

Um autocrata revisionista, amante da tirania, tirania sobre seu povo, tirania sobre a Ucrânia, Estado soberano que, segundo Putin, é parte integrante da Grande Mãe Rússia, quando historicamente, a Ucrânia é muito mais antiga como Estado do que a própria Rússia. Aliás, a guerra de Putin não acontece apenas em solo ucraniano, mas nas mentes e corações, especialmente dos cidadãos russos. A mentira e a manipulação são armas usadas por Putin para manter uma narrativa falaciosa no que tange ao conflito que assola a Ucrânia.

Como um típico autocrata revisionista, Putin não deve parar na Ucrânia, mas deve seguir com suas tentativas de conquista das nações as quais ele considera parte da Rússia. A história não está tão distante quando se trata de líderes imperialistas, o sofrimento causado por estes tiranos também não está distante das populações que são suas vítimas. Infelizmente, Putin está disposto a enfrentar qualquer obstáculo que possa atrapalhar o seu projeto de império. Eis o perigo do revisionismo de um autocrata para a paz mundial.

*Deijenane Santos, mestre em Ciência Políticas e docente do curso de Relações Internacionais da Estácio

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