O perigo da ignorância histórica e o pedido da volta da ditadura militar no Brasil

O perigo da ignorância histórica e o pedido da volta da ditadura militar no Brasil

Patricia Alves*

28 de junho de 2021 | 13h17

Patricia Alves. FOTO: ANGELO PASTORELLO

Assisto estarrecida, todos os dias, a manifestações pedindo intervenção militar, volta do AI5 e todo tipo de retrocesso que nunca pensei assistir em 2021.
Em meio a tempos tão sombrios e prestes a presenciar a eleição mais polarizada da história do País, me assusto com a falta de conhecimento histórico que ronda a maior parte da população brasileira.

Recebi das mãos da colega Sheila Santos uma obra fruto de anos de estudo e imersão no tempo mais tenebroso que este país já viveu.

Durante a execução de seu primoroso trabalho a jornalista, professora e pesquisadora, presenciou estarrecida jovens se retirarem de suas aulas dizendo que a ditadura militar nunca existiu ou que “não foi bem assim’’.

A luta em tempos de democracia: Lamarca, Marighella e os crimes sem perdão da ditadura militar é lançada no momento em que mais precisamos revisitar o hábito da leitura, completamente esquecida quando um governo propõe sobretaxar livros e liberar armas.

O país que cortou todas as verbas dos pesquisadores precisa entender, definitivamente, que a história foi muito pior do que nós – que não vivemos- poderemos um dia imaginar.

Artistas torturados, jornalistas mortos brutalmente, professores que escondiam livros em suas casas por conta de conteúdos considerados “subversivos.”
Mulheres estupradas e todo tipo de tortura física, psíquica e moral.

Famílias inteiras devastadas para que em pleno 2021 um jovem ostente a camiseta de um torturador?

Onde nos perdemos?

Não me venham com discursos de ódio ou alusões a partidos de esquerda ou gritos infantis de “petralha”.

Vamos dialogar, respeitar as diferenças e mais do que isso: jamais colocar em risco a democracia ou a liberdade de imprensa, conquistada através de tanta luta e sangue derramado.

Para os que acham que na época da ditadura tivemos um crescimento econômico, lhe faltam informações importantes.

A abertura de universidades e desenvolvimento teve um alto custo e enorme endividamento.

Pouca gente sabe, mas foram emitidos 17 atos institucionais, que legitimavam o poder da ditadura.

Eles criaram uma visão e garantia de que o que acontecia era normal, ampliando os poderes do Executivo, que fazia o que bem entendia. Em 1968 veio o AI-5 e uma grande piora.

Para os que pedem a volta do regime militar, eles não sabem com o que estão mexendo.

Ingenuamente ou não associam uma moralização a uma militarização.

Sou contra militares no governo, porque podemos precisar deles para dissolver algo do próprio Estado. Eles precisam garantir a Constituição.

É absurdo ter mais militares no poder hoje do que na época da ditadura.

Não se nega a importância das Forças Armadas. Elas devem proteger as divisas e fazer missões humanitárias. Mas o fato de estar no seio do governo compromete, por ser parte interessada.

Já que estamos em plena pandemia voltemos para a gripe espanhola. O Brasil também estava polarizado naquela época.

Não é diferente agora. Ficou pior porque a pandemia explodiu, mas já tivemos H1N1, dengue, hoje é muito parecido com o começo do século 20.

Não sabemos lidar, as informações chegam comprometidas, envoltas em fake news, ou através de influenciadores sem nenhum conteúdo. A grande maioria da população não sabe em quem acreditar.

Muita gente dizia que era impossível repetir uma pandemia como a gripe espanhola, assim como acham que é impossível a volta da ditadura.

Mas devemos ficar atentos, resistentes e fortes! Ela pode voltar, sim.

Muita gente falava que tínhamos superado a era das pandemias.

Isso serve para as ditaduras também.

*Patricia Alves é diretora da Patwork, faz parte do Comitê de Comunicação da LoveTogether Brasil e do conselho da ONG Aliança Solidária.
Jornalista graduada pela FMU de São Paulo e pós-graduada em Comunicação Coorporativa pela Fundação Casper Líbero.
Repórter de TV no programa Empresários de Sucesso da Band News, Band Internacional e canal Terra Viva e colunista de lifestyle da revista Mensch.

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