O patriarca da delação da Odebrecht coloca culpa na imprensa e no Ministério Público

Emílio Odebrecht afirmou que a corrupção descoberta pela Lava Jato existe há 30 anos e que é demagogia a indignação com os esquemas de desvios, que movimentaram US$ 3,3 bilhões em propinas e caixa 2, entre 2006 a 2014

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Fausto Macedo e Luiz Vassallo

16 de abril de 2017 | 10h00

emilioodebrecht

Patriarca da maior delação premiada fechada nesses três anos de Operação Lava Jato, Emílio Odebrecht dividiu com a imprensa e o Ministério Público a culpa pelo mega esquema de corrupção e lavagem de dinheiro existente dentro do Grupo Odebrecht – que entre 2006 e 2014 pagou US$ 3,3 bilhões de propinas e caixa 2 a políticos, partidos e agentes públicos.

“A imprensa toda sabia de que efetivamente o que acontecia era isso. Por que agora estão fazendo tudo isso? Por que não fizeram isso há 10, 15, 20 anos atrás? Porque tudo isso é feito há 30 anos”, afirmou Emílio Odebrecht, em seu termo de delação premiada número 1.

Deflagrada em março de 2014, a Operação Lava Jato iniciou investigando o crime de lavagem de dinheiro de familiares do ex-deputado federal José Janene (PP-PR), morto em 2010, envolvendo pouco mais de R$ 1 milhão, e chegou ao maior esquema de corrupção sistêmico já descoberto pelo Ministério Público brasileiro. Um cartel formado pelas maiores empreiteiras do País, entre elas a Odebrecht, teria desviado em conluio com políticos da base dos governo Lula e Dilma mais de R$ 40 bilhões da Petrobrás, em dez anos.

A prisão de Marcelo Odebrecht, filho e presidente do Grupo Odebrecht, em junho de 2015, levou o patriarca a buscar um acordo de delação premiada, em 2016, que envolveu 78 executivos e ex-executivos da empresa.

Nos depoimentos, tornados públicos na última semana, eles confessaram pagar US$ 3,3 bilhões em propinas via um departamento de propinas montado na estrutura oficial da empresa, de forma paralela: o Setor de Operações Estruturadas. São pagamentos em dinheiro vivo para políticos do PT, PMDB, PSDB e praticamente de todas as legendas brasileiras, em troca de favores no Congresso, na União.

“O que me entristece é que existem…, não vocês jovens”, disse Emílio.

“Chefe, os da minha geração, eu não aceito essa omissão.”

O delator disse acreditar que “todos deveriam fazer uma lavagem de roupa nas suas casas, sobre o que a gente pode fazer”.

“A própria imprensa sabia disso tudo e fica agora com essa demagogia.”

O primeiro depoimento de Emílio foi tomado no dia 13 de dezembro de 2016.

Corrupção institucionalizada. Segundo o delator, “tudo que está acontecendo era um negócio institucionalizado, era uma coisa normal”.

“O que nós temos no Brasil não é um negócio de 5 anos, de 10 anos, estamos falando de 30 anos.”

Emílio afirmou que políticos e partidos sempre se interessaram nos “orçamentos gordos”.

“Em função de todo esse número de partidos, onde eles brigavam, eram por que? Por cargos? Não, todo mundo sabia que não era, era por orçamentos gordos.”

O patriarca da mega delação da Odebrecht afirmou que os partidos “colocavam seus mandatários” em cargos estratégicos do governo “com a finalidade de arrecadar recursos para os políticos”. “E isso, é há 30 anos que se faz.”

O procurador da República Sérgio Bruno Cabral o interrompeu e disse que sempre é tempo de iniciar uma mudança. ‘Vamos ver se conseguimos melhorar um pouco o nosso País.”

O delator disse que o fato não “exime em nada” a responsabilidade da empresa nem “a benevolência” e o fato de passarem a “olhar isso como normalidade”. “Porque, 30 anos, é difícil as coias não passarem a ser normais.”

“O que me surpreende, e eu procurei colocar de uma forma muito clara, mas quero ter a oportunidade de se enfatizar, o que me surpreende é quando veja todos esses Poderes e a imprensa, como se isso fosse uma surpresa. Olha, me incomoda isso.”

 

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: