O passo a passo da prisão de Mantega, alvo da 34ª fase da Lava Jato

Veja como foi a operação da Arquivo X, que prendeu na quinta, 22, o ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma; detido em frente ao Hospital Albert Einstein, onde mulher faria um procedimento de biópsia no estômago, ele foi solto 5 horas depois

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

24 Setembro 2016 | 17h30

Guido Mantega foi preso na Operação Arquivo X. Foto: Werther Santana/Estadão

Guido Mantega foi preso na Operação Arquivo X. Foto: Werther Santana/Estadão

O relógio marcava 6h01 quando uma equipe da Polícia Federal tocou o interfone do edifício número 153, da Rua Leão Coroado, Vila Madalena, São Paulo. Os agentes informaram o porteiro de que ele deveria abrir o portão para que cumprissem mandado judicial naquele endereço. O funcionário pediu para chamar o síndico, que desceu, em 5 minutos, para falar com os homens de preto. Estava nas ruas a 34ª fase ostensiva da Operação Lava Jato, que apura cartel e corrupção na Petrobrás.

Com mandado judicial em mãos, os policiais tinham ordem do juiz federal Sérgio Moro – titular da Lava Jato, em Curitiba – para prender o brasileiro, nascido na Itália, Guido Mantega e executar buscas em sua residência. Ex-ministro da Fazenda nos governo Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ex-presidente do Conselho de Administração da Petrobrás e ex-presidente do BNDES, ele é o alvo central da operação batizada de Arquivo X – referência ao Grupo OSX, suspeito de pagar propinas.

Mantega é investigado por suposta cobrança de R$ 5 milhões, ao empresário Eike Batista, ex-presidente do Conselho de Administração da OSX, para pagamento de dívida do PT. O valor teria sido pedido em reunião oficial no Ministério da Fazenda, no dia 1º de novembro de 2012, e repassado ao marqueteiro petista João Santana. Responsável pelas campanhas de Dilma (2014 e 2010) e Lula (2010), o valor foi recebido em conta secreta na Suíça – US$ 2,3 milhões transferidos em abril de 2013.

O ex-ministro nega taxativamente as suspeitas e afirmam ser descabidas e vazias as acusações de Eike.

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Alvo de críticas imediatas em redes sociais da internet e na TV e no rádio – parte delas decorrente de fatos que não ocorreram, como a invasão de policiais no centro cirúrgico do Hospital Albert Einstein -, a prisão de Mantega foi cumprida às 7h11 e revogada 5 horas  e 9 minutos depois pelo juiz Sérgio Moro.

No momento da prisão, o ex-ministro acompanhava a mulher, Eliane Berguer – que luta contra um câncer -, no Hospital Albert Einstein, onde esperava o início de um procedimento de biópsia no estômago, já sob efeito de sedativos.

“Procedo de ofício, pela urgência, mas ciente de essa provavelmente seria também a posição do MPF e da autoridade policial. Assim, revogo a prisão temporária decretada contra Guido Mantega, sem prejuízo das demais medidas e a avaliação de medidas futuras”, registrou o juiz federal Sérgio Moro, em sua decisão de revogar a medida cautelar contra o ex-ministro, das 12h20.

O Estadão reconstituiu, com fontes diretas e indiretas do episódio, o passo a passo da prisão mais curta da Lava Jato, nesses dois anos e meio de operação. As investigações acusam a existência de um mega esquema de corrupção, controlado por PT, PMDB e PP, em conluio com empreiteiras de um cartel, para fraudar contratos na Petrobrás. Com desvios de 1% a 3% para propinas e um prejuízo total de mais de R$ 40 bilhões por pagamentos indevidos, as investigações focam nessa etapa o comando político da suposta organização.

Passo a passo. Os policiais souberam que Mantega não estava em sua residência, na manhã daquela quinta-feira, ainda no elevador, quando se preparavam para prendê-lo. Requisitado para ser testemunha do cumprimento do mandado, o porteiro do turno da madrugada que deixava o serviço acompanhou a equipe e, mesmo sem saber ao certo o alvo, avisou os agentes: “o senhor Guido saiu às 4h30”.

No apartamento 141, a equipe da Lava Jato – sem o “japonês da federal”, apelido do agente Newton Ishii – foi atendida por uma empregada, que disse que o patrão estava dormindo. O porteiro poderia estar errado. A funcionária foi até o quarto e, ao retornar, confirmou a versão de que Mantega havia saído e que se lembrou que a “patroa ia fazer um exame no hospital”.

Confirmado com a funcionária que o exame seria no Albert Einstein, dois federais foram para o hospital e dois permaneceram no apartamento com as testemunhas – agora, além do porteiro, as empregadas do casal. No caminho, um dos investigadores ligou para a equipe que permaneceu no local e pediu para que solicitassem ao filho o número de telefone celular do pai. Os agentes consultaram a agenda do adolescente, de 16 anos, e devolveram o aparelho.

Quem ligou para Mantega foi o delegado que conduzia a operação. Era cerca de 6h30 quando o ex-ministro soube que ele era alvo de um mandado judicial a ser cumprido. Foi informado que haveria buscas em seu apartamento a pedido do Ministério Público Federal e seria conveniente a sua presença no local – sem comunicá-lo da ordem de prisão, para evitar a fuga.

O ex-ministro respondeu que esperaria na recepção do hospital e de lá acompanharia a equipe até sua residência. Também por telefone, Mantega conversou com seu advogado, o criminalista José Roberto Batochio, para explicar que esperaria os policiais: “não sou foragido”.

Calçada. Com um carro descaracterizado – sem emblemas da PF, ou sirenes -, os federais estacionaram na ala da maternidade e caminharam até a recepção principal do Albert Einstein, onde esperavam encontrar Mantega. A funcionária foi questionada se havia registro de entrada da mulher do ex-ministro no hospital. Sem conseguir confirmar a informação, a recepcionista acionou um superior para obter o dado.

Enquanto aguardava, os policiais tentaram dois novos contatos telefônicos com Mantega, que não atendeu. Na terceira ligação, o ex-ministro foi informado que os agentes o esperavam na recepção, como combinado em conversa anterior. Ele respondeu que estava na calçada, em frente ao estacionamento do hospital, à espera.

Era 7h11 quando Mantega ouviu do delegado da Lava Jato que ele tinha “uma notícia desagradável para lhe dar, em um dia difícil”. “Tenho aqui comigo um pedido de prisão temporária contra o senhor.” Sem estrilar, o ex-ministro ouviu a notícia e explicou aos agentes que era o responsável por cuidar da mulher, na luta contra o câncer.

Na ocasião, afirmou que ela passaria por uma biópsia no estômago – procedimento médico considerado minimamente invasivo – que estava agendada anteriormente. O objetivo foi retirar uma amostra do tumor para exames.

Os policiais chegaram a sugerir que Mantega comunicasse a família para que alguém fosse até o hospital para acompanhar o mulher, após o término do exame e que poderiam esperar a chegada de alguém. Calmo, mas visivelmente desconcertado com a situação, Mantega dispensou o procedimento e preferiu seguir com a equipe para o apartamento. Ele afirmou que já no primeiro contato telefônico feito pelos investigadores, Eliane já estava sedada.

Celular. Às 7h50, voltaram ao apartamento para início das buscas. Apenas o telefone celular do ex-ministro foi apreendido como material de interesse para as investigações. Em maio, investigadores da Operação Zelotes – que apura corrupção no Conselho de Administração de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda – estiveram no apartamento e recolheram documentos e levaram Mantega coercitivamente para depor.

Durante as buscas, o ex-ministro ofereceu café aos policiais e ainda deixou cair um copo, que espatifou no chão, ao pegar água.

Alvo de prisão temporária – com duração de 5 dias, podendo ser prorrogada por mais 5 dias ao término ou convertida em preventiva, sem data para acabar -, Mantega ouviu dos policiais calmamente quais materiais poderiam entrar na custódio e foi orientado a fazer sua mala.

Um federal acompanhou o ex-ministro até o quarto, que pediu para tomar banho. O pedido foi aceito, mas sob a condição de ser acompanhado por um dos policiais, procedimento adotado para preservar a integridade do investigado – o maior risco é um suicídio. Mantega concordou, sem reclamar.

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Liberdade. Às 9h30, o ex-ministro e os homens de preto da Lava Jato chegaram na sede da Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, já cercada por jornalistas e curiosos. Entrou sem falar e foi levado ao auditório, onde permaneceu. Do prédio, que fica na Lapa, seria levado para o aeroporto, no meio da tarde, de onde seguiria em uma avião da polícia até Curitiba – sede das investigações de corrupção na Petrobrás.

Mantega aguardou a chegada de seu advogado. Pediu para usar o banheiro duas vezes e comeu um lanche e uma salada de fruta – pagos pelo delegado que comandava os homens de preto.

A notícia da revogação das prisão chegou às 12h30, por telefone. O delegado imprimiu o alvará de soltura e apresentou ao ex-ministro, que, com outro semblante, agradeceu o tratamento e disse que “faria chegar à imprensa, a verdade dos fatos”.

Era 14h quando Mantega deixou a sede da Polícia Federal, no carro do advogado José Roberto Batochio e seguiu para sua residência, antes de retornar ao Albert Einstein.

Em breve, o ex-ministro terá que prestar depoimento aos investigadores da Lava Jato sobre sua suposta participação no esquema de propinas na Petrobrás – e fora dela.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE GUIDO MANTEGA

O criminalista José Roberto Batochio, defensor de Guido Mantega, disse que o ex-ministro da Fazenda “nega peremptoriamente qualquer tipo de diálogo com o empresário Eike Batista”.

Segundo Batochio, o ministro Mantega afirmou a ele que “nunca conversou” com Eike.

“Não houve nenhum encontro com Eike. O ministro Mantega assegura que jamais tratou com o sr. Eike sobre contribuição de campanha, sobre pagamento de despesas eleitorais. Portanto, o depoimento desse empresário é absolutamente falso”, reagiu o criminalista José Roberto Batochio.

Na avaliação do advogado de Mantega, Eike Batista “percebeu que estava sendo investigado e, possivelmente, seria alcançado pela mão da Polícia Federal”.

“Então, procurou espontaneamente o Ministério Público Federal e fez um escambo, ‘se não me prenderem posso acusar alguém importante'”, afirma Batochio.

Eike não fez delação premiada, mas para Batochio o empresário agiu como colaborador em busca de benefícios.

O advogado fez uma ironia com o fato de, ao denunciar Lula por corrupção e lavagem de dinheiro, a Procuradoria da República classificou o governo do petista de propinocracia.

“Essa violência contra Guido Mantega mostra que a delação premiadocracia produz deformidades monstruosas. É preciso acabar com a delação premiadocracia ou vamos entrar numa conflagração social.”

“As liberdades individuais e as garantias pessoais estão sequestradas no Brasil e o cativeiro é o Paraná (sede da Lava Jato). Urge libertar as liberdades.””

 

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