O passado que inova ao futuro

O passado que inova ao futuro

Marco Delgado*

11 de novembro de 2020 | 06h55

Marco Delgado. Foto: Divulgação

Muito se tem ouvido, escrito, compartilhado e entoado, às vezes em tom proselitista, de que é necessário inovar para sobreviver num mundo corporativo e profissional cada vez mais competitivo. Mas será isso uma novidade?

A semente da inovação pode ser interpretada como uma dúvida que surge, naturalmente, a partir da curiosidade. Talvez a mesma que estimulou os Sapiens, há mais de 70 mil anos, a saírem do que hoje é o continente africano para descobrirem e colonizarem o globo, subjugando demais espécies contemporâneas do gênero Homo, inclusive os Neandertais que detinham caixa craniana e estatura física maiores do que os Sapiens.

Voltando ao momento, destaco que uma das características que têm sido pontuadas nas organizações para estimular a cultura da inovação é a superação do “medo de errar”. Não obstante, aparenta-me que essa angústia tenha outra natureza, pois o erro, principalmente nas empresas, pode ser afastado ou minimizado objetivamente por meio de estudos prévios, tais como pesquisa de mercado, teste de conceitos, gestão de risco e outras diversas técnicas que visam, ao cabo, mitigar erros e seus efeitos. Então, aquela inquietude pode ser anterior e mais subjetiva. Conjecturo que seja o temor do escárnio ao expor uma ideia diferente por pensar além da caixinha craniana.

Trago como exemplo algo do passado mais próximo, um expoente da arte brasileira: Antônio Francisco Lisboa. Para tanto, recorro a outro ilustre brasileiro, o antropólogo e educador Darcy Ribeiro: “O que seria de nosso passado sem o Aleijadinho? Estaríamos deserdados, empobrecidos, na mesma proporção em que ele, tendo existido, dignificou o nosso povo. Demonstrou como e quando nossa gente é mestiça e dotada da mais alta criatividade artística e cultural”. Entretanto, esse laureado reconhecimento não foi sempre assim. Nos achados do Arquivo Público Mineiro, registros centenários apontam para juízo erudito diametralmente oposto: “O artista que executou este trabalho não tinha a menor ideia do belo entre humano… Figuras medonhas, ..com posições irracionais, feições grotescas, mais própria para fazer rir as crianças do que atrair o coração dos fiéis… Seria de muita honra para a instituição do Sr. Bom Jesus, que a administração tratasse de substituir esses monstros extra-humanos, por figurados que dessem uma ideia séria dos grandes momentos e passos da paixão do Salvador“. Certamente, Antônio Lisboa não teve vida fácil, mas muito pelo contrário. Não obstante, sua perseverança ao lidar com suas limitações físicas, talvez, tenha sido a volição para seguir e concluir os traços de sua obra, hoje, inovadora e genial.

Essa é a reflexão de hoje: a curiosidade dos Sapiens e a volição de um Aleijadinho são exemplos de outrora, mas incutem elementos fundamentais para que as pessoas possam propor inovações. Cabe às organizações reflexão estrutural de como criar esses ambientes e estimular seus colaboradores a esculpi-las no futuro próximo. Pauta presente na CCEE.

*Marco Delgado é Conselheiro da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica

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