O paradoxo David Bowie

O paradoxo David Bowie

Cassio Grinberg*

14 Novembro 2018 | 08h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Apenas serão longevas as empresas que anteciparem o fim do que hoje fazem. Esta é a origem da evolução, o paradoxo fundamental, e uma das coisas mais difíceis de se conseguir — ainda que o ser humano esteja provocando justamente isso.

David Bowie foi astronauta em 1969, com Space Oddity, um dos singles mais tocados na Inglaterra. Foi narrador de contos de terror com The Man Who Sold the World, surrealista com Life on Mars, camaleão do rock com Changes. E fez isso antecipando o final de ciclos bem quando as vendas estavam em alta.

Provocar obsolescência é buscar renovação. É nos libertarmos das ortodoxias que nós mesmos criamos baseados na crença ilusória de que o futuro não vem do futuro. Mudar o foco das ‘soluções que vendem’ para o entendimento de problemas a solucionar: nosso negócio começa a derreter sempre que alguém ‘de outro mundo’ encontra soluções melhores que as nossas para resolver os problemas que nós mesmos deveríamos estar resolvendo.

Bowie foi apocalíptico com Ziggy Stardust, salvador com Starman, crooner com Wild is the Wind, roqueiro alemão com Heroes e romântico com Ashes to Ashes. E com isso nos ensinou que mudança é maior que nossas salas de inovação, com a teoria do Design Thinking, mas a prática de tapar a verdade com ‘insights’ que nos permitem mudar apenas naquilo que nos é confortável.

Estamos, no plano pessoal, provocando nossa própria obsolescência na busca de uma longevidade sem paralelo com passado algum. Trata-se de um processo irreversível e mais natural a cada dia em que dotamos a inteligência artificial com as descobertas das ciências da vida para a compreensão de emoções e desejos, combinando habilidades de modo exponencial para que as máquinas aprendam decisão e intuição e possam substituir motoristas (e acidentes), professores, advogados, tradutores, cozinheiros, médicos, sua profissão, a minha também.

Ray Kurzweil, da Singularity University, afirma categoricamente que, com a evolução da Medicina, a partir do ano 2100 viveremos 5.000 anos. Será interessante abraçar a mudança em vez de despejar trevas sobre o futuro de nossos filhos. David Bowie morreu aos 69, mas alguém discorda que ele viveu uns 500 anos?

*Cassio Grinberg, economista e consultor de empresas

Mais conteúdo sobre:

Artigo