O paradoxo da transparência

O paradoxo da transparência

Izabela Drumond*

12 de abril de 2021 | 05h00

Izabela Drumond. FOTO: PEDRO DUARTE

Quando Eric Arthur Blair escreveu “1984” não existia internet. Sim, foi ele que escreveu o livro que é reconhecido como uma das obras primas da literatura – traduzido em mais de 70 línguas e teve (e tem) milhões de cópias vendidas, sob o pseudônimo de George Orwell. Como ele mesmo disse em referiu diversas vezes ao amigo David Astor, do jornal Observer, precisava terminar aquele “livro sangrento”.

O “livro sangrento” é uma descrição da vida do autor que nos quatro anos que viveu em uma casa na Escócia, emprestada por Astor, quando já viúvo e com o filho criança. Lutou a maior parte do tempo contra uma tuberculose que o levou a morte um ano depois da publicação do livro. Orwell sabia que deveria cuidar da saúde mas aceitou árdua tarefa de terminar o livro na data prometida – dezembro de 1948.

Redigitou sozinho, com máquina de datilografar no colo na cama, as mais de 125 mil palavras. O que, como ele mesmo previa, lhe custou a vida. “Eu deveria ter feito isso há dois meses mas eu queria terminar aquele livro sangrento”, disse Orwell a Astor, quando deu entrada no hospital logo depois de entregar o manuscrito.

A obra teve o título provisório de “O último homem da Europa”. Até outubro de 1948 Orwell estava na dúvida se seria esse o título, ou “1984”. Foi publicado em junho de 1949 na Inglaterra e apenas cinco dias depois nos EUA. Eric Arthur Blair, nascido na Índia Britânica, em 1903, morreu aos 46 anos, em um hospital especializado em turberculose, no sudoeste da Inglaterra, em Cotswolds, em 21 de janeiro de 1950 – seis meses após a publicação do livro.

Na fase final da doença, em correspondências com o amigo Astor, que também se incumbiu de monitorar o tratamento de Blair, o autor brincava que teria que trocar o perfil do Observer (que Astor estava escrevendo) por um obtuário, de tão mal que se sentia.

Obtuários que estamos escrevendo todos os dias no Brasil. Atualizados com a maior virulência para descrever a dor dos que morrem contaminados pela covid-19, sem ar, à espera de oxigênio ou de uma vaga de UTI. E assim, como um jogo de dominó, um vai contaminando o outro em um ciclo vicioso de morte que poderia ser interrompido há um custo muito mais baixo se no início da pandemia tivéssemos tido um conjunto de ações ordenadas nacionais com o foco na saúde da população e no combate ao vírus, conforme recomendado por especialistas e organismos internacionais.

Blair precisou de garra para terminar o livro “sangrento”. Lhe custou a vida mas o autor optou por assumir o risco e imortalizou pseudônimo. No século passado, quando foi escrito, não exigia-se transparência do Estado, dos governos, da sociedade. Pelo menos não dessa forma: não havia meios que nos conectassem 24h por dia, 7 dias por semana. No século XXI temos a internet, o streaming, e as redes sociais digitais que assumem papel singular na difusão da informação.

Uma velocidade e volume tão grande de informação que chega a perturbar. Informação essa que, muitas vezes, infelizmente, não tem a mesma verdade e qualidade noticiosa que gostaríamos que tivessem. Pelo menos que eu, o jornalista Eric Blair, os colegas jornalistas, e provavelmente você leitor.

“A transparência está ai” – muitos vão dizer. Constituição, Lei de acesso à informação, Código Civil e Penal, outras leis do ordenamento jurídico, além da transparência na transmissão ao vivo das sessões legislativas do Congresso Federal, e transmissões do Supremo Tribunal Federal. Falei de todos os poderes? Há sim, o executivo nacional que tem além da TV Brasil tem as redes sociais digitais do presidente da República e tantas outras instituições e pessoas ligadas à administração.

Temos portanto, inúmeras alternativas de transparência para as intituições do Estado, para além das mídias tradicionais – TV, o rádio e o impresso. E a pergunta é: essa transparência garante segurança, estabilidade ou até a ‘verdade’ que o senso comum supõe?

No livro de Orwell, que foi o responsável por lançar termos que ainda hoje utilizamos como o “Big Brother” – “O grande olho”; além do “Duplipensar” e “Novilíngua”. Foi Orwell quem trouxe esse conceito de vigilância em que a transparência está a serviço de uma “ordem” que aprisiona ao invés de libertar.

O livro “1984” é estudado e citado até hoje na concepção de “vigilância” no século XX. Relata-se que Winston Churchill disse a seu médico que leu “1984” duas vezes. O autor viveu e trabalhava como jornalista, na época de políticos como Churchill, Roosevelt, Hitler, Stalin, Mussolini, e Gandhi – da sua terra natal.

O número de mortes na Segunda Guerra Mundial era diário. Só não era transparente. E se fosse? Será que a história seria outra? Quando vi o filme “Memory of the camps”, filmado em abril 1945, com as primeiras cenas que foram gravadas por Hitchcock, a convite do produtor Sidney Bernstein, mostrando as imagens autênticas dos campos de extermínio nazista, passei mal.

As imagens são em preto e branco, gravadas no momento em que as tropas dos Aliados chegaram nos campos de concentração. Sidney Bernstein era o reponsável pelo departamento de cinema na anglo-americana Divisão de Guerra Psicológica (PWD na sigla em inglês). Peter Tanner, o montador do filme, disse que o importante para o cineasta britânico era a credibilidade nas imagens com uma separação rigorosa dos registros documentais e das situações encenadas.

O campo de concentração de Bergen-Belsen foi libertado pelos Aliados em abril 1945, e os alemães tiveram pouco tempo para retirar provas das próprias ações antes de evacuá-lo.

Em 8 de agosto de 1945 o Julgamento de Nuremberg, Tribunal Militar Internacional, foi instituído por EUA, Grã-Bretanha, antiga União Soviética e França. Foram 12 acusados com vereditos de pena de morte, 3 réus com prisão perpétua, 4 réus com penas de 10 a 20 anos de prisão e 3 réus absolvidos.

O filme ficou sem exibição por mais de 30 anos. Teria desaparecido. O jornal The Independent declarou que após ter assistido as imagens Hitchcock ficou dias sem ir ao estúdio. A película foi localizada no início de 1980, por um pesquisador norte-americano no Museu Imperial de Guerra, em Londres.

Toby Haggith, do Museu Imperial de Guerra, afirmou que, ainda em 1945, os Aliados perceberam que não seria bom, para a reconstrução alemã, que as pessoas fossem excessivamente confrontadas com o passado. Uma versão incompleta foi exibida em 1984, no Festival Internacional de Cinema de Berlim – Berlinale. Apenas em 2014 foi exibido na TV britânica.

Hitchcock morreu em 29 de abril de 1980. O “mestre do horror”, na ficção, teria tido dificuldades em digerir os horrores do nazismo.

Aqui no Brasil, somos diariamente confrontados com o número de mortos da covid-19. A transparência dos dados não é sinônimo de segurança jurídica, isonomia ou justiça social. Há que se ter muita luta para chegar lá. A transformação necessária depois do horror precisa de ação. Transparência sem atitude é mero entretenimento. E sim, há quem goste: os sádicos sentem prazer em ver ou fazer os outros sofrerem. Uma realidade bem pior que a ficção.

*Izabela Drumond, mineira, jornalista, mestranda em Comunicação Política no ISCSP da Universidade de Lisboa, pós-graduada em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG e em Comunicação Estratégica pelo ISCSP-UL. Aluna do Labô PUC-SP

Este artigo faz parte de uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac), com publicação periódica. Acesse aqui todos os artigos.

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