O paradigma da gestão de pessoas nas organizações

O paradigma da gestão de pessoas nas organizações

Andréia Girardini*

28 de agosto de 2020 | 04h00

Andréia Girardini. FOTO: DIVULGAÇÃO

Encontrar profissionais com perfis que possuam certificação – como graduação, pós ou MBA – é uma tarefa simples no processo de recrutamento e seleção, assim como encontrar pessoas com qualificações técnicas. O grande desafio, que vem exigindo uma atuação cada vez mais humanizada dos recrutadores e gestores, é acertar na contratação para compor equipes grandes e com habilidades, comportamentos e expectativas diversificadas e complementares.

 

Essa atuação é desafiadora porque existe uma diferença grande entre formação acadêmica ou profissionalizante e as habilidades pessoais adquiridas ao longo da vida, sendo que ambas as características compõem o profissional e definem sua atuação no mercado de trabalho.

 

Imagine como seria mais fácil o trabalho de um recrutador se o perfil profissional fosse constituído como uma receita de bolo: uma colher de sopa das habilidades essenciais, três xícaras de bom comportamento em equipe e uma xícara de bom humor. Após deixar alguns dias em integração, está pronto! Mas a realidade, obviamente, é muito diferente e mais complexa no que diz respeito à seleção de candidatos e, depois, na adaptação dos novos colaboradores para compor uma equipe.

 

Se de um lado existe esse desafio no recrutamento, do outro, essa complexidade e diversidade com a qual nos deparamos é a beleza que encontro no trabalho com pessoas. Ao fugir do etnocentrismo, cultivado por anos em grandes empresas, e focar num trabalho que gera um valor verdadeiro para formar equipes fortes, com pessoas que são complementares entre si, podemos alcançar não apenas engajamento, mas principalmente sinergia entre as pessoas.

 

Essa sinergia, tão importante na construção de um time, é o que pode trazer um valor verdadeiro para as organizações, criando um ambiente prolífero não apenas para a empresa, mas para o todo – cada qual com seus anseios e particularidades.

 

Passada a fase de contratação, existe a de ambientação. O processo de seleção não termina no ato da contratação. Integrar um novo colaborador e ambientá-lo de maneira adequada estão entre as principais preocupações dos profissionais de Recursos Humanos. Essa fase é muito importante para alinhar expectativas, reduzir a ansiedade e acelerar o processo de “encaixe” do novo colaborador na cultura da organização. Nesse processo é preciso olhar com carinho para as individualidades de cada ser humano. Afinal, somos todos únicos, certo?

 

As pessoas podem ter perfis comportamentais e habilidades parecidos, mas cada uma leva consigo anseios, crenças e dominâncias cerebrais diferentes, mas completamente únicas. Por isso, é importante se perguntar: como lidar com as particularidades de cada um, para que assim consigamos potencializar seus talentos?

 

O segredo está nas relações interpessoais, na harmonia com que as pessoas se complementam numa organização. São as pessoas que levam a estratégia da empresa a cabo e, em contrapartida, têm o poder de pará-la.

 

Pesquisas realizadas pela Universidade de Harvard, pela Carnegie Foundation e pelo Stanford Research Center, concluíram – após 5 anos de pesquisa – que as razões pelas quais uma pessoa é capaz de obter, manter e seguir em frente em um trabalho é baseado: 15% em habilidades técnicas (hard skills) e 85% nas habilidades de relacionamentos (soft/people skills).

 

Gerir esses relacionamentos interpessoais se torna mais fácil com uma gerência alinhada e diretrizes organizacionais bem planejadas e executadas. E para que essas diretrizes seja realmente eficaz – isto é, contribua para que os relacionamentos interpessoais de uma organização fluam com harmonia – é essencial que sejam criadas sob os atributos da empatia. Olhar o mundo com o ponto de vista do outro, valorizar as diferenças e entender as demandas de todos que fazem parte do time.

 

Outro ponto essencial para que problemas comportamentais sejam superados e os relacionamentos nutridos é a inteligência emocional. Muita coisa mudou no mundo corporativo, mas a área de Recursos Humanos ainda tende a carregar a máxima de que os profissionais são contratados por seus conhecimentos técnicos, mas demitidos por problemas comportamentais. Aqui, é preciso identificar se esse é mesmo um problema que não tem solução ou se está ligado a uma não adaptação à cultura da organização.

 

A inteligência emocional é a capacidade de administrar emoções para alcançar objetivos. A partir desta definição, é possível entender porque as pessoas precisam saber lidar com seus medos, inseguranças e insatisfações para que tenham sucesso nas atividades pessoais e profissionais.

 

Essa competência, que cada vez mais tem o papel de diferenciar os profissionais, permite desenvolver um ambiente harmonioso e, ao mesmo tempo, gerar produtividade em ideias e resultados. Saber agir emocionalmente com inteligência pode trazer diversas vantagens no dia a dia e na carreira. Porém, as empresas ainda não trabalham tanto nessa questão, estamos dando passos pequenos rumo a uma evolução.

 

E agora, nesses últimos meses, a Covid-19 escancarou de vez essa necessidade de olhar para questões humanas. Já está claro o aumento do nível de estresse, ansiedade e depressão diante desse cenário que nos pegou desprevenidos e de surpresa. Precisamos nos questionar quais medidas estamos tomando para olhar para as nossas pessoas em meio a essa situação e agir rápido para gerar as mudanças necessárias.

 

O dia que investirmos mais em treinamentos de autoconhecimento, forças de caráter, dominâncias cerebrais, valores individuais e tipo Psicológico (MBTI), teremos resultados incríveis. E quando focarmos em desenvolver o ser humano, porque ele é um ser humano – e nós queremos um ser humano melhor e não apenas um funcionário melhor – aí teremos evoluído corporativamente. Cuidar de pessoas, essa continua sendo a mais complexa tarefa de qualquer empresa.

 

É preciso ter como prática uma escuta ativa ao que pensam nossos colaboradores. Para que, assim, possamos prover a melhor experiência que eles podem ter durante suas jornadas conosco. Para tornar isso cada vez mais possível, as ideias precisam ser ouvidas e tratadas com a devida atenção. Por isso, co-criar, colaborar e decidir juntos é o que faz a diferença na gestão de pessoas.

*Andréia Girardini, diretora de Pessoas e Cultura do GetNinjas

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