O papel do tempo

O papel do tempo

Eunice Mendes*

11 de fevereiro de 2021 | 15h20

Eunice Mendes. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Como não se apaixonar por um livro de papel que muda a vida da gente sem pedir nada em troca? Dizem que sou meio saudosista. E sou mesmo, admito. Quando era adolescente, meu pai um dia me levou para conhecer uma gráfica que imprimia jornais. Na época, as letrinhas eram montadas uma a uma e eu fiquei encantada com aquela profissão que, para mim, era pura ourivesaria. Os tipos bailavam ao mesmo tempo em que se tornavam palavras e, depois, frases que seriam lidas por centenas de pessoas na manhã seguinte, cheirando a pão quente e café fresquinho servido em caneca de louça, como parte integrante da refeição matinal. Afinal, era preciso sair da mesa bem informado.

Meu pai assinava o jornal e eu observava o seu gesto metódico de abrir primeiro a página de esportes e, na sequência, todas as outras para ler as matérias de interesse local e nacional. Só dispensava mesmo a seção do horóscopo. Todos os dias bem cedinho, o entregador ainda menino jogava o periódico enrolado na varanda. E ai de quem abrisse o jornal antes e deixasse tudo desarrumado. Herdei dele essa avidez de querer saber das notícias assim que chegavam ao meu alcance. Meu apreço pelas letrinhas que me tiravam do tédio e da solidão de menina do interior era imenso e, com a ajuda delas, fui aprendendo a pensar e a conhecer o mundo inteiro sem sair do lugar. Uma espécie de viagem em preto e branco que se coloria na minha imaginação sem limites.

Como aprendi a identificar o cheiro de tinta no papel desde pequena, percebi que ele também vinha da biblioteca da cidade e da papelaria que vendia livros, ambas com suas coleção de exemplares empinados nas numerosas prateleiras. Podiam até cheirar pela passagem inexorável dos anos, mas resistiam firmes há décadas de consultas e de empréstimos. Eu adorava folhear cada um deles e acariciava os que levava para casa como quem cuida de um ser humano dócil, gentil e sempre cheio de histórias para contar. Eu me deliciava com aquele cheiro de páginas lidas que já tinham levado aprendizado e emoções a tantos leitores.

Nada contra os artefatos tecnológicos atuais, os computadores, os tablets, os e-books e os celulares que ampliam o nosso acesso a um universo infinito de informações. Que sejam muito bem-vindos, é claro. Mas apenas os livros de papel podem cair no chão sem quebrar, sem ter apagada uma só palavra e, ainda por cima guardar folhas e pétalas de flores de momentos especiais, além de marcadores de páginas criativos e personalizados. As dobras na margem direita superior que o digam. Como objetos concretos, podem e devem ser compartilhados em campanhas solidárias como marcar um dia para que todas as pessoas possam deixar um exemplar lido em um lugar público e recolher um outro para ler. Como num passe de mágica. E na verdade é assim que funciona.

Hoje, continuo assinando jornal impresso em papel e o meu prazer é sentido nas minhas retinas que logo percebem que o encanto chegou. Ah, mas e o tato! Tocar nas folhas, sejam elas grossas, sejam elas finas, coloridas ou em preto e banco, revela uma sensação única de conexão imediata com o conteúdo como se fosse um segredo contado ao pé do ouvido. Também a brancura do papel que espera pelas letras antecipa o deleite daquilo de bom que há de ser grafado ou rascunhado. Meus olhos, meu nariz e minhas mãos guardam para sempre as lembranças das histórias que aprendi e dos prazeres que senti nessa interação tão única e universal. Digo mais, enquanto as grandes obras de arte da literatura forem aquelas escritas a pena e à luz de velas, o papel segue ignorando a passagem do tempo, ou melhor, absorvendo e refletindo o que há de melhor nas transformações vividas. Por todas essas razões que se perdem na memória, além de ser um “presente de amigo”, o livro de papel é um ato de amor e de doação sem medida à humanidade em suas diversas formas de manifestação pela escrita. Algo sem preço, mas de valor incalculável.

*Eunice Mendes, escritora e especialista em comunicação verbal e não verbal

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.