O papel do enfermeiro na abordagem do risco das doenças cardiovasculares

O papel do enfermeiro na abordagem do risco das doenças cardiovasculares

Lívia Faller*

11 de novembro de 2021 | 04h30

Lívia Faller. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

As doenças cardiovasculares são problemas crônicos e que necessitam de cuidado ao longo de toda a vida. O paciente portador de hipertensão, colesterol elevado ou outras condições frequentemente abandona o tratamento, caso não esteja orientado e consciente do seu problema.

Dentro desse contexto, o enfermeiro possui um papel fundamental. E um dos principais exemplos é a Estratégia de Saúde da Família. Criada com o objetivo de fortalecer o SUS por meio de iniciativas que visam também promoção de saúde e prevenção de doenças, a ESF conta com o enfermeiro como um de seus principais pilares.

Na grande maioria das vezes são os enfermeiros os responsáveis por todo o acompanhamento e supervisão do trabalho da equipe, além de serem um braço essencial para a assistência e para a educação continuada dos profissionais de saúde. Para ser efetiva, a ESF deve contar minimamente com uma equipe multiprofissional, composta por enfermeiro, médico, técnico ou auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde com prática orientada pelos atributos da Atenção Primária á Saúde (APS): acesso, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado.  Em mais de 27 anos de existência, essa estratégia mostrou-se muito bem-sucedida na reorganização da APS, e isso se reflete também no diagnóstico, acompanhamento e tratamento das doenças cardiovasculares.

Promover o cuidado a longo prazo, com foco na prevenção dos fatores de risco para as DCVs também é um dos objetivos dessa estratégia. Dessa forma, a coordenação do cuidado realizada pelo enfermeiro tem papel fundamental: em algum momento, um paciente portador de doença cardiovascular pode ter seu quadro de saúde agravado, e consequentemente vai precisar ter acesso a outros níveis de atenção à saúde.

O enfermeiro também é responsável por conhecer e acompanhar continuamente os pacientes, de acordo com os seus riscos e particularidades.

Para realizar esse acompanhamento, o enfermeiro também pode realizar a consulta de enfermagem. A consulta de enfermagem pode acontecer de forma intercalada com a consulta médica, antes ou após, e é voltada para o acolhimento e cuidado do paciente. Nesse contexto, o enfermeiro pode atuar inclusive na solicitação de exames e ajuste de medicações, desde que o município ou a instituição em que esse profissional está inserido tenha protocolos de enfermagem validados, o que aumenta de forma significativa a autonomia do enfermeiro e a resolutividade do manejo das doenças cardiovasculares.

Há, ainda, outras iniciativas importantes no âmbito do Sistema Único de Saúde. Tendo em vista que o tabaco é um fator de risco para as DCVs, é importante citar a existência do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, liderado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Essa iniciativa conta com um papel bastante estratégico do profissional de enfermagem, que na grande maioria das vezes é responsável pela coordenação das metodologias e dos grupos de pacientes participantes do programa, que busca promover ações educativas e de comunicação com objetivo de prevenir e promover a cessação do tabaco.

Além do tabagismo, existem diversos outros desafios quando falamos de doenças cardiovasculares: há pouca percepção da população quanto aos fatores de risco relacionados ao colesterol elevado, que ainda são pouco explorados frente a outros fatores relacionados ao desenvolvimento das doenças cardiovasculares, como a hipertensão, diabetes e obesidade. Dessa forma é preciso atentar para o fato de que os índices de LDL-C elevados estão relacionados ao desenvolvimento da doença cardiovascular aterosclerótica, também conhecida como aterosclerose, responsável por 85% dos eventos cardiovasculares graves, como infarto e AVC.

Para além desses exemplos, entendo que o papel da enfermagem na gestão do risco e na prevenção das doenças cardiovasculares ainda necessita ser fortalecido, por meio de políticas públicas que assegurem e ofertem uma gama maior de possibilidades aos pacientes, médicos e profissionais de enfermagem.

Um exemplo são as políticas que promovem rotulagens mais claras nos alimentos industrializados. Atualmente, grande parte dos rótulos trazem termos extremamente técnicos, de difícil compreensão do público leigo, o que impacta na escolha e venda de alimentos não saudáveis. E esta é uma demanda mundial: entre os nossos vizinhos, destaco o Chile como um exemplo bem-sucedido – o país já trabalha com um modelo de rotulagem muito mais claro para o consumidor final, o que já se mostrou positivo para a redução do consumo de alimentos industrializados com baixo valor nutricional.

Entretanto, é preciso também reconhecer os avanços já realizados nesse sentido. Há um Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) do Ministério da Saúde, que vai de 2011 a 2022, que está em sintonia com os objetivos de desenvolvimento sustentável da OMS e inclui estratégias de prevenção e promoção de saúde. Um dos principais objetivos dessa estratégia é promover a adesão, tanto aos tratamentos farmacológicos e não farmacológicos.

Vale lembrar também que o Ministério da Saúde publicou, recentemente, o plano de ações estratégicas para o enfrentamento para as doenças crônicas e agravos não transmissíveis no Brasil, que vai de 2021-2030, que busca a criação e o fortalecimento das políticas públicas intersetoriais e diversas outras estratégias pensadas para a promoção de saúde e para a diminuição das desigualdades em saúde.

Todas essas políticas devem ser norteadas pelo objetivo de orientar estados e municípios para mudar o paradigma das doenças cardiovasculares da cura para a importância da prevenção e adesão ao tratamento, sempre contando com o apoio e contribuições estratégicas dos profissionais de enfermagem. Somente assim poderemos vislumbrar um novo momento para o combate a essa que é a principal causa de morte no Brasil: as doenças cardiovasculares.

*Lívia Faller, enfermeira especialista em Atenção Primária e Gestão em Saúde, gerente de Programas e Promoção de Saúde da Amil e ex-diretora do Departamento Nacional de Promoção da Saúde do Ministério da Saúde

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