O papel da volta às aulas no combate à desinformação

O papel da volta às aulas no combate à desinformação

Maria Clara Cabral e Fabrícia Peixoto*

06 de agosto de 2021 | 12h41

Estudo do Unicef de abril deste ano mostrou que o número de crianças e adolescentes sem acesso à educação no Brasil saltou de 1,1 milhão em 2019 para 5,1 milhões em 2020. A suspensão das aulas presenciais por causa da pandemia e a dificuldade de acesso à internet foram os grandes culpados. E o mais preocupante: durante o período, os jovens foram bombardeadas com desinformação relacionada à Covid-19.

Maria Clara Cabral e Fabrícia Peixoto. Foto: Divulgação.

O fenômeno, chamado pela Organização Mundial da Saúde de infodemia, aconteceu na maior parte do planeta. Alguns países, porém, souberam lidar melhor com o problema. Recente relatório da União Europeia aponta a Finlândia como um exemplo a ser seguido no combate às fake news. O segredo deles? Investir na educação midiática em sala de aula.

Desde cedo, professores incentivam os alunos a avaliar e checar os fatos, pedem para que investiguem notícias duvidosas e encontrem sua fonte. E o mais interessante: o assunto é multidisciplinar. Na educação artística, os professores demonstram como é fácil manipular dados; na aula de história, estudantes são encorajados a “duvidar” de campanhas de propaganda; e na de ciências são incentivados a colocar à prova a desinformações sobre a vacina.

Na sequência de países mais bem capacitados aparecem Dinamarca, Estônia, Suécia e Irlanda, de acordo com o levantamento Media Literacy Index 2021 da European Policies Initiative, feito pelo Open Society Institute – Sofia e o impacto causado na sociedade por causa das notícias falsas e desinformação nesses países é menor do que em outros locais. Resultado direto sobretudo da qualidade da educação.

O mesmo relatório recomenda a abordagem do tema desde cedo nas escolas como estratégia ideal para lidar com as fake news. Embora o estudo tenha analisado apenas países europeus, é possível afirmar com tranquilidade que, fora do continente, todos estamos distantes de atingir um nível ideal de educação midiática.

Apenas para dar outro exemplo do quão longe o mundo está do ideal neste quesito, vale dizer que somente de 30% a 40% das crianças nos Estados Unidos no ciclo básico já foram expostas a alguma forma de alfabetização sobre o assunto. Os números foram relatados em entrevista pela educadora Renee Hobbs, uma das pioneiras na introdução da educação midiática no mundo.
No Brasil, o Instituto Educamídia, um dos únicos programas do país para a capacitação de professores e engajamento da sociedade no processo de educação midiática dos jovens, relata que 550 mil alunos já foram impactados por cursos fornecidos por eles sobre o assunto. O projeto é de excelência e extremamente importante para nossa sociedade.

Dados nacionais e mais aprofundados sobre o tema, contudo, ainda são escassos aqui. Ou seja, o cenário é triste e, para piorar, especialistas apontam que os professores não estão nem perto de estarem preparados para abordar o tema em sala de aula. E isso mesmo com os pilares da educação midiática estando presentes na Base Nacional Comum Curricular.

Além disso, fatores relacionados à conectividade no Brasil reforçam a preocupação. Pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box revelou que o WhatsApp, um dos maiores meios de proliferação de fake news, está instalado em 99% dos smartphones em operação no país. Ademais, o celular é atualmente o principal meio de acesso à internet, com muitas famílias contando apenas com pacotes de dados de acesso ilimitado às redes sociais. Isso torna impossível, por exemplo, abrir links, pesquisar na internet ou ler notícias em portais para fazer a checagem da informação. E tudo isso afeta as crianças no ambiente de casa.

Assim, o momento exige de todos responsabilidade ao consumir, produzir e compartilhar informação. Começar ensinando as crianças é um excelente caminho e o provável e tão necessário retorno às salas de aula em massa pode ser o ensejo de que precisamos para que a educação midiática seja colocada de fato em prática. Não podemos deixar que o dano nas novas gerações se torne irreversível.

*Fabrícia Peixoto, jornalista, doutoranda em Administração de Empresas pela FGV-EAESP, com pesquisas sobre consumo e desinformação. É fundadora da Revista Qualé

*Maria Clara Cabral, jornalista, tem pós-graduação em comunicação integrada e marketing. É fundadora da Revista Qualé

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