O papel da iniciativa privada no enfrentamento de desafios urgentes

O papel da iniciativa privada no enfrentamento de desafios urgentes

Marina Procknor*

17 de dezembro de 2020 | 09h30

Marina Procknor. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em tempos em que as discussões sobre sustentabilidade tomaram conta das pautas empresariais e de governos ao redor do mundo, muito tem se falado sobre o papel que a iniciativa privada pode desempenhar no enfrentamento e solução de desafios globais urgentes.

Emissão crescente de gases de efeito estufa, estresse hídrico, aquecimento global, poluição, gestão de resíduos tóxicos e desigualdade socioeconômica. Esses desafios não só impactarão a capacidade de uma parcela relevante da humanidade de viver com dignidade no futuro próximo, como a performance das empresas que não se ajustarem a questões de sustentabilidade na condução de seus negócios.

Mudanças climáticas afetam processos de produção industrial. Há acréscimo nos custos de matéria-prima e interrupções ou suspensão no fornecimento de insumos por conta de impactos no transporte e escassez de recursos. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que, até 2050, mais de 2,3 bilhões de pessoas vão sofrer alguma limitação relacionada ao acesso de água, muitas delas em países que, hoje, são centros de produção e de distribuição globais. Iniquidade econômica, racial e social trazem conflitos e círculos viciosos na sociedade e no mundo corporativo, dificultando a atração e retenção de talentos diversos, além de afetar a moral dos funcionários e a percepção dos stakeholders sobre marcas e empresas.

Vivemos um momento de transparência radical, quando um tweet, uma imagem ou um vídeo podem afetar marcas e preços de ações instantaneamente. Investidores, consumidores, governos e a sociedade civil organizada vêm demandando novos padrões de valor e propósito para as empresas. Sob o pano de fundo da Covid-19, esses tópicos tornaram-se ainda mais relevantes.

Nunca se falou tanto em propósito corporativo e na nova economia como agora. E, apesar dessas discussões serem mais recentes no Brasil do que em outras jurisdições ao redor do globo, a Lei das Sociedades por Ações já traz, em seus artigos 116 e 154, pilares básicos que devem nortear os controladores e a administração das companhias na condução de temas ESG, quando estabelecem que é obrigação do controlador e da administração cumprir a função social da companhia, com deveres e responsabilidades para com os acionistas, os funcionários e as comunidades onde atuam.

Para que as empresas possam abraçar a pauta ESG, o movimento precisa começar com a alta liderança. As companhias que são bem-sucedidas na transição de um modelo de negócio tradicional para um modelo sustentável topam o desafio de uma verdadeira transformação cultural e mudança de paradigma no que tange à condução dos negócios, em todas as dimensões da organização, em busca de valor e propósito para a companhia. E a peça-chave dessa transformação é a inovação.

Inovação nos processos produtivos e nas relações entre a companhia e seus stakeholders, em busca da chamada economia circular, onde os objetivos são a eliminação de lixo e poluição nos processos produtivos, a manutenção de produtos e materiais em uso – sem descarte e com reciclagem – e a regeneração de sistemas naturais. Já existem categorias de tecnologias disruptivas que estão permitindo a criação de processos produtivos mais eficientes: tecnologia digital, que ajuda as companhias a acompanhar recursos e monitorar uso e gestão de lixo; tecnologia física, que ajuda as companhias a reduzir custos de produção e de matéria-prima, além de reduzir impactos ambientais; e  tecnologia biológica, que auxilia na substituição do uso de combustíveis fósseis em seus processos produtivos por fontes de energia mais limpas.

Inovação na seleção e nos relacionamentos com os fornecedores. Grandes empresas podem desempenhar um papel significativo no apoio e incentivo e, inclusive, demandar que pequenas e médias empresas em suas cadeias de suprimentos adotem práticas sustentáveis. Inovação nas políticas e treinamentos sobre diversidade e inclusão, para assegurar que talentos que representem todos os setores da sociedade façam parte da organização e da liderança. Inovação nas políticas de remuneração de executivos, com transparência e por meio da imposição de métricas financeiras e não financeiras de avaliação. Inovação nas políticas anticorrupção, de privacidade e proteção de dados. Inovação e coragem para determinar o melhor propósito da organização.

Alguns temas ESG são recorrentes em todos os segmentos da economia, mas claro que cada indústria apresenta desafios particulares. Na indústria de bens de consumo e produtos industrializados, as grandes questões são associadas à conservação de água, gestão de resíduos tóxicos e nutrição adequada. Na indústria de biofarma, alguns temas recorrentes são políticas apropriadas de combate à corrupção e tratamento ético em testes com animais. Na indústria de óleo e gás, há preocupação com práticas anticorrupção, mas também com saúde e segurança de funcionários e mitigação de riscos ambientais. O varejo é focado nas cadeias de fornecedores e o mercado financeiro, em integrar parâmetros ESG na concessão de crédito, além da proteção de dados.

Independentemente da indústria ou do setor de atuação, há medidas a serem tomadas, agora. Não se trata mais de um diferencial o olhar sobre sustentabilidade, mas questão essencial e que vai determinar quem terá sucesso ou não no futuro próximo.

A liderança executiva das empresas não pode mais focar nas métricas financeiras de curto prazo. Decisões que focam no longo prazo, baseadas em critérios ambientais, sociais e de governança, em busca de modelos de negócios regenerativos são o caminho que os CEOs devem buscar. Esse é o caminho que permitirá geração de valor para investidores e stakeholders, além de possibilitar que a iniciativa privada cumpra seu propósito e ajude a equilibrar o grande déficit social e ambiental que vivemos hoje.

*Marina Procknor, sócia do escritório Mattos Filho

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