O Pantanal está em chamas?

O Pantanal está em chamas?

José Renato Nalini*

26 de agosto de 2021 | 10h30

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O Brasil é um país incrível. Incendeia até o Pantanal, região coberta de água e um dos biomas exuberantes que existiam até que a política o eliminasse.

Aqui, o impossível acontece e não causa indignação. A destruição do ambiente é fato inconteste e não desperta uma sociedade inerte, atenta a questiúnculas, mas desligada do essencial.

Não faltaram avisos. Um relatório elaborado em 1965 para o presidente americano Lyndon Johnson já dizia: “o ser humano está involuntariamente conduzindo um grande experimento geofísico”. O resultado da queima de combustíveis fósseis iria, com absoluta certeza, causar mudanças significativas na temperatura. Estas alterações redundariam em outras ainda mais graves.

O derretimento da calota de gelo da Antártica tende a aumentar o nível do mar em 120 metros, já se previa. Àquela altura, pensava-se que isso fosse ocorrer dentro de mil anos. Não se pode contar com esse milênio. O esquentamento da Terra é exponencial. Enquanto isso, a razão humana declina, se debilita e parece morrer.

Prova disso é que as emissões de carbono durante os anos 60 cresceram desmesuradamente, em torno de 5% ao ano. Não se falava em reversão e muito menos em frear o desenvolvimento. A humanidade continuou a explorar o planeta como se ele fosse destinado exclusivamente a servi-la e obrigado a se recompor, a despeito da inclemência do pior animal que vive em sua superfície.

Simultaneamente, a população continuou a crescer. A natureza não suporta essa concausa que a extingue. Sinais de uma evidência solar foram dados e ninguém se converteu.

As reuniões dos dignitários mundiais enfatizam a preocupação, mas não saem das falsas promessas. Os governantes pensam é na entrega de suas promessas imediatistas. Não têm condição de enxergar para um futuro em que não estarão mais aqui. Os inocentes que suportem as consequências da insanidade.

É surreal a situação brasileira. Quando a ciência já comprovou a necessidade de emissão zero dos gases venenosos que causam o efeito estufa, a resposta brasileira é promover o espetáculo de “terra arrasada”. Enquanto não se enxergar a derradeira árvore, a volúpia dendroclasta não estará satisfeita.

O mundo não dispõe de um organismo que pudesse impor uma ordem ecológica destinada a por cobro na situação e os desgovernos prosseguem na sanha assassina.

Chega-se ao ponto de incendiar uma área pantanosa, cuja biodiversidade não se encontra em qualquer outro bioma brasileiro. Aquilo que poderia servir de recreio turístico para o mundo é entregue às chamas. Tudo permanece na conta do fatalismo atávico: o Brasil tem “caveira de burro” enterrada, matou e expulsou sacerdotes, é a praga que o acompanha e da qual não faz questão de se redimir.

Os temas nacionais são o entrechoque entre poderes, o exibicionismo chão e medíocre, as discussões a respeito de Fundo Eleitoral, Fundo Partidário, volta de coligações, “distritão”, semi-presidencialismo,  falibilidade de urna eletrônica e outros temas próprios aos nefelibatas.

Não será preciso insistir na intensificação do armamentismo, pois uma terra calcinada cuidará, ela própria, de sufocar qualquer outra espécie de vida que ousasse permanecer em seu solo condenado.

Talvez alguns resistam. Aqueles que têm recursos para escapar para a lua ou para Marte. A imensa maioria terá de enfrentar a falta de oxigênio, a falta de água, as lutas fratricidas por ausência desse líquido essencial, cuja finitude não foi levada a sério pela ignorância que empolgou o poder.

Antes do desaparecimento total de qualquer espécie de vida, a humanidade verá aumentar de maneira crudelíssima a fome, a migração, o surgimento de novas pandemias, a dolorosa marcha dos excluídos, que acrescentam às suas ausências a falta de água e de ar.

Contudo, houve tempo para recuperar territórios ociosos, que já serviram para a exploração exauriente dos generosos recursos da natureza e hoje estão abandonados. Não teria sido impossível, mas perfeitamente viável, reflorestar essas feridas abertas na riqueza arbórea.

Ninguém poderá alegar inocência, pois o alarme sempre esteve à disposição de quem quisesse ouvir. Preferiu-se a omissão da maioria e a intervenção criminosa de minoria ativa e eficiente.

Os estrangeiros continuam a perguntar, insistindo na indagação, pois lhes é estranho acreditar que a região sempre coberta d’água esteja em chamas. Só que essa é a maldita verdade que hoje o Brasil ostenta a um planeta aflito e incapaz de refrear a sandice que dele tomou conta. A desgraça não poupará ninguém. Nem os céticos, os negacionistas e aqueles que acreditam que o aquecimento global é conspiração comunista.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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