O pai carinhoso

O pai carinhoso

José Renato Nalini*

19 de julho de 2022 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: DIVULGAÇÃO

Aprendemos a detectar no Imperador Pedro I algumas características enfatizadas na tradição, que o tornam personagem impulsivo, fanfarrão, mulherengo e estroinas. Deixamos de lado a sua cultura, o domínio de vários idiomas, seu talento na composição musical e no manejo de vários instrumentos. Quiseram desenhá-lo como alguém que não respeitava os cânones matrimoniais, cruel para a primeira Imperatriz, a erudita Leopoldina, da Casa dos Habsburgos e um homem que deixou seus filhos menores no Brasil, voltando para Portugal onde nascera.

Todavia, foi cuidadoso quanto à educação de sua prole. Encarregou José Bonifácio de tutorar o menino que reinaria por meio século nesta complexa Pátria e, mesmo à distância, continuava a velar sempre pelos filhos. Escrevia a eles com frequência. Renovava sempre os mesmos protestos de delicada ternura e os conselhos de sábia reflexão com os quais procurava compensar os males da ausência que tanto lhe pesava.

Alberto Rangel menciona sies cartas de 1832, conservadas no Arquivo do Castelo d’Eu, que mostra o quão amoroso era esse jovem pai, apeado do poder por intrigas palacianas promovidas por quem só se beneficiara de seu reinado.

A 10 de junho de 1832, D. Pedro de Bragança encontrava-se em São Miguel, nos Açores, ruminando os azares da luta com seu irmão D. Miguel. De lá escreveu: “Meu querido filho. Recebi as tuas cartinhas de 16 de fevereiro e de 3 de março; não te posso explicar o prazer que me causaram: vejo por elas e me convenço que tu fazes progressos. Duas cartas já escritas sem lápis e com tão linda letra! Ah! Meu amado filho continua a aplicar-te que um dia virás a ser um digno monarca”.

A 12 de agosto seguinte, o duque de Bragança, nada obstante o envolvimento em questões políticas e conflitos, recomendava incansavelmente ao filho: “Não posso deixar de vos recomendar (posto que me parece que não será necessário) que sejais obediente ao vosso Tutor, e que vos apliqueis aos vossos estudos”.

Exacerbado de saudades do Brasil, a 28 de setembro abria-se de novo o ex-Imperador com o seu herdeiro: “Deus permita que, ao receberes esta, te aches de saúde; e que o Brasil goze de tranquilidade, união e liberdade, que tão necessárias lhe são, para que em breve possa se admirado e respeitado das mais nações do velho mundo. Eu faço ardentes votos aos céus, para que a minha adotiva Pátria seja feliz, extou com ela. Não permitirá Deus que nos vejamos ainda um dia, nesse abençoado país, quando tu imperares em pessoa, e que não possa haver suspeitas de que desejo, o que nunca desejei? Ah! Que meus olhos se me enchem de lágrimas, quando penso que um dia ainda poderei ver-te, e morrer naquele mesmo país, em que tu imperas; em que estão minhas filhas; daquele país, ao qual jamais o meu coração deixou de pertencer, apesar de tanto que sofri, por o amar, como se fosse nele nascido”.

Já no Porto, em 16 de outubro, dizia: “Peço-te que continues a estudar e que obedeças ao teu Tutor, e que faças, da minha parte, esta mesma recomendação a tuas irmãs”. Ainda no Porto, em 4 de novembro, após a conquista da cidade pelas armas, enfatizava os conselhos e advertências: “Muito sinto que me não digais alguma coisa relativa aos vossos estudos; mas penso que o motivo de assim o não fazerdes não foi outro senão a pressa com que nos escrevestes. É mister que dê os meus louvores a Januária pela boa escrita e a Nhonhô e a Paula por terem feito seus nomes muito bem tendo a desconsolação de ver que a Chiquinha não escreveu o seu também, como era para desejar. Espero que empregueis bem o empo e que vos apliqueis aos vossos estudos como convém a pessoas tais que a Providência colocou em tão alta hierarquia”.

Continuava então, agora referindo-se ao Tutor: “Peço-vos que cada um de vós dê um abraço em José Bonifácio da minha parte, pelo triunfo que alcançou: eu me congratulo convosco por tal motivo, e vos recomendo que lhe sejais obedientes”.

Vinte dias mais tarde, insistia em idêntica nota paternal: “Não posso deixar de vos pedir que estudeis com aplicação; que sigais os conselhos do meu amigo e vosso Tutor; que trateis bem a todos; e que vos lembreis de mim, que tanto vos amo”.

Finalmente, em 2 de dezembro não esquecia o aniversário do filho, o Nhonhô, tresdobrando-se nos juízos e reflexões que essa data lhe provocara: “O ano passado tive o gosto de te escrever de Paris, neste mesmo dia para te dar os parabéns dos teus anos: hoje, igualmente, o faço desta heroica cidade, para o mesmo fim, bem como para te certificar do interesse que tenho por ti. Todos os bons brasileiros que desejam de coração (como eu), ver feliz a Terra de Santa Cruz, não poderão deixar de celebrar, com todo o entusiasmo, este dia, como o de maior interesse para o Império Brasileiro: da tua conservação dependerá a futura felicidade, do hoje, desgraçadamente, anarquizado Brasil; a ti está reservada a glória de o fazer chegar àquele grau de prosperidade de que é capaz; e de fazer agrilhoar a anarquia apagando, para sempre,  o facho da discórdia e afirmando a Constituição”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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