O ócio e o coronavírus

O ócio e o coronavírus

Domenico de Masi, amigo do Brasil/Cenas da quarentena

Ruy Ohtake*

08 de agosto de 2020 | 14h20

Ruy Ohtake. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

Há aproximadamente 15 anos, estava eu em Brasília, numa rápida viagem de dois dias, desenhando alguns detalhes de arquitetura para um hotel. O dia estava especialmente bonito, aproximava-se o entardecer e o sol querendo se esconder atrás do lago Paranoá. Terminado o trabalho, aproveitei para dar um pulo no Museu JK, obra projetada por Oscar Niemeyer. A estátua de Juscelino Kubitschek, protegida por um semiarco de concreto, fixa o olhar, altaneiro, sobre sua bela cidade. A longa base da escultura define o espaço museológico totalmente escuro, apenas finos cortes de raios de luz roxa focalizam as peças do Museu. Ainda no Museu, fui informado de que o conhecido filósofo italiano Domenico De Masi iria proferir uma palestra naquela noite, no auditório da Universidade de Brasília.

Admiração e carinho por Oscar Niemeyer, e estudioso da arquitetura brasileira contemporânea. No auditório lotado, de jovens estudantes e professores, Domenico De Masi relatou que em Milão, onde mora, frequentemente cruza com grupos de estudantes brasileiros carregando sacolas de compras em lojas caras da cidade e que nas temporadas do consumismo turístico, estimulados pelas feiras e exposições locais, caminham em animadas conversas pelas ruas. “É claro que não vejo maiores problemas, mas estudar arquitetura é no Brasil, que tem as melhores obras do mundo contemporâneo.”, disse De Masi. Em 2014, editou o livro “O Futuro Chegou” e, no último capítulo, escreve uma brilhante síntese da cultura brasileira (período de 1930 – 1964). Não é por acaso que foi concedido a Domenico de Masi, em 2010, o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro. Além de gostar muito do Brasil, tem muitos amigos aqui.

No mês passado, ao folhear o Estadão, me deparei com uma entrevista de Domenico De Masi (para Maria Fernanda Rodrigues e tradução de Anna Capovilla). Instigante. Tendo por tema o coronavírus, que ainda abala as civilizações do mundo todo.

Para evitar aglomeração de pessoas, foram fechados cinemas, museus, galerias e instituições de arte, espaços de música, design, fotografia, livrarias. O grupo “Belas Artes”, que exibe filmes de arte na cidade, abriu com muito êxito o cinema drive-in, no pátio descoberto do Memorial da América Latina, com capacidade para 100 automóveis com até 03 pessoas, com uso obrigatório de máscaras. Bilhete se adquire pela internet e pipoca é vendida na entrada em pacote fechado. O lanterninha esclarece algumas dúvidas, pois não se permite que o público desça do carro. Ao final do filme: palmas e buzinas. Sucesso!  Esse cinema programou atividades até o final do ano.

O vírus obrigou que os órgãos responsáveis pela saúde decretassem quarentena. Com isso, todos nós ficamos confinados em nossas casas. Cada um pode desenvolver atividades para tornar o tempo ocioso em criativo. E, andando por uma rua tranquila da cidade, vejo na janela de um sobrado o adolescente, com seus 15, 16 anos, estudando violino, talvez um Villa-Lobos, o lindo som no silêncio da rua em plena quarentena.  Um som colorido e inusitado.

Um amigo narrou-me muito orgulhoso que seu filho de 7 anos está aproveitando esse intervalo escolar para realizar um curso de desenho, junto com mais 3 ou 4 colegas, na casa de um deles, utilizando um canto da sala. Orientados e estimulados por uma jovem pintora. Produzem cópia de desenhos coloridos de Van Gogh, ou do cachorrinho da casa, ou o sonho de cada garoto. Ao fim do mês, em volta de sucos e doces, uma festinha com os pais. Sucesso total e ficou acertado que as aulas de desenho continuarão mesmo depois do reinício das aulas escolares.

Estão surgindo pequenos pontos de loja de hortifrúti, que há 50 anos foram sendo absorvidas pelos supermercados e CEASA. A situação de pandemia está “ressuscitando” as antigas “vendas” junto às áreas residenciais. A “gastronomia mais doméstica”, mas não menos apetitosa é notícia diária, com receitas, nos jornais e na televisão, preenchendo um pouco do vazio momentâneo dos restaurantes e bares. E, muitos chefs de restaurantes estão aproveitando a quarentena para atualizar seus cardápios, mais compactos, serviços mais cuidadosos, com custos menores para nós frequentadores. Distância maior entre as mesas. É a lição que o vírus nos dá e nos traz para o contemporâneo.

Os jornais no mundo inteiro estão dedicando uma sessão diária em função de mudanças do modo de vida, além de cadernos exclusivos aos diferentes aspectos que provavelmente teremos após o fim dessa terrível situação.

O vírus colocou, a descoberto, a terrível desigualdade entre os bairros de melhores recursos e as áreas ocupadas precariamente pela população de baixa renda. A política habitacional deverá ser rapidamente alterada para que as populações de menos recursos tenham uma moradia mais digna. Casas com quartos maiores dos que os atuais, onde 3 ou 4 pessoas mal conseguem dormir adequadamente. A fragilidade da rede de água tratada (60% dos brasileiros não recebem esse serviço), 35% não têm rede de esgoto e as chuvas mais intensas provocam, como os jornais noticiam, grandes inundações com destruições e óbitos. Essas circunstâncias estudadas e com soluções implantadas antes que a atual geração de crianças cresça nessas más condições de saúde.

A infraestrutura do saneamento urbano é outra alarmante necessidade, que além de tudo é responsável por moléstias que sucedem e rondam as áreas mais desprotegidas, cujas providências exigem programa nacional. O vírus está provocando adequado e rápido comportamento mais moderno e a infraestrutura urbana urgente possibilitará a entrada de todos os brasileiros na era contemporânea.

*Ruy Ohtake, arquiteto e urbanista. Membro da Academia Paulista de Letras

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