O ‘novo normal’ e o mercado de trabalho

O ‘novo normal’ e o mercado de trabalho

Fabiano Dantas*

08 de novembro de 2020 | 11h00

Fabiano Dantas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Por conta de tudo o que tem acontecido em 2020, principalmente, relacionado a pandemia do coronavírus, muito tem se falado sobre o chamado “novo normal”. Este termo se refere as possíveis e, até mesmo, inevitáveis mudanças comportamentais que serão necessárias para o convívio da sociedade quando tudo isso passar. Este pacote incluiria relações sociais, relações de trabalho e até mesmo a maneira com que nós enxergamos o mundo. Neste artigo eu gostaria de falar especialmente das relações de trabalho e alguns dos impactos que o “novo normal” traria, em especial, aos jovens que estão chegando ao mercado de trabalho.

Uma tendência que até já existia, mas que foi mais do que potencializada pela pandemia é a do home office ou trabalho remoto. A questão tecnológica e de infraestrutura já não é um empecilho para esta modalidade, pelo menos em parte do país, e as condições geradas pela pandemia demonstraram que em muitos casos essa alternativa pode ser interessante para a empresa já que gera uma economia de recursos sem impacto negativo na produtividade. Sendo assim, essa modalidade deixa de ser uma possibilidade e passa a ser um fato.

Com relação a este fator os jovens podem até levar vantagem em relação aos que estão há mais tempo no mercado. A geração que nasceu digital tem uma grande facilidade para se adaptar ao maior contato virtual e todas as nuances que o acompanham. Entretanto, é preciso lembrar que, além das habilidades digitais, o trabalho nesta modalidade necessita de maior autogerenciamento e disciplina além de uma comunicação mais direta e específica, pois no ambiente virtual limita-se de sobremaneira a linguagem corporal, algo que pode aumentar a chance de mal entendidos ou conflitos que não aconteceriam.

Uma pesquisa realizada pela Relevo, uma startup de RH, com seus 16 mil clientes revelou algumas das características que são mais procurados em profissionais neste momento. É possível ver uma clara relação com a pandemia e todo o contexto gerado já que os comportamentos são: comunicação assertiva, empatia e capacidade de dar feedback, autogerenciamento, resolução de problemas e relação interpessoal. Percebe-se, portanto, a tendência dominante dos últimos anos, que é uma grande valorização de características de relacionamento interpessoal (soft skills), sendo, aparentemente, intensificada por conta do contexto da pandemia.

Entretanto, há um outro lado do mercado de trabalho que também deve ser mencionado a estes jovens, pois o ambiente deste mercado que já era hostil, tende a se tornar ainda mais, com todo o contexto da pandemia. Isso se dá principalmente por conta dos impactos causados por todas as medidas tomadas ao longo deste período e que geraram um aumento no número de desempregados e, principalmente, dos trabalhadores subutilizados. Os dados apresentados pela PNAD contínua do IBGE para o trimestre encerrado em julho (mai-jul) deixam claros os desafios que serão enfrentados por quem entrar neste mercado neste momento.

A taxa de desocupação no período é de 13,8% o equivalente a 13,1 milhões de pessoas. Isso por si só já demostra o tamanho do desafio enfrentado, entretanto, há um outro dado que chama atenção que é a chamada taxa composta de subutilização que foi de 30,1%, o maior percentual da série histórica, esta taxa inclui os desocupados, os que estão trabalhando menos de 40 horas semanais mas desejam trabalhar o regime completo e a força de trabalho potencial, aqueles que podem trabalhar e que por algum motivo não estão disponíveis ou não estão procurando emprego. Este último grupo é que chama a atenção, pois se e quando ele começar a procurar emprego efetivamente a taxa de desocupação poderá crescer de maneira substancial sem a destruição de uma única vaga de emprego no país. Mais especificamente falando da população jovem, a taxa de desocupação da população entre 18 e 24 anos, ainda segundo o IBGE, no segundo trimestre de 2020 foi de 29,7%, ou seja, substancialmente acima da taxa média do país o que traz mais um componente desafiador a quem está chegando ao mercado de trabalho.

Sendo assim, é possível dizer que o “novo normal” do mercado de trabalho é uma situação que exigirá de quem está entrando agora uma capacidade de adaptação e um autogerenciamento mais apurado do que era exigido até então. Além disso, a competição gerada por conta do aumento do aumento da população desocupada ou subutilizada deve ampliar o nível de exigência dos contratantes gerando uma necessidade maior de diferenciação daqueles que estão na disputa por uma vaga.

Ou seja, cada vez mais a reposta para a pergunta “Porque você?” deve ser estruturada de maneira robusta e respondida a contento para que o jovem pretendente a um lugar ao sol no mercado de trabalho tenha algum espaço.

*Fabiano Dantas, professor da UniSociesc

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