O ‘nosso’ Zuza

O ‘nosso’ Zuza

José Renato Nalini*

05 de outubro de 2020 | 19h35

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A inesperada partida de Zuza Homem de Mello emocionou o mundo. A forte repercussão em todas as mídias forneceu a dimensão de sua importância. Foi o brasileiro que mais se devotou a conhecer, a disseminar e a praticar a música. Não apenas a nossa, mas também todos os ritmos que o enterneciam.

José Eduardo “Zuza” Homem de Mello tem o seu lugar assegurado no Panteão da História. Legou consistente obra da qual vão se abeberar os pósteros, sobretudo os jovens que já o acompanhavam com entusiástico fervor. Muito ainda se falará e se escreverá sobre Zuza. Mas esta fala é diferente. Contempla o Zuza imortal, aquele que chegou à Academia Paulista de Letras pelas mãos de Júlio Medaglia, mas incensado por toda a nacionalidade.

Uma Academia de Letras é um espaço insólito. Os que ali têm assento não necessitam mostrar a que vieram. São pessoas com o seu currículo completo, não precisam competir. As quarenta cadeiras são ocupadas por seres singulares. Têm apreço pela literatura, pela leitura, pela cultura em geral e apreciam o bom convívio.

Parte-se da lição machadiana, o fundador da Academia Brasileira de Letras: um Silogeu tem de ter cultores das letras, pois é de Letras; celebridades, para que a voz acadêmica ressoe e impacte a sociedade e também jovens, pois, antes de tudo, precisa ser “uma casa de bom convívio”.

Zuza preenchia os três requisitos. Escrevia desde 1956 e publicou livros a partir de 1976. São obras antológicas, que serão estudadas e consultadas pelos pesquisadores, mas são também deliciosas. Deleitam o leitor. Por isso, são destinadas a uma perenidade infinita.

Celebridade Zuza também é. Quem privou com Duke Ellington, Elis Regina, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, João Gilberto e tantas outras “feras” do nosso meio artístico-musical?

E a juventude, Zuza conservou e soube com ela contaminar a roda imensa dos que se empolgavam com suas estórias, sempre sedutoras, instigantes e disputadas.

Todas as quintas-feiras o grupo aprendia algo com Zuza. Não aquilo que já estava nos seus livros, nas suas entrevistas, nos ensaios e reportagens. Mas episódios pitorescos, alguns picantes, que ele vivenciara e que partilhava com verve e simpatia.

Esse talento de contar passagens e causos, ele repartia com inúmeros auditórios. Os jovens ficavam embevecidos e o provocavam, para que falasse mais e mais. Ninguém se cansava de ouvi-lo. E isso acontecia com todos, sem distinção de idade ou de familiaridade com o tema. A música é um ímã irresistível.

Nós da APL tivemos o privilégio de conviver com Zuza durante estes dois anos, que equivalem a décadas. Desde o primeiro dia, assimilou a filosofia acadêmica, participava muito alegre das reuniões. Seu sorriso às vezes era gargalhada. Parecia que ali nascera e sempre estivera naquele ambiente fraternal. É por isso que nos chamamos “confreiras” e “confrades”.

No livro com fotos de Márcio Scavone para celebrar os 110 anos da Academia, celebrados em 2019, ele escreveu: “Sou totalmente paulistano, pois nasci no Hospital Santa Catarina, Avenida Paulista, e participo da vida de São Paulo. Fui contrabaixista depois de me regalar tocando gaita e piano para mim mesmo”. Confessou-se um homem realizado: “Tive paciência para consumar meu sonho, chegar ao rádio, falar num microfone e tocar música para todos. Nas minhas aulas também faço assim: mostro a música. A emoção é a mesma quando ouço Hard Bop no Jazz, moda de viola, samba de roda da Bahia, concerto para piano de Mozart, samba-canção romântico, choro e batucada carioca, canções de Kabarett e da Broadway. A linha de corte é a verdade”.

Zuza foi alguém de verdade. Vibrou continuamente: “…choro de alegria quando tocam ou cantam com alma. Numa rua paro para ouvir. Na plateia me requebro sentado. Não me contenho nunca”.

Ele terminou tudo aquilo a que se propôs. Celebrou seus êxitos com Ercília, na noite de 3 para 4 de outubro. Aquela companheira sobre quem escreveu: “adoro Ercília, a mulher de minha vida”. E curtiu a sua imortalidade: “Sei que sou um felizardo. Ainda mais sendo membro da Academia Paulista de Letras”.

Que benção não ter ficado uma hora em UTI, nem em hospital. Sonhando, partiu para a eternidade com sua missão bem cumprida, seu sorriso, sua generosidade. Isso porque Deus gosta de Zuza. Nós, da APL, também! O “nosso” Zuza!

*José Renato Nalini é presidente da Academia Paulista de Letras

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