‘O nosso Alcoólico está indócil’, alerta empreiteiro sobre Gim Argello

‘O nosso Alcoólico está indócil’, alerta empreiteiro sobre Gim Argello

Em mensagem de texto, Léo Pinheiro, da OAS, pediu a seu colega Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez, em agosto de 2014, que ligasse para o então senador; 'Fico preocupado com as reações intempestivas'

Julia Affonso, Fausto Macedo, Andreza Matais e Alexandre Hisayasu

12 de abril de 2016 | 12h42

Foto: Reprodução

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O celular do empreiteiro da OAS José Adelmário Pinheiro, o Léo Pinheiro, apreendido na Operação Juízo Final, a 7ª fase da Lava Jato – em novembro de 2014 -, levou os investigadores a identificar o depósito de R$ 350 mil na conta da Paróquia São Pedro, no Distrito Federal, ligada ao ex-senador Gim Argello (PTB-DF). O arquivo de mensagens é revelador. Os textos indicam uma conduta agressiva de Gim Argello, provavelmente quando exigia propinas. Ele era chamado de ‘Alcoólico’ por Léo Pinheiro.

“Otávio, O nosso Alcoólico está indóssil (sic). Seria oportuno uma ligação sua para ele. Fico preocupado com as reações intempestivas. Abs. Léo”, escreveu o empreiteiro no dia 5 de agosto de 2014 para Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez.

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O ex-parlamentar foi preso nesta terça-feira, 12, na Operação Vitória de Pirro, 28ª etapa da Lava Jato. Para a força-tarefa da Procuradoria da República e da Polícia Federal, o repasse da OAS ao templo foi um pedido de Gim Argello para que Léo Pinheiro não fosse convocado a depor na CPI da Petrobrás, em 2014, da qual o então senador era vice-presidente.

Na decisão em que deflagra Vitória de Pirro e manda prender Gim Argello, o juiz federal Sérgio Moro se referiu a mensagens trocadas por Léo Pinheiro, em 2014, com interlocutores, entre eles o ex-presidente da Andrade Gutierrez e hoje delator da Lava Jato, Otávio Marques de Azevedo, como um ‘verdadeiro encontro fortuito de provas’.

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O juiz da Lava Jato destacou ainda uma troca de mensagens de 30 de setembro de 2014, entre Léo Pinheiro e Gustavo Nunes da Silva Rocha, presidente da Invepar, empresa do Grupo OAS.

“Gustavo Rocha: Falei com ele [Gim Argello} agora. Fiquei de retornar com os próximos passos. Abs.”

Paróquia São Pedro em Taguatinga,. Foto: Reprodução

Paróquia São Pedro em Taguatinga,. Foto: Reprodução

Em 14 de maio de 2014, data da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobrás no Senado, José Adelmário trocou mensagens com Dilson Paiva e Roberto Zardi, ambos diretores da OAS.

“Dilson,

Preciso atender uma doação:
Para: Paroquia São Pedro
CNPJ 00.108.217/007980
C/C 01609.7
Agência: 8617
Bco: Itaú
Valor $350.000,00 (trezentos e cinquenta mil reais)
Centro de custo: Obra da Renest
Projeto Alcoólico
www.paroaquisaopedro.com.br
Endereço QSD AE 25 Setor D Sul Taquatinga
DF.”

Os investigadores estão convencidos que ‘Alcoólico’ é o codinome utilizado por Léo Pinheiro para referir-se a Gim Argello, em trocadilho com a bebida gim, aguardente aromático e destilado à base de cereais que teve origem nos Países Baixos no século XVII.

De acordo com a força-tarefa, a mensagem significa o pagamento de R$ 350 mil para conta da paróquia por solicitação de Gim Argello (‘Alcoólico’), com o custo sendo suportado pelos contratos da OAS junto à Refinaria do Nordeste Abreu e Lima.

Os investigadores resgataram troca de mensagens cifradas entre Léo Pinheiro e Roberto Zardi para esclarecer sobre o que estão tratando:

“José Adelmário: Dilson, vai lhe pedir um apoio. Vc. ainda continua tomando Gim? Qual alegoria marca? Abs

Roberto: OK, Tomei naquele dia e gosto.
José Adelmário: A a. Abs”

Em 16 de maio de 2014, há registro de ligações telefônicas de Gim Argello para Léo Pinheiro e para Roberto Zardi. A força-tarefa identificou que, neste mesmo dia, consta cobrança do empreiteiro a seus subordinados quanto ao repasse na conta do templo.

“José Adelmário: Já foi feito o depósito da Igreja?

Dilson: Dr. Leo. Ainda não. Conversei pessoalmente com o Roberto Zardi ontem. Ele vai procurar o padre pessoalmente.

Dilson: Já está marcada a conversa para hoje.
José Adelmário: Ok.”

Para os procuradores, como o pagamento seria feito com intermediação da Paróquia São Pedro, Dilson Paiva diz que embora o pagamento não tivesse ainda sido realizado, Roberto Zardi – diretor de Relações Institucionais da OAS, em Brasília – iria ‘procurar o padre pessoalmente’. Segundo a força-tarefa, isto ‘sugere uma conversa pessoal com Gim Argello’.

Em 20 de maio de 2014, consta registro de outra ligação de Roberto Zardi para Gim Argello, de acordo com a Lava Jato. No dia seguinte, Roberto Zardi confirma a Léo Pinheiro o recebimento da ‘doação’ por Gim Argello (‘Alcóolico’), relata a força-tarefa.

“Roberto Zardi: Doação, confirmado recebimento Alcoólico.
José Adelmário: Ok.”

Os procuradores identificaram ainda o nome ‘Alcoólico’ em troca de mensagens de Léo Pinheiro com Otávio Marques de Azevedo, presidente do Grupo Andrade Gutierrez que também fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria Geral da República.

“José Adelmário: Podemos falar com o Alcoólico na 5ª tb?
Otávio Marques: Não entendi?
José Adelmário: Já falamos é o G
Otávio Marques: Ok.
José Adelmário: Tudo bem? na 5ª fim de tarde ou 6ª entre 10 e 11hs poderíamos conversar? Abs.”

Em outras mensagens, de 25 de junho de 2014, com empreiteiros, em conversa com Ricardo Pessoa, Léo Pinheiro volta a falar do ‘Alcoólico’.

“José Adelmário: Mário ou quem ele determinar precisam procurar o Alcoólico urgente. Estão numa pressão impressionante. Vc. falou com Sergio? Abs

Ricardo Pessoa: Ainda não falei com Sergio. Márcio me disse que já enviou o amigo para conversar. Abs.

José Adelmário: Com o Alcoólico?

Ricardo Pessoa: Sim. São amigos o álcool e o meloncia.

José Adelmário: Ok. O clima não está nada bom.”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE GIM ARGELLO

O criminalista Marcelo Bessa, defensor do ex-senador Gim Argello, disse que não poderia se manifestar porque está estudando as informações que constam dos autos da Operação Vitória de Pirro.

 

COM A PALAVRA, A OAS

A OAS informa que estão sendo prestados todos os esclarecimentos solicitados e dado acesso às informações e documentos requeridos pela Polícia Federal, em sua sede em São Paulo, na manhã desta terça-feira. A empresa reforça que está à inteira disposição das autoridades e vai continuar colaborando no que for necessário para as investigações.

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