O Nome da Rosa (e a importância de se fazer a coisa certa)

O Nome da Rosa (e a importância de se fazer a coisa certa)

Bernardo Pasqualette*

25 de abril de 2021 | 07h55

Bernardo Pasqualette. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O premiado romance O Nome da Rosa, clássico do escritor Umberto Eco adaptado para o cinema em 1986, torna-se a cada dia mais atual por vários motivos. O mais visível deles é o embate travado entre razão e fanatismo religiosos, no qual o monge William de Baskerville representa um intelectual renascentista que investiga uma série de mortes suspeitas em um mundo dominado (ou, em termos mais precisos, subjugado) pela fé.

Com base nesse ponto de partida, o leitor naturalmente irá supor que esse texto tratará do choque – mais do que atual – entre a ciência e a negação acrítica, que a cada dia ganha contornos mais nítidos em relação à pandemia causada pelo COVID-19. Não é esse ponto, no entanto, que aqui será abordado. Há duas passagens do livro que guardam estreita relação com um acontecimento que chocou todo o país há pouco mais de um mês: a morte do menino Henry Borel.

O primeiro deles é a crise de consciência do monge Baskerville ao participar de um julgamento da Inquisição. Mesmo arriscando a própria vida (no século XIV, discordar da Inquisição significava o risco real de condenação a uma pena excruciante), o monge não hesitou em seguir o ditame de sua consciência e inocentou um acusado que sabia não ser o responsável pelos crimes que investigava.

Impossível não traçar um paralelo em relação às profissionais médicas que atenderam Henry, no hospital Barra D’Or. Mesmo pressionadas para liberarem rapidamente o corpo da criança, as pediatras não cederam. Muito pelo contrário. Em uma atitude altiva e corajosa, orientaram o pai do menor a fazer um boletim de ocorrência, pois se tratava de uma morte suspeita.

Era o início do fim da famigerada versão de que o menino caíra da cama, no que seria um fortuito acidente doméstico. A “casa” começava a cair para Jairo Santos e Monique Medeiros.

Para mal dos pecados dos acusados, dali por diante o barco não viraria mais.

Digna de nota, também, foi a atuação de um executivo do mesmo hospital, instado pelo vereador Jairo Santos a liberar o corpo com precipitada “agilidade”, em plena madrugada. Ciente dos pormenores do “acidente” e sabedor de que muito ainda havia por ser esclarecido, o profissional não retornou as ligações do parlamentar. Sem a açodada liberação, os profissionais do IML realizaram o seu trabalho sem quaisquer embaraços e, assim, puderam revelar ao país toda a extensão da brutalidade da qual a criança fora vítima.

A lei da gravidade se encarregaria do resto.

Em todas as ações dos profissionais envolvidos no caso resta clara a importância de se fazer a coisa certa. Como ensinou o jurista Marcelo Zenkner, em artigo publicado nessa mesma coluna, “buscar fazer o certo produz resultados muito melhores do que simplesmente evitar o errado”.

Pura verdade.

Diante de circunstâncias dramáticas e, principalmente, diante de pressões e interesses escusos a lhes constranger, os profissionais do Barra D’Or deram exemplo. Íntegros e virtuosos, simplesmente fizeram o que deveria ser feito. Nenhum deles poderia supor, mas, naquela noite trágica, suas ações foram decisivas: no exato instante em que
não se permitiram claudicar, começou a se fazer justiça para Henry Borel.

Provavelmente por uma questão de segurança, o nome das pediatras e do executivo não foram divulgados ao grande público. Melhor assim. São heróis anônimos cujas ações dignificam toda a classe médica. Mais do que isso, são narrativas como estas que começam a fortalecer uma cultura de integridade no Brasil, despertando a consciência coletiva para um tema tão caro a nossa sociedade.

Cidadania começa pelo exemplo.

Assim, retoma-se O Nome da Rosa para lembrar de seu magistral desfecho. No romance platônico vivido entre Adso de Melk (assistente de Baskerville) e uma jovem camponesa que ele sequer sabe o nome, mas cuja vida ajudou a salvar, fica uma memória afetiva que o acompanhará pelo resto de seus dias. Ao final de sua vida, Adso confessa que jamais deixou de pensar na jovem, embora jamais tenha sabido o nome dela.

Stat rosa pristina nomine. Nomina nuda tenemus (A rosa antiga permanece no nome. Nada temos além de nomes). Essa expressão em latim, última citação do livro e utilizada ao final do filme, era utilizada na Idade Média para representar a força perene das denominações. No entanto, contrariando a sabedoria medieval, mais importantes que os nomes são as atitudes. Essas, sim, sobrevivem ao tempo.

No nosso caso específico, fica o exemplo dado por profissionais da área da Saúde diante de um crime bárbaro. Suas condutas impediram que uma noite de horror se transformasse em impunidade. Seus legados permanecerão para sempre.

Mesmo que jamais venhamos a saber seus nomes.

*Bernardo Pasqualette é advogado e professor da pós-graduação da PUC-Rio

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