O mundo sem fronteiras

O mundo sem fronteiras

José Renato Nalini*

03 de agosto de 2020 | 06h30

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Revisitar ideias, reinventar concepções, aceitar a profunda mutação da vida, imposta por inúmeros fatores, mas intensificada pela Quarta Revolução Industrial, é missão de todas as pessoas preocupadas com o amanhã.

Ideias ultrapassadas ainda persistem numa rigidez inflexível nas consciências arteriosclerosadas. Algumas delas fazem semelhantes sofrerem. Supremacia racial, preconceitos – todos eles – e soberania, são três exemplos semi-sepultos mas atuantes.

Falo sobre a soberania, que incita um sentimento xenófobo e agressivo nas mentes simplórias. Isto independe de escolaridade. Adquirir conhecimento não significa, necessariamente, fazer bom uso dele. Importa é ter uma cabeça bem feita, não uma cabeça cheia. Você se lembra quem disse isso?

O núcleo de intolerância alimentado pela ira resiste à racionalidade. Expulsa a sensatez e fortalece os dogmas nutridos por emoção e instintos primitivos. Invoca-se a soberania com todos os seus qualificativos, mantendo-se a formatação hoje ultrapassada de uma ideia-força invencível, onipotente, com a qual não se pode transigir em hipótese alguma.

É bombástico reafirmar que “todo o poder emana do povo”. O povo, essa ficção de tamanha complexidade e exibida ao discernimento que resta, por força da pandemia, é um conjunto heterogêneo de inúmeras tribos. Pouquíssimos os acolhidos pelo sistema, enquanto os invisíveis, os excluídos, os hipossuficientes, os carentes, os párias, formam legião.

Cabe indagar: a ideia de soberania como algo absoluto e inquestionável ainda existe, além de residir nos discursos mais inflamados e fundamentalistas?

Quando se pensa na destruição do ambiente, a gerar fenômenos como o aquecimento global, a desertificação, a extinção da biodiversidade e, portanto, de qualquer condição de vida, onde está a soberania?

A chuva ácida, as nuvens de gafanhotos, as ilhas pet flutuantes por mares tão poluídos, respeitam a soberania? Quedam ante os limites convencionados pelos homens?

O contrabando de armas, de drogas, de pessoas, se submete às fronteiras? O capital se interessa por observar linhas territoriais ou migra continuamente, na busca de maior rentabilidade e segurança, adquirindo feição transnacional ou mesmo apátrida?

Para o bem e, principalmente, para o mal, fronteiras são ficções. Subsistem na retórica inflamada do mais obtuso conservadorismo, no pior sentido desse verbete. A sociedade já não as respeita, assim como as desconhece as novas gerações. Nascidas sob o signo da tecnologia, amplificadora da natureza humana, transitam livremente por todas as redes. Se também aqui proliferam canais de ódio, que caluniam, injuriam, difamam, ofendem e ferem seres humanos, é enorme o risco da coisificação do semelhante. É comum reduzir pessoas a objetos descartáveis. Acessamos e deletamos perfis. Disseminamos o humor cáustico, nos deleitamos com as fake news.

Todavia, é o conduto comunicacional entre avós e netos. Resgate de amigos de infância. Veiculação de mensagens edificantes, de carinho e de ternura. A paisagem digital, como o tecido humano, tem vales profundos e sombrios, onde medra a inveja e prospera a hipocrisia, mas tem picos luminosos, nos quais brotam respeito, compaixão e empatia.

O mundo digital não tem fronteiras geográficas, nem etárias, nem sexuais, nem econômicas. Num Brasil que já possui quase trezentos milhões de mobiles, para uma população de cerca de duzentos e dez milhões de habitantes, fácil concluir que alguns brasileiros manuseiam, simultaneamente, várias dessas bugigangas eletrônicas e que estão permanentemente antenados.

Se há uma rota de fuga à realidade, por sinal tão melancólica e apavorante como a dos últimos meses, há também a busca de novas formas de conexão. Exemplos de ressignificação da confiança, da amizade, da preocupação com o outro, não são raridade.

Como seria bom se os pensadores criativos e de mentalidade aberta a essa profunda mutação da vida, se ocupassem de buscar funcionalidades que permitam a cada pessoa influenciar a condução da coisa pública, para lembrar ao detentor de autoridade – qualquer seja ela – que há uma razão maior a ser observada. A quem mais foi dado, mais será exigido.

Governo é instrumento de facilitação da vida de todos, não ferramenta de consecução de projetos pessoais e de enriquecimento sem mérito. Até para os devotos da soberania, impossível deixar de reconhecer que seu único titular é esse conjunto heterogêneo de humanos angustiados, atormentados e, quantos deles, desesperançados que se convencionou chamar de “povo”.

O mundo sem fronteiras em que a humanidade vivencia sua aventura pelo planeta seria bem melhor se, além das fronteiras físicas, eliminasse as fronteiras psíquicas que separam, uns dos outros, estes seres frágeis e finitos, hoje tão confrontados pela inevitabilidade da morte.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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