O mundo que o brasileiro não viu, de novo

O mundo que o brasileiro não viu, de novo

Gustavo Aranha*

14 de abril de 2019 | 10h00

Gustavo Aranha. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos dois trimestres (setembro a dezembro de 2018 e janeiro a março de 2019) um fato bastante comum, quando se trata de investimentos, se repetiu: o brasileiro olhou só para o Brasil, investiu numa única narrativa, não diversificou e, assim, correu mais risco.

Na noite do Ano-Novo, quem tivesse lido jornais e revistas especializadas em investimentos nos dias anteriores (com exceção do meu último texto em que refleti sobre diversificação em 2019), teria uma certeza: deveria investir em ativos brasileiros.

Naquele momento se encerrava um ano de muitas discussões e eventos (crise dos caminhoneiros, copa, eleição), mas tudo parecia ter entrado nos eixos, afinal, Deus é brasileiro!

Nos últimos três meses do ano de 2018 o índice Bovespa subiu mais de 11% e, olhando para 2019, só havia uma possibilidade: para o alto e avante! Paulo Guedes, Moro, reforma da previdência, não tem como dar errado.

Mas, e a diversificação? Eu perguntaria. Sugiro também investir em ações de empresas que não são listadas na B3.

“Não!” “Olha o que tá acontecendo no mundo,o dólar vai derreter frente ao real, e, além do mais, você não lê jornal? EUA e China estão em guerra comercial.Não viu que nesses últimos três meses de 2018 o índice de ações globais (MSCI World) caiu 16%? O mundo está em crise!”

Investir é lidar com incertezas. Muitos cenários são possíveis, com diferentes probabilidades. Mas, atenção agora, por favor. Sempre que só uma possibilidade lhe for apresentada e que lhe for sugerido que invista levando essa “certeza” em consideração, não invista, questione.

Mas a leitura de que a bolsa brasileira iria continuar subindo com certeza e o mundo derreteria prevaleceu e, terminado o primeiro trimestre de 2019, qual foi o cenário que, até aqui, se materializou?

O Ibovespa no primeiro trimestre de fato subiu 8,56%, enquanto o MSCI (que certamente cairia) subiu 13,12%. Assim, os investidores que compraram a certeza de Brasil acima de tudo e mundo em crise correram mais risco pois não diversificaram e, em alguma medida, perderam no processo boas oportunidades.

Na filosofia de investimentos em que acredito, olhamos para o mundo e investimos em empresas que vendem seus produtos ou prestam serviços globalmente (inclusive no Brasil) e acreditamos que, enquanto as narrativas vão de uma certeza a outra, as boas empresas seguem vendendo, crescendo, defendendo seus lucros e vantagens competitivas.

Nesse primeiro trimestre de 2019 muitas delas tiveram altas fortes. Entre elas estão, por exemplo, Moodys (+33% no ano), AB Inbev (+32% no ano), Tiffany (+33% no ano) e Comcast (+20%), isso para citar apenas alguns casos.

Infelizmente, como eu mencionei no início, esse não foi um evento especial, mas sim a regra. Enquanto tratarmos a diversificação internacional como uma estratégia tática e não uma regra estrutural de nossos portfólios, seguiremos perdendo oportunidades e, pior, correndo mais risco.

*Gustavo Aranha, sócio responsável área Comercial da GEO Capital, gestora brasileira com foco em investir, exclusivamente, em ações globais fora do País

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