O mundo pós-pandemia e o papel das empresas na proteção da sociedade

Eugênio Paschoal*

02 de março de 2021 | 03h00

Da noite para o dia, o mundo se deparou com algo até então totalmente desconhecido: na virada de 2019 para 2020, uma pandemia obrigou a população mundial a se trancar dentro de casa para evitar uma tragédia. Em um ano absolutamente atípico, isolamento social, protocolos de higiene, lockdown e outras políticas de contenção não foram suficientes para poupar a vida de mais de 2,5 milhões de pessoas. Hoje, a esperança provocada pelas notícias do andamento da corrida mundial pela vacinação em massa da população se mistura à desoladora situação vivida por países com planejamento estratégico deficiente, como é o caso do Brasil. Na fase mais crítica desde o início da pandemia, registramos diariamente no país marcas que ultrapassam as 1.500 mortes oficialmente decorrentes da covid-19.

Tal cenário de exceção transformou definitivamente o mundo em que vivemos, no que diz respeito ao fator econômico, à forma de consumo, ao comportamento das pessoas e à estrutura social da humanidade, e desencadeou uma onda de lucro cessante dos pequenos e médios negócios, que não tiveram seus faturamentos realizados para arcar com suas obrigações e seu papel social.

Uma das consequências desse fenômeno é particularmente alarmante: com o estancamento imediato do setor produtivo de primeira linha, a crise provocada pela pandemia provocou um alargamento do gap social, particularmente em países em desenvolvimento, como os da África e da América Latina. O Relatório de Riscos Globais de 2021, publicado pelo Fórum Econômico Mundial com o apoio da Marsh & McLennan, alerta para a ameaça de testemunharmos uma redução de anos de progresso na diminuição da pobreza e da desigualdade, além do enfraquecimento da coesão social e da cooperação global.

Para compreender esse novo mundo e desenvolver soluções para seus problemas urgentes, é preciso pensar em três frentes complementares: o risco, as pessoas e as estratégias.

O risco 

Desde os tempos da Antiguidade, a humanidade se prepara para catástrofes, sejam elas naturais ou provocadas pelo homem. Grandes incêndios, terremotos, enchentes, inundações, tsunamis: estamos acostumados a viver em um mundo com calamidades. A gripe espanhola de 1918 infectou cerca de um quarto da população mundial e matou mais de 50 milhões de pessoas, mas, com os avanços relacionados à ciência, à saúde e aos hábitos de higiene, nunca se pensou que, passados mais de cem anos, um vírus pudesse voltar a expor a humanidade a tamanha vulnerabilidade.

A cadeia de seguros sempre focou no crescimento econômico, no desenvolvimento das pessoas, na proteção dos bens materiais e, inclusive, nas catástrofes. Nas últimas décadas, contornamos com sucesso casos isolados de peste suína, doença da vaca louca e gripe aviária, com soluções para a proteção de agricultores e comunidades localizadas. Mas por conta da inexistência de produtos no mercado e de uma falta de visão das consequências drásticas que poderiam acontecer, uma pandemia propriamente dita estava de fora desse pool de proteção.

O que ficou evidente este ano foi uma desproteção total de todos os países do mundo. Não podemos ignorar: há no mercado uma lacuna de proteção para grandes riscos pandêmicos, que não se resumem ao coronavírus. Estudos científicos alertam que, em consequência da exploração do planeta e do descuido com o meio ambiente, a humanidade provavelmente será exposta a outras pandemias em menos de cem anos. O Relatório de Riscos Globais de 2021 continua a classificar o clima como um risco iminente, na medida em que a cooperação global enfraquece. É urgente que estejamos preparados para isso.

As pessoas 

É evidente que algumas empresas já experimentavam o home office antes da pandemia do coronavírus, mas numa minoria muito pequena. De uma hora para outra, todos os trabalhadores do mundo que tinham condições de trabalhar à distância tiveram de se adaptar a essa nova dinâmica.

Tamanha movimentação trouxe a necessidade de flexibilidade, de humanização nas relações pessoais e, principalmente, de confiança entre as partes. No mundo que conhecíamos antes, esse era um fator lateral nas relações de trabalho, que se pautavam principalmente na entrega de tarefas e em suas consequentes recompensas. Hoje, a situação é outra: se o elemento confiança não apareceu em alguma empresa ao longo dos meses de trabalho à distância, é porque algo está errado na gestão da companhia.

Agora, vemos um ambiente muito mais colaborativo e participativo, apesar da distância e do isolamento físicos. O acesso a informações e a formação de inteligência deram saltos gigantescos, com o uso do banco de dados das empresas como ferramentas. Pessoas do mundo todo, das mais diversas áreas, aprenderam a se conectar de uma maneira muito eficiente, provando que aquele ambiente tradicional de escritório não era necessário.

Isso não significa, no entanto, que ter uma base física não seja favorável. Com o controle da pandemia, em um futuro breve, o que veremos provavelmente será uma dinâmica mista, em que o escritório deixa seu caráter de rotina para se transformar em um ambiente de interação social e troca de experiências, tão importantes para a vida em sociedade e que não podem ser deixadas de lado. O equilíbrio emocional do corpo de funcionários passou a ser uma preocupação muito forte do empregador, que tem o dever de assumir a responsabilidade pelas consequências do novo ambiente que está fornecendo ao seu colaborador. Sem um relacionamento humano muito forte, não haverá continuidade de sucesso nas grandes corporações.

A estratégia 

Com as transformações na vida em sociedade, a estratégia dos negócios e a distribuição de seus produtos também mudaram. A pandemia promoveu um despertar em relação ao funcionamento do mundo, que teve que pôr em prática de uma vez por todas os frutos da globalização e da conectividade. Com o boom das compras online e dos sistemas de delivery, o consumidor tem acesso muito mais fácil aos bens que pretende adquirir. Ninguém mais quer entrar em um supermercado ou ir à sorveteria depois da experiência bem-sucedida feita de forma virtual. Fazer tudo dentro de casa economiza tempo, para ser usado em atividades de bem-estar, como o convívio com a família e o lazer.

É evidente que ainda se busca um equilíbrio muito grande na dinâmica das empresas, mas fato é que a realidade econômica e de trabalho mudou. Quem não adotou uma estratégia digital nesse período perdeu o bonde da história. As grandes empresas e distribuidoras, que já estavam preparadas para atender a essa demanda, se beneficiaram demais. Vemos a Magazine Luiza, cujo forte sempre foi o varejo, pôr em prática uma operação digital que provocou um crescimento de seu marketplace de impressionantes 214% no segundo trimestre de 2020, com o e-commerce passando a representar 78,5% das receitas totais da companhia. Trata-se de um exemplo claro de comportamento de estratégia de business, que contribui para uma transformação muito relevante no nosso ambiente econômico e social.

Sem falar na necessidade urgente que a pandemia trouxe de uma estratégia social por parte das empresas. Hoje, uma companhia que não está focada em ESG (Environmental, Social and Governance) não existe no mercado. Essa demanda por uma estratégia de governança de responsabilidade social por parte das empresas veio à tona com a pandemia, e é mais uma transformação que não tem volta.

A solução

 O mundo pede a união dos países e uma visão de longo prazo para a criação de artifícios de proteção que sejam de acesso público. As grandes empresas têm o dever de assumir a linha de frente no trabalho com governos e líderes empresariais globais para o desenho de soluções que contribuam para mitigar o risco pandêmico e acelerar a recuperação econômica e social. A ideia é investir em uma estratégia de proteção, no sentido de se criar um fundo soberano para esse tipo de catástrofe, a exemplo do que existe nos países mais afetados por catástrofes naturais, além de modelos de resseguros de parceria público-privada (PPP), que representam mais uma opção relevante no gerenciamento do risco pandêmico.

Sabemos que ter uma reserva de proteção é fundamental para garantir também a saúde econômica dos países. O Brasil foi um dos que mais investiram na doação de recursos para os necessitados, com um auxílio emergencial generoso, mas essa medida trouxe consequências gravíssimas de aumento do déficit público. Não é uma realidade apenas nossa, mas de muitos países que se viram obrigados a queimar toda a sua reserva para enfrentar uma situação de catástrofe. Vivemos a pior contração econômica em 100 anos na América Latina, e isso implica uma recuperação muito lenta, podendo levar décadas para que a economia global volte ao estado em que se encontrava anteriormente.

A situação extrema pela qual passamos convoca todos a unir forças para congregar estudos e apresentar à sociedade uma solução que, aliada à produção de vacinas e às medidas de contenção recomendadas pelos órgãos sanitários, possa decretar a vitória da humanidade nesta luta em favor da vida.

*Eugênio Paschoal, CEO da Marsh Brasil

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