O mundo não é imbecil

O mundo não é imbecil

José Renato Nalini*

16 de julho de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O retrocesso da política ambiental brasileira chegou a tal dimensão, que motivou a reação de agentes insuspeitos. Não são os “ecochatos”, os defensores do “mico leão”, os comunistas infiltrados nas ONGs que conspiram contra o país que enxergam o futuro plúmbeo para a nossa economia. São economistas como José Roberto Mendonça de Barros (“O agronegócio ameaçado”, OESP. 28.06), Pérsio Arida (“Brasil virou pária do investimento internacional”, OESP 12.07) e até o ex-Ministro Roberto Rodrigues (“Ilegalidades”, OESP 12.07). Todos demonstrando que o único setor exitoso nesta desgraça em que o Brasil mergulhou – o nunca tão louvado agronegócio – naufragará, se não houver urgente e profunda alteração na rota suicida da política anti-ambiental.

A imagem do Brasil desmoronou no exterior. Enquanto os chargistas multiplicavam o resultado de sua criatividade, estimulada por inacreditáveis manifestações das altas esferas, o setor econômico enxergava mais longe. A mudança climática é o tema de maior relevância para a subsistência da espécie humana e para todas as demais formas de vida. É algo que até criança de país civilizado consegue enxergar. Não fora Greta Thumberg, louvada no planeta, à exceção dos quistos obscurantistas, uma adolescente que sacudiu a inércia mundial.

Os sinais emitidos por um governo que pretendeu ignorar essa tendência foram bem interpretados pela criminalidade organizada. O desmatamento cresceu assustadoramente. A grilagem também. Simultaneamente, o desmonte das estruturas postas a serviço da maior biodiversidade do mundo e da última grande floresta tropical na Terra.

A soltura da boiada e a baciada de ataques à natureza surtiram efeito. Mas o mundo civilizado não é imbecil. Sabe que soberania, surrado argumento dos dendroclastas, é conceito extremamente relativizado. A salvação do mundo interessa a todos. O problema da devastação, da poluição incentivada, do desmanche dos esquemas protetivos ultrapassa fronteiras. É uma ação desafinada que oferece perigo concreto a todos os viventes.

Por isso a reação dos representantes dos Fundos que administram trilhões, advertindo o Brasil de que não haverá continuidade no processo crescente de aquisição de nossas comodities, se essa indecorosa conduta tiver continuidade.

Os tiros certeiros da comunidade internacional fizeram expressa admoestação às nossas Embaixadas. Os empresários brasileiros aderiram à reação do mercado com a urgência que essa legítima defesa da combalida economia pátria tem de fazer. O Brasil depende das exportações de países que têm sido levianamente ofendidos por quem melhor faria se os cultivasse, em lugar de lamber as botas de quem nos despreza continuamente.

Qual a resposta que se espera?

Se não houver cobro, haverá mais do mesmo. Agora como farsa. Ou seja: 1. Não é uma questão de “narrativa” ou de “falta de comunicação”. O mundo inteiro enxerga as queimadas, a destruição do verde, o desrespeito às terras indígenas. A destruição e o extermínio são flagrantes; 2. Viagem de Ministro brasileiro ao exterior é turismo em momento de naufrágio. Os fatos são incontestes e versões edulcoradas não terão o condão de desmentir aquilo que todos assistem.

Há coisas concretas e efetivas que podem ser feitas sem gastar um tostão com propaganda ou com viagens internacionais. Por exemplo: 1. Chamar quem conhece o assunto. Todos os ex-Ministros do Meio-Ambiente se posicionaram. Eles têm experiência. Eles têm tradição no tema. Eles sabem perfeitamente o que custará ao Brasil matar a sua galinha dos ovos de ouro; 2. Chamar a Universidade, os biólogos, os cientistas, os representantes dos Institutos que há tantas décadas atuam na defesa ecológica, não faria mal a quem pretendesse uma súbita demonstração de estar preocupado com a cessação dos bônus de nossa balança comercial; 3. Pedir desculpas e colocar nos lugares devidos os técnicos e especialistas que foram exonerados quando se posicionaram a favor de um patrimônio universal, que nenhum membro de qualquer governo construiu, mas que o atual está a destruir com sanha facinorosa.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Não haverá muito tempo para arrependimento, quando o mundo todo se posicionar contra um País que foi padrão de consequente e pioneira tutela ambiental e atuar para por cobro à insanidade.

Que não é com discursos, promessas vagas, “narrativas” ou turismo pelo mundo civilizado que o ambiente no Brasil voltará a ser a mais valiosa moeda de troca a nosso favor. Aquilo que seria a garantia dos tão desejáveis investimentos externos, sem os quais a queda no buraco sem fundo continuará a sacrificar os brasileiros.

A mensagem da civilização para o Brasil em marcha-a-ré foi muito explícita: é de dinheiro que estamos falando, não de ararinha azul…

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e autor de Ética Ambiental, 4.ª Ed., RT-Thomson Reuters

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