O mundo inteiro é um palco

O mundo inteiro é um palco

Mathias Schneid Tessmann e Luiz Augusto Magalhães*

24 de maio de 2021 | 14h00

Mathias Schneid Tessmann e Luiz Augusto Magalhães. Fotos: Divulgação

A pandemia chegou e com ela vieram as diversas medidas de isolamento social. Tais medidas implicaram que nenhum evento com possibilidade de aglomeração física de pessoas fosse permitido por lei, acarretando a suspensão de shows, peças de teatro, salas de cinema, exposições de arte e um grande número de outros eventos socioculturais. Não é surpresa que o ramo do entretenimento como um todo sentiu bastante os efeitos deletérios da pandemia.

Mas para a surpresa de muitos, apesar da pandemia, a indústria da música teve uma receita recorde de 21,6 bilhões de dólares em 2020 mundo afora, 7,4% maior que em 2019. Sabemos muito bem que o impacto econômico total e o resultado financeiro de uma indústria não são números diretamente comparáveis, mas ainda assim, trata-se de um feito bastante significativo. Como será que isso foi possível?

Em economia, quando o preço de um produto ou serviço aumenta, as pessoas tendem a recorrer aos chamados substitutos que, dentro da cesta de consumo da pessoa, são mercadorias que exercem função igual ou similar ao produto cujo preço aumentou. O mesmo fenômeno pode ocorrer quando um produto ou serviço deixa de estar disponível no mercado. No cenário pandêmico, quando falamos de entretenimento, as opções virtuais substituíram as opções reais.

Ao invés de aglomerar-se em concertos musicais e bares com música ao vivo, as pessoas passaram a assistir às famosas Lives e/ou usar plataformas que contém um acervo de músicas. Também, o escuro do cinema e as mágicas cortinas de teatros deram lugar à perdição na reprodução automática de filmes e seriados que se estendem por diversas temporadas.

Se você nasceu até o início deste milênio, deve se lembrar de quando precisava necessariamente alugar, emprestar ou comprar uma fita VHS, DVD ou Blu-ray para assistir a um filme (e depois de assistir, rebobinar), ou comprar um CD ou LP para ouvir ao seu artista favorito sem sair de casa. No entanto, o surgimento de novas tecnologias permite que hoje isso seja realizado sem que mesmo seja necessário sair de casa, através dos serviços de streaming.

Em resumo, streaming se refere a um conjunto de serviços de mídia no qual o usuário não precisa realizar o download ou portar fisicamente os arquivos que deseja consumir. Além disso, alguns dos ofertantes desses serviços permitem que o usuário tenha acesso a todo um acervo de produtos. Em geral, para ter acesso a esses serviços, basta ter acesso à internet em um dispositivo e um contrato de assinatura com a plataforma. Netflix, Amazon Prime, no ramo de vídeo, Spotify e Deezer na música, e o próprio Youtube como um misto entre os os dois, são alguns exemplos de serviços de streaming que você já deve conhecer.

Especificamente no mundo da música, o streaming foi responsável por 62% das receitas em 2020. Isso na verdade reflete uma tendência que já vem se materializando há pelo menos sete anos, mas mostra que a realocação de recursos em direção a novos avanços tecnológicos pode manter um mercado em operação até mesmo durante um período tão negativamente atípico.

Obviamente, nem tudo são flores. É preciso lembrar que existem múltiplos atores no lado da oferta deste mercado, e que a expansão do formato de streaming não produz ganhos de forma homogênea entre artistas, gravadoras, produtores de eventos e plataformas de streaming, tampouco entre os integrantes de cada uma dessas categorias.

Como um exemplo, as receitas do Spotify advém principalmente da venda de assinaturas premium e propaganda, e para manter seu acervo e ofertar seus serviços, a empresa precisa pagar bilhões de dólares em direitos autorais. Apesar dessa imensa soma no agregado, Spotify paga cerca de três quartos de um centavo de dólar por cada reprodução às gravadoras, e cerca de um quarto para os artistas. Para tornar a situação ainda mais complexa, apesar de um número recorde de novos assinantes, Spotify reportou um prejuízo líquido de 581 milhões de euros ao final de 2020.

Percebemos então que o futuro do streaming no mundo da música ainda é incerto, mas já houve um grande impacto na forma como experimentamos a música e ajudou um imenso número de pessoas ao redor do mundo a navegarem pelos tempos desafiadores que estamos vivendo.

*Mathias Schneid Tessmann é coordenador executivo, pesquisador e professor no IDP e doutorando em Economia com ênfase em finanças.

*Luiz Augusto Magalhães é doutorando em Economia pela Universidade Católica de Brasília e Pesquisador Visitante no IPEA.

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