O mundo à espera de um novo Franklin Roosevelt

O mundo à espera de um novo Franklin Roosevelt

Antônio Roque Citadini*

14 de abril de 2020 | 08h15

Antonio Roque Citadini. Foto: Divulgação

A crise econômica de 1929 representou um dos maiores marcos do século passado. Foi um tsunami devastador iniciado na bolsa de valores americana que acabou atingindo todos; empresas foram destruídas, milhões ficaram desempregados, sem casa, sem comida e o quadro geral era de grande desânimo.

A regra americana, até então, privilegiava a noção de um Estado pequeno e com amplas, e quase irrestritas, liberdades para a atividade privada. Depois de algumas décadas deste regramento, os Estados Unidos deixaram de ser apenas uma ex-colônia para se tornar uma grande potência, se destacando no mundo. Por causa deste ambiente ninguém ficou surpreso com o resultado inicial da crise: o governo não iria se mobilizar para tentar socorrer as empresas, os bancos, as seguradoras e nada faria pelos milhões de desempregados e famintos que cresciam em número a cada dia.

Um passo de cada vez, a crise foi ficando mais e mais violenta e se espalhou por todos continentes.

No meio deste drama, quem venceu a eleição presidencial foi o candidato democrata Franklin Delano Roosevelt. Ele era um rico aristocrata de Nova York e seu partido ainda era fortemente marcado por ideias escravocratas e segregacionistas. Nada indicava, naquele momento, uma transformação muito grande. O que veio a seguir, entretanto, foi um choque para a América e para o mundo. Diante da destruição vivida pelo país, levantou-se um novo George Washington ­—ou um novo Abraham Lincoln.

Logo após sua posse, Roosevelt prontamente anunciou o “New Deal”, seu profundo programa de reformas que mudou tudo nos EUA: mudou o Estado (que passou se preocupar com áreas onde jamais havia chegado); mudaram as empresas (que receberam incentivos que jamais tiveram e, para escândalo de todos, se submeteram a controles e regras nunca vistos); mudou também o mundo do trabalho (que foi reestruturado com novas leis previdenciárias e trabalhistas). Mudou a saúde, mudaram os bancos, as bolsas e o controle monetário.

Roosevelt era um corajoso reformador, sem dogmas. Enfrentou o judiciário, os jornais e os ricos —mesmo sendo ele parte deste último grupo. Ao contrário do que muitos imaginam, nunca foi um membro de carteirinha da Escola Keynesiana, que contestava o liberalismo econômico inglês. Anos depois do New Deal, os seguidores da Escola de Keynes quiseram reivindicar como suas as ideias do New Deal. O curioso é que Roosevelt pouco conhecia das teorias do economista britânico. Quando os dois se encontraram, apesar da cordialidade, o presidente não teve as melhores impressões do mundo: disse que Keynes era mais matemático do que economista e que ficava fazendo cálculos o tempo todo. Keynes também não fez bom juízo do presidente: dizia que ele era simplório, avoado e de personalidade estranha.

A personalidade estranha de Roosevelt tinha um aspecto determinante: a coragem. Foi a coragem que o moveu para combater a grave crise.

Ao enfrentar os desastres, Roosevelt foi um prático: as empresas estavam quebradas por especulação na Bolsa e ele implementou regras para a atuação econômica (inclusive regulamentando os bancos); os trabalhadores estavam sem casa e comida e foram socorridos por programas de distribuição de refeições e vales; ele também investiu em toda infraestrutura e acabou por construir estradas férreas, aeroportos, rodovias, estações, escolas, teatros e muito mais -tudo enquanto empregava quem precisava de trabalho. O mais importante, porém, é que ele deu um rumo para a América; ele apresentou o desafio da grande nação e convocou todos para virar o jogo. E virou.

E hoje, com o tsunami do coronavírus, temos novos Roosevelts? Ainda não. Estamos esperando. O que vemos são governos tímidos e que não conseguem empolgar ninguém para uma marcha de virada. Todos seguem o modelo Obama: salvar bancos, seguradoras e montadoras e, por consequência, acreditam estar salvando o mundo. Tudo com vasta impressão de dinheiro. Máquinas de dinheiro, nessas épocas, rodam mais do que máquinas da indústria.

Trump, aparentemente, repetirá Obama, que repetiu Clinton, que não viu o que fez Roosevelt.

O mundo que está por vir será caótico se continuarmos neste mais do mesmo. Precisamos urgentemente de um novo Roosevelt. Carecemos de sua coragem, decisão de luta e de sua busca por novos caminhos.

Artigo publicado originalmente no Blog do Citadini, nesta terça-feira, 14.

*Antônio Roque Citadini, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo

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