O multiplicador de ameaças

O multiplicador de ameaças

José Renato Nalini*

06 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O aquecimento global, negado pela ignorância interessada em cifrão, como se a vida fosse inferior ao dinheiro, é um multiplicador de ameaças. E também potencializador dessas ameaças que não estão a pairar sobre a humanidade, mas já a atingem todos os dias.

Todos os problemas atualmente enfrentados pelo animal racional que teima em destruir seu habitat resultam desse maltrato à natureza. A pandemia é um dos resultados do mau uso que fazemos desse patrimônio que não sabemos construir, que recebemos já machucado, mas que mandamos para a agonia, com nossa inclemência permanente.

Para evitar que novas pandemias ocorram – e elas estão no horizonte – é preciso não apenas parar de desmatar. É urgente recompor as áreas dizimadas, aquelas que tiveram cobertura vegetal nativa e que a ganância exterminou.

O replantio de espécies vegetais auxilia a saúde, pois oferece clima hígido, reduz as desigualdades sociais, pois haverá múltiplas formas de exercício de uma economia verde, saciará a fome, porque terra fértil é aquela apta a produzir alimento na escala necessária para saciar todos os habitantes da Terra. Enfim, benefício para todos.

A Organização Mundial da Saúde, tão criticada neste Brasil polarizado, promove uma campanha global chamada “Recuperação Melhor Juntos” ou “Recover Better Together”, ao lado da União Europeia e do Global Citizen, organização não governamental cujo objetivo é acabar com a pobreza extrema em todo o mundo, até o ano de 2030.

O paradoxal é que, desde 1988, o Brasil se propõe a edificar uma pátria justa, fraterna e solidária, com eliminação da miséria e redução da pobreza, e pouco ainda fez durante esses trinta e três anos, a não ser exterminar o futuro.

Sob a passividade nacional, foi preciso que o mundo civilizado chamasse a atenção da República Federativa do Brasil para as consequências danosas de sua antipolítica ambiental. O fornecedor de comodities precisa do mercado internacional para que o agronegócio continue a “salvar a lavoura”. Mas a parte culta do planeta não quer mais produtos que não tenham compromisso com o desenvolvimento sustentável.

Os recados foram muito claros. Ou o Brasil se enquadra, devolvendo aos técnicos os cargos e funções alvo de desmanche do Ministério contra o Meio Ambiente, faz cessar o desmatamento e pune os exterminadores do futuro, ou as comodities tupiniquins não entrarão mais na União Europeia.

Os discursos estatais já não convencem os compradores. Algo que a perspicaz Senadora Kátia Abreu, hoje presidente da Comissão de Assuntos Externos do Senado detectou. Como o cliente sempre tem razão, ela observou, os consumidores têm todo o direito de escolher de quem vão comprar. E se o aquecimento global é a maior ameaça do presente, não é possível que o Brasil persevere numa política burra e cega de ignorá-lo.

Aquilo que foi negligenciado pelo governo foi também parar no foco do mercado financeiro. Os três maiores bancos particulares do Brasil se uniram para salvar a Amazônia. Os ex-ministros do Meio Ambiente se posicionaram no mesmo sentido. CEOs das maiores empresas perfilharam a banda saudável da nacionalidade e exigem seriedade no trato do assunto mais sensível de nossos dias.

O próprio Poder Judiciário, que se esqueceu do princípio da vedação de retrocesso para considerar compatível com a Constituição Ecológica a lei que substituiu o Código Florestal, acolhendo todas as agressões nela contidas contra a natureza, parece regenerar-se. Ao menos é o que se vislumbra em artigo escrito pelo ministro Luiz Roberto Barroso, em parceria com Patrícia Campos Mello e recentemente divulgado no portal “Jota”.

Enfim, é preciso que um capítulo esquecido da Constituição Cidadã, que foi considerado um pacto verde, tal a sapiência com que redigido o seu artigo 225, seja objeto de acurado empenho de toda a nacionalidade: a educação ambiental em todos os níveis. Formal e informal. Pois alguém ambientalmente educado nunca viria a concordar com o descaso, a incúria, a omissão naquilo que deve ser feito e a deliberada intenção de açular grileiros, invasores, dendroclastas e outras tribos, no ataque intenso contra os biomas, sobretudo a irrecuperável Amazônia.

É da cidadania que tem de vir a exigência de que o Estado se comporte como servo da população, já que o único titular da soberania é o povo, sob pena de responsabilização – em todos os níveis : administrativo, civil e criminal – dos detratores da natureza.

Para os otimistas ainda há tempo de reverter o curso da catástrofe. É bom acreditar neles e agir. Sem tardança. As futuras gerações saberão reconhecer o que esta fizer. Senão, talvez nem haja porvir humano sobre a Terra.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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