O momento ‘cripto-multiplicador’ da América Latina

O momento ‘cripto-multiplicador’ da América Latina

George Paliani*

04 de maio de 2021 | 04h45

George Paliani. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em 2020, os países latino-americanos enviaram US $25 bilhões em criptomoedas e receberam US $24 bilhões, o que representa entre 5% e 9% de todas as criptomoedas do mundo. O Brasil é o maior usuário, com US $9 bilhões em transações recebidas, seguido por Venezuela, Argentina e Colômbia, com cerca de US $3 bilhões cada. Por trás desses números, as criptomoedas representam não apenas um novo momento na América Latina, mas uma oportunidade. Isso se deve a algumas particularidades da região, que tornam a moeda uma alternativa transformadora.

Em uma região atormentada pela inflação e depreciação de suas respectivas moedas, a criptografia representa uma maneira viável de proteger a poupança. Embora os excessos da década de 90 tenham sido evitados, as taxas de inflação regionais variaram entre 4% e 7% durante a última década. Portanto, a realidade é que a ‘cesta’ de mercadorias a partir da qual são calculadas está em constante mudança (o que não pode ser comparável entre os países). Até a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe admite que tais dados tendem a subestimar o real impacto da inflação.

Logo, tais tendências não aparecem nos mercados de câmbio, notoriamente voláteis; em 2019, o peso argentino perdeu quase 60% em relação ao dólar, enquanto o peso chileno caiu 12,4% em relação à moeda americana em apenas quatro semanas, em novembro do ano passado, após protestos sobre mudanças na Constituição. A situação só foi agravada pela pandemia do coronavírus; entre março e maio de 2020, por exemplo, o real perdeu quase 16% de seu valor em relação ao dólar. Desta forma, esta incerteza não apenas corrói o valor de cada moeda, mas torna o planejamento de longo prazo impossível.

O segundo aspecto que favorece a criptografia é o custo e a inacessibilidade das alternativas bancárias convencionais. O setor bancário latino-americano possui níveis de regulamentação e taxas de transação onerosas. Segundo o Bank for International Settlements, as taxas bancárias cobradas dos usuários finais são “as mais altas entre EMEs (economias de mercado emergentes)”. Em 2018, as taxas totais cobradas de consumidores e comerciantes representaram 4% do PIB da região; isso em comparação aos 3% para a Ásia e menos de 2% para os bancos da EMEA. Da mesma forma, as tarifas cobradas para transações de consumo doméstico alcançaram 0,7% do PIB na região, em comparação com 0,2% na Ásia-Pacífico.

Um monopólio efetivo explica: no Brasil, 80% dos depósitos estão concentrados nos cinco principais bancos do país, enquanto outros mercados são alarmantemente mal atendidos; no México, há um total de 51 bancos; na Colômbia, 25; números para países com populações de 127 e 51 milhões, respectivamente! Um ambiente improvável e incapaz de gerar serviços acessíveis para uma nova geração que busca crescer no comércio internacional.

A terceira particularidade é a cultura da América Latina e os pagamentos dependentes do exterior. Apesar da atual crise global, os fluxos de remessas (principalmente dos EUA) permaneceram estáveis: em junho do ano passado, a República Dominicana recebia 26% a mais de remessas do que em junho de 2019, ao mesmo tempo que Honduras também registrou uma queda de 15% no ano, equivalente a um aumento anual no mesmo período; as remessas de El Salvador aumentaram 10%. Já as receitas de remessas da Guatemala atingiram recordes históricos em julho e agosto de 2020. No México, as receitas de remessas alcançaram a marca de US $3,57 bilhões em agosto de 2020. Em toda a região, de acordo com estimativas do Banco Mundial, a receita das remessas representa quase 2% do PIB total. Diante disso, o impacto – não apenas da incerteza da taxa de câmbio – mas dos custos de transação é particularmente proeminente na região. Um problema que foi agravado pela retirada de alguns serviços de transferência – incluindo nomes como Western Union e Crédit Mutuel.

Todas essas realidades tornam a criptografia uma alternativa cada vez mais atraente como opção de pagamento, seja para consumidores e pequenas e médias empresas, que respondem por até 50% do volume de comércio e lutam para acessar o apoio internacional de bancos e instituições tradicionais. No entanto, o impacto socioeconômico mais amplo da criptografia não deve ser subestimado. Os planos do Banco Central para uma regulamentação formal e transparente são inevitáveis à medida que as transações em moeda não-FIAT se tornam mais comuns. A isso, contanto que tal regulamentação proteja os usuários sem prejudicar as vantagens competitivas e práticas que os pagamentos criptográficos representam, pode ser considerado um passo positivo. Logo, as criptomoedas são mais do que apenas uma transação. A promessa do efeito “cripto-multiplicador” é que ele pode representar um impulsionador de crescimento em toda a região da América Latina, como uma tendência latente.

*George Paliani, chefe de Crescimento e Relações Públicas da CoinsPaid

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