O modelo atual de streaming está fadado ao fracasso

O modelo atual de streaming está fadado ao fracasso

Ricardo Kurtz*

10 de fevereiro de 2021 | 04h10

Ricardo Kurtz. FOTO: JENNIFER LIU

A mudança no comportamento do consumidor de produtos audiovisuais já é um fato e a internet é, de longe, o principal motivo dessa movimentação. A queda na audiência das grandes emissoras e a migração de assinantes de TV a cabo para o streaming comprovam essa tese. No entanto, nesta seara, poucos acontecimentos deixavam isso tão exposto como o anúncio da não renovação do contrato do apresentador Fausto Silva e a Rede Globo, após 32 anos de parceria.

Grande campeão de audiência, o programa “Domingão do Faustão” foi líder em publicidade e recordista em tempo no ar. Para os artistas que iniciavam a carreira há uma década, por exemplo, ser um dos convidados do programa era sinônimo de sucesso. Como se a carreira pudesse ser dividida entre o antes e o depois do “Domingão”, graças à visibilidade alcançada. Entretanto, hoje isso não acontece mais e a resposta todo mundo já sabe: internet.

Por anos, a televisão dominou a cadeia de conteúdos, escolhendo o que deveria ou não ser veiculado. A internet, por outro lado, democratizou a produção de conteúdo, dando liberdade ao consumidor e possibilitando que pessoas saíssem do anonimato e se tornassem artistas, sem precisar ter o reconhecimento de um canal de televisão. Vale lembrar que até o próprio apresentador almeja uma oportunidade junto ao streaming a partir do próximo ano.

A revolução do streaming

A internet também possibilitou as plataformas de streaming, que chegaram aos consumidores garantindo a liberdade de assistir o que quer, quando e no formato que preferir, o que casou perfeitamente com o modelo atual de consumo de conteúdo. Tanto que as plataformas conquistaram milhões  de assinantes das tradicionais televisões a cabo e aberta.

No último ano, a adesão do streaming cresceu ainda mais, o Netflix alcançou duzentos milhões de assinantes. É evidente que o distanciamento social promovido pela pandemia colaborou com o cenário, mas a facilidade somada à experiência, além da qualidade e variedade dos conteúdos são, sem dúvidas, os principais fatores que justificam esse crescimento.

Cresceu também a oferta de plataformas de streaming. Inúmeras produtoras criaram os seus próprios aplicativos, oferecendo conteúdos diferenciados com o objetivo de ter sua parcela de crescimento no “boom” do setor. Para o consumidor, mais variedade, mas também novas assinaturas.

Transformações constantes

É indiscutível o sucesso das plataformas que movimentam hoje o setor de entretenimento. No entanto, já existem alertas que apontam a necessidade de se adaptar para continuar conquistando novos adeptos. O streaming aparece no mercado chamando a atenção dos consumidores graças a conteúdos exclusivos  e seu preço baixo. Um grande acerto!

Contudo, é notável aumentos recorrentes em relação ao preço mensal do serviço – principalmente na busca de rentabilidade e geração de caixa. O que é justificado quando se analisa o modelo de negócio atual e percebe que a conta não fecha. Por isso, a corrida em monetizar o conteúdo segue de diferentes maneiras, seja com o Ad Based, como faz o YouTube ou nas receitas recorrentes, a exemplo da Netflix. Mas será que o consumidor está satisfeito?

Sendo empático com o assinante, os dois modelos são pouco vantajosos por três fatores principais: preço, anúncios e controle de conteúdos. Isso pode ser visto nos números levantados pela pesquisa do Kantar IBOPE Media do último mês. Olhando AD Based, a interrupção ou obstrução nos conteúdos para inclusão de peças publicitárias gera no consumidor um descontentamento com a  plataforma, com o criador do conteúdo, e também com a marca anunciante. Segundo o IBOPE, 41% dos consumidores optam por assinaturas pagas sem publicidade, mesmo possuindo um valor consideravelmente mais alto.

Já quando o tema é a assinatura recorrente, diante do aumento da oferta de streaming é normal que os consumidores assinem mais de uma plataforma, ato que compromete diretamente o seu bolso. Neste cenário, o Kantar IBOPE Media nos mostra que 55% dos consumidores são atraídos por um menor custo mensal em serviços de streaming mesmo com inserções publicitárias.

O terceiro ponto aborda a influência que os grandes players têm em relação ao consumo de conteúdo. Segundo o Ibope, o comportamento do “consumidor bumerangue”, isto é, aquele assinante que acaba contratando os provedores só para consumir um conteúdo e, posteriormente, rescinde o contrato, cresceu em 2019 e 2020 e ao que tudo indica continuará em expansão em 2021.

Isso porque, as empresas de streaming agem de maneira impositiva ao determinar os conteúdos que serão disponibilizados, bem como o valor que será pago aos provedores. Dessa maneira, as plataformas vão contra o que sugeriu Friedrich Hayek, no seu ensaio “The Price System as a Mechanism for Using Knowledge”, publicado em 1985, onde defende que o funcionamento eficiente do mercado exige a descentralização das tomadas de decisão. Isto é, as plataformas de streaming cometem o mesmo erro que minimizou a atuação da televisão: o controle do consumo.

Analisando a pesquisa concluímos que existe um grande número de consumidores insatisfeitos com os modelos de monetização adotado pelas plataformas. Se de um lado a quantidade de propagandas incomodam 41% dos assinantes, do outro o preço é um empecilho para 55%. Além disso, o controle do consumo é uma ação ultrapassada que vai contra o comportamento moderno dos consumidores. Por isso, as plataformas de streaming podem ser entendidas como um passo da evolução, mas não o seu ponto final.

É preciso compreender que a atenção pública é como uma mercadoria valiosa e que o comportamento dos consumidores segue em constante mudança. São necessários modelos de negócio que agreguem valor não só através de conteúdos, mas também com formas de monetização vantajosas para os artistas e criadores de conteúdo, além de custos compatíveis com a realidade dos assinantes. Proporcionando boa experiência, conectividade, rapidez e outras soluções de acordo com o interesse e afinidade dos consumidores, devolvendo o poder de escolha, com menos filtros, para quem sempre o deteve através do controle remoto.

*Ricardo Kurtz, fundador e CEO do ZoOme.TV

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