O mito do voto impresso

O mito do voto impresso

Leandro Consentino*

03 de agosto de 2021 | 17h05

Leandro Consentino. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Com o fim da ditadura militar e a promulgação da Constituição de 1988, o Brasil alcançou o regime democrático, estendendo o sufrágio inclusive aos analfabetos. O pleno exercício desse direito, contudo, só viria com a instituição do voto eletrônico, em 1996, já durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Desde então, centenas de milhares de vereadores, vice-prefeitos, prefeitos, deputados (estaduais, distritais e federais), suplentes de senadores, vice-governadores, governadores, vice-presidentes e presidentes da República foram eleitos com base nesse sistema. Para além de casos pontuais, devidamente esclarecidos, jamais houve contestação à lisura do processo, que ainda conseguiu garantir uma apuração rápida e eficiente, sobretudo se compararmos a modelos desorganizados como os das eleições norte-americanas.

Mesmo quando em 2014, o candidato derrotado no segundo turno Aécio Neves pediu legitimamente uma auditoria sobre o pleito, o Tribunal Superior Eleitoral referendou o resultado, o que foi prontamente aceito pelos atores políticos na ocasião. Instados a comentar o episódio há algumas semanas, Neves e seu candidato a vice na ocasião – o ex-senador Aloysio Nunes – disseram que a derrota foi legítima e a ex-presidente Dilma Rousseff foi vitoriosa naquele pleito.

Apesar disso, alguns ainda insistem em ocupar as ruas e as redes sociais para pedir o voto impresso e auditável. Seja por ignorância ou má-fé – ou uma combinação perversa de ambas – parecem não dar atenção para o fato de que nossas eleições já são pautadas por esse tipo de voto. Afinal, com o encerramento da votação, cada urna eletrônica imprime uma espécie de extrato com o total de votos dados a cada candidato, o qual deve ser devidamente afixado na porta das seções eleitorais e ficando à disposição de quem quiser realizar a conferência. Seja por esse meio ou por um pedido de auditoria formal, como o feito pelos tucanos nas urnas em 2014, é possível verificar que, além de impresso, o voto também é auditável, bastando conferir a totalização desses votos com aquela realizada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Por fim, cabe salientar que a legitimidade de tal sistema está garantida inclusive pela ausência de contestação dos resultados ao longo dos anos. Tomemos como exemplo o presidente da República que, como sabemos, ocupou o cargo de deputado federal por sucessivos mandatos antes de ser eleito para o cargo máximo da nação. Das sete eleições que venceu como parlamentar e uma como presidente, seis foram pelo voto eletrônico. Além das suas eleições, seus três filhos mais velhos foram eleitos para mandatos parlamentares diversas vezes, sempre por esse tipo de votação. Curioso que, apenas agora, decidiram contestar o modelo.

A pergunta que fica: a quem interessaria sabotar o sistema eleitoral, justamente às vésperas de uma reeleição que pode estar se esvaindo pelos péssimos resultados do governo e a possibilidade de uma fragorosa derrota, em um processo eleitoral já maduro e consolidado?

*Leandro Consentino é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor do Insper

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