O mercado segurador na contramão da pandemia

O mercado segurador na contramão da pandemia

Fabio Torres*

19 de março de 2021 | 05h30

Fabio Torres. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos anos 1990 a economia brasileira viveu um período de grande abertura ao mercado internacional, de desregulamentação e de privatizações de estatais.

Tal movimento também se estendeu ao mercado segurador. Após diversas privatizações – como as de bancos estaduais como o Banerj e Banespa, que possuíam suas próprias seguradoras, e com alguns anos de atraso a do IRB Brasil Re, o IRB – as seguradoras passaram oferecer melhores serviços e puderam evoluir de uma forma mais rápida do que a economia como um todo. A evolução chegou a tal ponto que o setor se desvinculou do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), mesmo nos momentos mais difíceis da conjuntura nacional e internacional – como em 2020, com a pandemia do coronavírus.

O mercado de seguros teve no Brasil crescimento médio de quase dois dígitos entre 2010 e 2020, década na qual em que o crescimento do PIB foi ínfimo. Em sinistros, indenizações, benefícios, resgates e sorteios o setor totalizou R$ 151 bilhões no ano passado, sem contar saúde e DPVat, o que significou um aumento de 8,3% em relação a 2019. Enquanto isto, por reflexo da pandemia do coronavírus, a economia recuou 4,1%.

A melhor visualização desta evolução seria imaginar que, enquanto o Estado continua sendo lento como um dinossauro, o mercado segurador saiu dessa quase inércia, tornando-se ágil como um homem moderno – e que pode ir ainda mais longe, se transformando em um atleta de elite.

O mercado segurador conseguiu se desvencilhar do PIB porque é passou a ser mais criativo. E tal atributo tem tudo para continuar acelerando o setor, apesar da Covid-19. Vários nichos do seguro vem crescendo, o que traz uma mecânica diferente a esse mercado. E é importante ter em mente que o brasileiro começou a entender a importância de ter uma apólice de seguro.

No Rio de Janeiro, tragédias ocorridas anos atrás, como a queda de um edifício residencial, o Palace 2, e a de um prédio comercial no Centro do Rio, por exemplo, ajudaram a mostrar como o seguro residencial ou do imóvel comercial é necessário e pode ser essencial. Já o novo coronavírus fez muitas pessoas perceberem o quanto um seguro de vida pode fazer a diferença para uma família, dando a ela mais estabilidade e, por isso, se tornando parte importante do custo de vida.

A pandemia também fez aumentar absurdamente os serviços de delivery. E, contratando terceirizados, as empresas passaram a se preocupar com problemas que podem surgir em casos de acidentes, quando elas podem vir a ser responsabilizadas judicialmente. Além disso, o Brasil é, infelizmente, um país judicante, o que faz com que os seguros de responsabilidade civil tendam a crescer por conta das demandas cíveis propostas.

No que forem avançando os movimentos de vacinação em todo o mundo também haverá um maior estímulo para a retomada da economia. Setores como o de aviação, por exemplo, voltarão a ter um incremento da atividade. Como também se espera novas demandas de produtos e serviços do mercado segurador.

Também cresce a olhos vistos a exigência do seguro de responsabilidade civil ambiental, por conta da cobrança internacional por mais cuidado das empresas com relação ao meio ambiente. Como se tem visto, são cada vez maiores e mais claras as exigências dos chamados critérios ESG, Environmental, Social and Governance.

A Lei Geral de Proteção e Dados (LGPD), que entrou em vigor recentemente e garante a clientes responsabilizar empresas pelo vazamento de informações, deve multiplicar por 20 o mercado de seguros contra riscos cibernéticos, que visa proteger as empresas contra a invasão e sequestro de bases de dados.

Já a nova lei de licitações, que está para ser promulgada, aumentará a demanda por seguro garantia. Levando em conta a importância do setor público como contratante, não é difícil imaginar o impacto benéfico sobre o mercado segurador.

A trajetória de alta do dólar tornou o Brasil um mercado alvo para grandes investidores, mais acessível ao capital estrangeiro. A procura tem sido tão interessante para o mercado brasileiro que fundos investidores nacionais e internacionais começam a se interessar pela criação de novas seguradoras no Brasil. Afinal, bem administradas, elas podem dar lucro como poucos investimentos conseguem, e ainda trazem empregos e novas tecnologias.

Para completar, a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) acaba de promover uma ampla flexibilização de produtos. As novas regras já estão valendo e permitem que o cliente, seja pessoa física ou jurídica, busque um serviço personalizado, que atenda a necessidades especificas. Os contratos também serão mais simples, facilitando o entendimento do usuário.

Por enquanto as alterações abrangem apenas os chamados “seguros de danos”. Mas sem dúvida que tal movimento de desregulamentação será estendido e em breve os Seguros de Responsabilidade Civil estarão no centro destas mudanças, que representam um estímulo para uma adequação e redução de preços ao consumidor final e de ampliação da cobertura do seguro no Brasil.

Como se vê, a criatividade e o fôlego do mercado segurador são estupendos. E as perspectivas, excelentes.

*Fabio Torres é sócio-fundador de F.Torres Advogados

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