O mercado de trabalho brasileiro para a população negra

O mercado de trabalho brasileiro para a população negra

Anderson Figueiredo da Costa*

24 de novembro de 2021 | 06h30

Anderson Figueiredo da Costa. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Constantemente vemos a maioria da população negra nas escolas do ensino fundamental, nas comunidades e em empregos menos nobres, porém não vemos essa mesma população em posições executivas ou políticas, em muitos momentos, pouco as vemos no ensino superior. Precisamos entender como e o que isso reflete ao mercado de trabalho, ou conseguir visualizar o cenário atual.

No dia 12/11/2021 foi ao ar a entrevista do piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton realizada pela repórter Mariana Becker da TV Bandeirantes, onde ele disse que gostava de vir ao Brasil porque se sentia em casa e confortável, pois diferente dos outros lugares do mundo onde ocorriam os GPs de F1, aqui ele era maioria. O piloto está correto, no Brasil temos a maioria da população preta ou parda conforme o gráfico da população autodeclarada no Brasil, sua totalidade de negros alcançou 56,20% nos dados apresentados em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, enquanto a população que se autodeclarou branca foi de 42,7%. Neste mesmo ano a população brasileira era aproximadamente 210,1 milhões de pessoas, ou seja, aproximadamente 1,5% a menos que o levantamento de 2021 até a mesma data.

O crescimento da população negra de 2012 até 2019 foi de 6,23% aproximadamente e a população negra também é maioria na força de trabalho brasileira, onde em 2018 representava 57,7 milhões contra 46,1 milhões de autodeclarados brancos, uma diferença de 20,1% a mais de negros no mercado de trabalho. Porém esses dados não se refletem, conforme o gráfico cargos de gestão, onde no mesmo ano, apenas 29,9% desses cargos eram ocupadas por pessoas negras, enquanto 68,6% das vagas estavam ocupadas por pessoas brancas, segundo dados do próprio IBGE.

Os dados nos fazem pensar o porquê a diferença populacional entre brancos e negros são apenas 13,5% e a diferença nos cargos gerenciais são 38,7% entre eles. Assim como a grande diferença nesses cargos, temos outro fator impactante que é a diferença salarial que pode chegar até 3 vezes uma da outra em algumas localidades do Brasil para o mesmo cargo e função, como no gráfico que apresenta a média salarial do Brasil e a de Salvador – Bahia.

Sabemos que a grande maioria da população negra se encontra nas periferias e que muitas vezes precisam interromper seus estudos para que possam começar a trabalhar para ajudar seus familiares com as despesas de casa, fazendo com que a diferença em cargos de gestão não seja reduzida, mas não justifica a diferença salarial ou o porquê a população negra não tenham em suas respectivas empresas programas de aceleração de carreiras para que essa diferença seja reduzida. Quando pensamos em um programa para negro, é impossível não lembrar da iniciativa do Magazine Luiza em 2020 que criou o programa de Trainee direcionado exclusivamente para jovens negros, tendo inclusive bons resultados, ou seja, grandes potenciais profissionais que poderiam passar sem serem notados foram revelados. Em um artigo publicado em novembro de 2020 pela procuradora Ana Lúcia Stumpf González intitulado “Tem um negro na minha vaga”, ela debate esse tema e traz uma reflexão interessante sobre a iniciativa do Magazine Luiza, é comum vermos brancos nos cargos de gestão e tendo preferências nas vagas, porém ao ver que não estavam nestas vagas, foi possível imaginar que um negro chegaria em algum momento a um cargo de gestão. Em nosso país, historicamente as referências de gestão são pessoas brancas, praticamente, da presidência ao professor escolar. Ter uma outra pessoa que o negro possa ver na gestão e se identificar é algo de extrema importância para que esse jovem possa ter como espelho ou incentivo para desenvolvimento profissional, pois será o diferencial para que ele venha estudar para buscar a mesma posição ou uma próxima, afinal quem não se recorda da figura do ex-Ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes que foi o terceiro negro na história no STF, que foi e é inspiração para diversos negros que estudam direito no país.

Quando falamos de educação, infelizmente apenas 18,3% dos negros acabam concluindo o ensino superior, conforme apresentado no gráfico de escolaridade, sendo praticamente a metade dos brancos. Esse é outro fator que impacta em termos profissionais formados e aptos a serem de Professores à CEOs, isso pode se dá também pelo fator da diferença salarial abordada anteriormente, então impactando na possibilidade de continuar pagando a mensalidade do seu curso de graduação ou na possibilidade de fazer uma pós-graduação.

Voltando ao que disse o piloto Lewis Hamilton, sim no Brasil os negros são a maioria populacional, mas ainda precisamos de realizar a equiparação salarial do negro com o branco e termos mais programas de aceleração de carreiras ou de inclusão de negros nas empresas, pois só assim, poderemos ter um país mais justo.

*Anderson Figueiredo da Costa, doutorando em Engenharia e Ciências dos Materiais e  coordenador dos cursos de Engenharia da Universidade São Judas

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