O mensalinho dos gregos na Petrobrás

O mensalinho dos gregos na Petrobrás

Cônsul da Grécia no Brasil atuava como intermediador de propinas para agentes públicos e partidos por informações privilegiadas para estaleiros gregos, revela Operação Sem Fronteiras

Ricardo Brandt e Julia Affonso

19 Agosto 2017 | 05h11

Costa é o primeiro delator da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O cônsul honorário da Grécia no Rio, Konstantinos Georgios Kotronakis, alvo da Operação Sem Fronteiras – deflagrada nesta sexta-feira, 18 -, intermediava o pagamento de um “mensalinho” de propina para o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa para obter informações privilegiadas na estatal e beneficiar os estaleiros gregos nos milionários contratos de afretamento de embarcações.

Em sua delação premiada com a Lava Jato, o ex-diretor da Petrobrás confessou – ainda em 2014 – que recebia de R$ 15 mil a R$ 30 mil mensais para repassar ” informações privilegiadas” para Konstantinos.

“Tais informações privilegiadas eram posteriormente repassadas por Konstantinos para as companhias gregas, as quais poderiam reservar navios para as licitações da Petrobrás”, contou Costa – primeiro delator da Lava Jato.

A força-tarefa afirma que Konstantinos e Georgios Kotronakis, seu filho, articularam pagamentos de propinas, no esquema criminoso articulado com Paulo Roberto Costa “em grande maioria, oriundos de contratos assinados e intermediados pelas empresas do Grupo Aegean e do Grupo Tsakos, estaleiros da Grécia.

“A investigação ainda apura se outros armadores gregos integraram o esquema de pagamento de propinas comandado por Georgio Kotronakis e Kostantinos Kotronakis.”

A Lava Jato já havia localizado mensagem do genro de Costa Humberto Mesquita em que ele fazia referência aos pagamentos dos Kotronakis por “navios” na Petrobrás.

“Tais informações possuíam grande importância ante a intensa variação dos preços dos referidos navios no mercado, referente a demanda e oferta. Assim, as empresas que tinham a informação antecipada do interesse da Petrobrás em contratar os referidos navios poderiam se preparar para participar do certame com vantagem competitiva em relação as concorrentes”, explicou o ex-diretor da estatal.

Os contratos são feitos anualmente pela Petrobrás em licitações com o objetivo de afretar navios de grande porte para o transporte de petróleo e derivados. Segundo o delator, em média, 20 empresas, das quais grande parte é sediada na Grécia, participam das disputas.

“Konstantinus, na condição de Consul da Grécia no Rio de Janeiro, tinha interesse de que a maioria das contratadas fossem empresas gregas.” Como diretor de Abastecimento da Petrobrás, Costa possuía “informações acerca de quantos e quando os referidos navios de grande porte seriam contratados”, as quais repassava ao grego “previamente à abertura dos procedimentos licitatórios”.

O esquema teria começado em 2010 e continuaram até 2014, segundo o delator.

Documento

Costa afirmou que a partir de 2012, o filho de Kostantinos, Georges Kotronakis passou a receber dos armadores gregos a título de “brokeragem” (corretagem) 3% do montante total do valores diários pagos pelo locação do navio.

“Destes 3% repassava 25% ao declarante por intermédio de depósitos em nome da BS Consultin”, registra a delação do ex-diretor. A empresa estava em nome do genro de Costa, Humberto Mesquita.

“Conforme relatório mensal efetuado por seu genro Humberto o valor consolidado destes depósitos em maio de 2013 era de U$ 530.000,00, sendo que a previsão de recebimento para os próximos meses era de aproximadamente U$ 15.000,00 por mês”, disse o delator. “Tais pagamentos permaneceriam sendo efetuados até a data de encerramento dos contratos pactuados pelos armadores gregos no período em que o declarante ocupava a Diretoria de Abastecimento da Petrobrás.”

O delator deixou a estatal em 2012. Segundo ele, como o prazo médio de duração de tais contratos é de três anos, “acredita que no ano de 2014 tais pagamentos continuaram a ser realizados”.

Partido. A Lava Jato descobriu ainda que o esquema dos gregos de corrupção na Petrobrás estava diretamente ligada aos pagamentos de propinas para partidos, em especial ao PP. Em um pen drive apreendido em 2015 na casa do ex-presidente da Eletronuclear Othon Pinheiro da Silva, atribuído ao lobista Bruno Luz, há mensagens que evidenciariam a atuação de Konstantinos e o elo com os pagamentos ao PP.

“A efetividade do esquema de corrupção coordenado por Konstantinos se revela no fato de, ao menos, duas, das três propostas de afretamento apresentadas, terem sido efetivamente aprovadas pela Petrobrás”, informa o MPF.

“Em suma, tais documentos evidenciam o quão intenso é o envolvimento de Konstantinos Kotronakis e demais investigados em esquema criminoso de arrecadação de propinas para si, para gestores da Petrobrás e ao Partido Progressista”, informa o pedido de prisão da 43ª fase da Lava Jato.

 

 

O juiz federal Sérgio Moro proibiu o cônsul Konstantinos Kotronakis de deixar entregar o passaporte. O magistrado determinou que a Delegacia da Polícia Federal de Fronteiras anote a proibição imposta a Konstantinos. O MPF havia pedido a prisão do alvo.