O menino João Alberto

O menino João Alberto

José Renato Nalini*

12 de julho de 2021 | 12h05

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Quem cresceu ouvindo os relatos da epopeia de 32 não pode nutrir simpatia pela figura do interventor João Alberto Lins de Barros, que Getúlio nomeou para comandar São Paulo, assim que tomou posse do governo provisório.

Todavia, a verdade é multifacetada. Merece uma narrativa correspondente ao ângulo pela qual é encarada. É preciso atentar para as várias faces que ela ostenta. Li o livro “Memórias de um revolucionário”, escrito por João Alberto Lins de Barros, cuja segunda edição foi publicada pela Civilização Brasileira em 1954. Logo no prefácio, o autor afirma saber que tem fama de valentão. Contudo, confessa-se pacato e tímido, assim como os demais chefes revolucionários de 1922 e 1924. Eduardo Gomes, Juarez Távora e Osvaldo Cordeiro de Farias seriam tão cordatos quanto João Alberto. Ele assegura desconhecer uma só pessoa que tenha sido jamais agredida ou insultada por qualquer destes três bravos que tanto ilustraram a história do Brasil.

Sua infância pernambucana decorreu no Recife, onde seu irmão o lançava às águas do Capibaribe, e ele tinha de se debater furiosamente para não se afogar. Aula de natação forçada, isso aos quatro anos de idade. Eram onze irmãos. Alimentavam se de cuscuz de milho e de Mungunzá. Seu animal de estimação era um bode velho, que sempre o acompanhava e com quem dividia sua côdea de pão.

As primeiras letras, aprendeu-as com dona Amélia, em casa dela. Essa mestra particular acreditava ser a austeridade o primeiro atributo de uma professora. Usava por hábito a vara e palmatória. Para ela não se podia ensinar sem bater. Um dia tentou espancá-lo porque não entendeu o que ela lhe solicitara quando chamado a resolver um problema simples de aritmética, uma operação de divisão. Ele reagiu, segurando um banco, de forma a impedi-la da agressão. Narrou o episódio ao pai, que era professor, e este deu razão ao filho. Continuou a ser educado em casa.

Os costumes, à época, eram estranhos para nossos dias. Café com pão e cuscuz de milho às 6 da manhã. Almoço às 10:00. Às 4 da tarde servia-se o jantar e às 8 da noite a ceia, com café, batatas, aipim etc. Depois havia uma hora de leitura.

Muitas vezes o pai lia em voz alta e enfatizava algumas passagens com o fito de despertar especial interesse. Quando percebia que os meninos estavam interessados no assunto, entregava o livro, para que eles próprios terminassem a leitura.

Apreciava que os filhos perguntassem tudo o que lhes despertasse a curiosidade. Se não se sentia seguro na matéria, consultava a enciclopédia ou o dicionário. Diz João Alberto que o pai era honestíssimo em suas informações e não fazia mistério do saber. Isso à noite, quando Recife ainda não possuía luz elétrica e a leitura era feita sob a fraca iluminação permitida pelos candeeiros de querosene.

Como professor no ginásio do estado, o pai ganhava 300 mil réis, quantia insuficiente para o sustento da enorme família. Entregava o salário para a mulher, dela recebendo apenas o necessário para comprar fumo e alguns livros. As únicas discussões entre os pais surgiam pela despesa da livraria. A mulher não compreendia o motivo pelo qual, possuindo já tão grande biblioteca, o marido tivesse que comprar livros. Para ela, isso era mania.

Compreende-se a resistência da mãe, muito diferente do pai. Casou-se aos quinze anos, com o marido viúvo, já com mais de trinta e com cinco filhos. Aceitou as responsabilidades da casa, apesar da pouca idade, com decisão e segurança. Educou como filhos os enteados, alguns deles quase da sua idade. Naquela casa não houve distinção entre filhos do primeiro e do segundo leito. Todos se amavam fraternalmente, sem qualquer diferença.

Toda a prole aprendia música e João Alberto ganhou um violino, que exercitava aos cuidados do pai, amante do violoncelo. As meninas estudavam piano. Costumavam fazer música de câmera e interpretar quartetos de Beethoven, Mozart e Schubert, entre outros.

Foi esse jovem que se tornou militar, o escolhido por Getúlio para organizar o governo de São Paulo. Entendia que sua missão era a de afastar as duas candidaturas postas, a de Miguel Costa e a de Francisco Morato. Viu depois que havia um terceiro candidato, José Carlos de Macedo Soares, em cuja casa Getúlio permanecia quando vinha a São Paulo. Foi muito mal recebido por Miguel Costa que lhe disse: “São Paulo não precisa de pernambucanos nem de mineiros”.

Getúlio Vargas passou por São Paulo poucos dias depois, mas não resolveu a crise. Só quando tomou posse do governo provisório foi que nomeou o próprio João Alberto. Este explica a sua escolha como fato natural: “Minha investidura na interventoria, longe de significar um ato de força hostil aos brios paulistas, representava, muito pelo contrário, uma oportunidade para integrar São Paulo na ordem revolucionária nascente. Se eu era desconhecido no Estado que ia governar, não tinha, em compensação, adversários que pudessem temer, de minha parte, represálias ou perseguições”.

Narra aquilo que ainda hoje acontece. A sabujice, o servilismo, a corte de áulicos a render homenagem a quem detém o poder. No dia mesmo em que chegou para assumir a interventoria e entrou no Palácio dos Campos Elíseos, teve de comparecer a uma recepção enfadonha que iniciava a sua vida protocolar de chefe do governo: “uma a uma desfilaram as visitas amáveis, sorridentes, que vinham cumprimentar-me”. Sentiu falta da tropa, em cuja companhia se sentia bem, e pela qual era estimado como igual, por seu valor, algo espontâneo e bem distante da tática das homenagens que o enojava

Mudam os tempos, mudam os ares, mas há costumes que não mudam.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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