O Capitólio e o McDonald’s

O Capitólio e o McDonald’s

Fernando Goldsztein*

08 de janeiro de 2021 | 13h55

Fernando Goldsztein. Foto: CRISTIANO SANTANNA/INDICEFOTO

Escrevo de Washington nos Estados Unidos. A cidade, que nestes meses de inverno é gélida, está completamente vazia em função da pandemia. A nova onda que assola o país preocupa a prefeita da cidade, que implantou uma série de restrições. Embora Washington não esteja com um número tão alto de mortes comparado com outras cidades, os escritórios estão vazios, muitas lojas fechadas e apenas alguns restaurantes abertos atendendo na área externa ou por delivery. Uma situação muito triste.

Como se já não bastasse, a cidade, que foi palco de violentos protestos em meados de 2020 por conta da morte de George Floyd, resolveu se precaver para o que poderia estar por vir nestas eleições presidenciais. Na região central, próxima à Casa Branca e ao Capitólio, as vitrines estão protegidas por tapumes. Isso mesmo. Bancos , lojas, farmácias, hotéis, tudo devidamente lacrado com chapas de madeira. Verdadeiros bunkers. A sensação é a de que espera-se uma guerra ou um furacão a qualquer momento. Pois exatamente no meio deste cenário, no dia 6 de Janeiro, a cidade foi invadida por uma horda de manifestantes que, instigados pelo presidente Trump, queria impedir, na marra, a transmissão de poder no país.

Tendo chegado na cidade um dia antes, fiquei muito impressionado com a quantidade e o tipo de pessoas que vieram para este “evento”. Eram milhares, de várias partes do país, com suas bandeiras, faixas e cartazes com o famoso “maga” (make America great again).  Apesar de extremamente curioso, resolvi ficar recolhido na segurança do meu hotel assistindo tudo pela TV. Ocorre que, lá pelas tantas, durante o enfadonho discurso de Donald Trump e, portanto, antes dos terríveis incidentes que se sucederiam, bateu aquela fome. Chamei um delivery mas, com tantos restaurantes fechados na cidade, não havia entregadores suficientes para atender a demanda. Tive então que, resignadamente, recorrer a um Mc Donalds nas proximidades que estava aberto para “delivery & pick up”. O que vi lá foi surreal. O Mc Donalds tomado pelos manifestantes, muitos deles fantasiados com as cores da bandeira americana e todo o tipo de acessório que se puder imaginar. Agitados e empolgados, não respeitavam o distanciamento e até mesmo sentavam  às mesas, ignorando a proibição de comer dentro do local. Não foram poucos os que entravam sem máscaras, no melhor estilo negacionista e porque não dizer, suicida. O gerente, coitado, tinha que estar atento aos que tentavam entrar sem máscaras, abordando-os a todo momento.

De uma certa forma, o desrespeito que estava acontecendo naquela loja do Mc Donalds na região central de Washington,  já era uma pequena amostra do que estava para acontecer no Capitólio naquele dia fatídico. O dia em que foi manchada a bela história da democracia americana. Não acredito que o que vi no Mc Donalds  e que o mundo inteiro  viu na TV, represente legitimamente os 74 milhões de eleitores que votaram em Donald Trump. Evidente que não. Sem dúvidas, foram à Washington os mais radicais, os mais passíveis de serem insuflados, os mal educados, enfim, aqueles que não aceitam que a tolerância, o respeito e os limites fazem parte da vida em sociedade e são valores fundamentais da democracia.

*Fernando Goldsztein, empresário

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