O marco da pandemia: distopias e utopias

O marco da pandemia: distopias e utopias

Luiz Sergio Fernandes de Souza*

05 de maio de 2021 | 06h00

Luiz Sergio Fernandes de Souza. FOTO: JORGE ROSENBERG

Os historiadores, ao estudar a longínqua trajetória humana, buscam estabelecer certa cronologia a fim de situar não só os fatos históricos, como também os registros que deles são feitos. Falamos em décadas, séculos, milênios, gerações, épocas, eras, idades, tudo na tentativa de surpreender os diversos modos de vida e de produção no transcorrer do tempo. Certos fatos históricos são de tal forma marcantes que acabam por se constituir numa espécie de divisor de águas, dando rumos para aquilo que os historiadores chamam periodização. Assim se passou com as invasões bárbaras e a queda do Império Romano do Ocidente (que marcaram o fim da Idade Antiga), com a queda de Constantinopla nas mãos dos turcos otomanos (que marcou o fim da Idade Média) e com a queda da Bastilha (que pôs fim à Idade Moderna).

Mas no curso da Idade Contemporânea, muitos acontecimentos bem justificariam uma nova divisão da História, a começar pelas sucessivas revoluções industriais (fala-se hoje na quarta, com os rastros de miséria que cada uma das anteriores deixou) e científicas, passando pelos horrores das guerras (genocídios, crises humanitárias e econômicas etc.), a chegada do homem à Lua, os fenômenos climáticos extremos e as catástrofes ambientais (que, aprofundando a desigualdade social e a perda da biodiversidade, vêm interferindo na geopolítica) até o desenvolvimento dos fantásticos sistemas da computação, da inteligência artificial, da robótica, da mecatrônica e da telemática, transformações essas que ainda estão em curso.

Nesse contexto, impossível desconsiderar a epidemia da Covid-19 (doença provocada pelo novo coronavírus), que, tanto quanto os acontecimentos acima mencionados, já modificou profundamente a vida das pessoas, a maneira como trabalham, comunicam-se e se relacionam, precipitando avanços na técnica e na ciência e lançando novos desafios para as ações de saúde, as quais tendem a se tornar mais deficitárias, se se considerar que a telemedicina não alcança todas as pessoas, e ainda, que é discutível sua eficácia no acompanhamento e controle das doenças crônicas, a demandar exames clínicos, inclusive.

Fala-se numa espécie de mutação antropológica, resultante do afastamento físico e emocional das pessoas, imposto pelo isolamento social, seres que passarão cada vez mais a se comunicar por videoconferência, a obter informações e conhecimento por meio de palestras digitais e webinars, o que também contribuirá para o aprofundamento da desigualdade social, pois nem todos têm condições de se inserir nesse novo contexto. Ainda no plano da desigualdade, veja-se que os trabalhadores menos qualificados, com a rápida digitalização das empresas, correm cada vez mais o risco de perder seu emprego para as máquinas. Se é certo que esse processo de automação poderá valorizar as atividades e colocações que exigem maior esforço intelectual, igualmente certo também é que o distanciamento social impõe aos mais pobres um isolamento cognitivo, à falta de acesso ao meio digital.

Mas as relações entre a pandemia do século 21 e a concentração do poder digital têm outras facetas perversas. Agravam-se os chamados riscos globais, pois a precarização dos contratos de trabalho, conforme se retira da última edição do Relatório de Riscos Globais (RRG) publicado pelo Fórum Econômico Mundial, interfere diretamente na mobilidade social, aprofundando as tensões sociais. Os impactos da pandemia, além de recaírem sobre a população de baixa renda, privada de direitos básicos – um deles a educação –, também poderão recrudescer os conflitos geopolíticos, como consequência do fechamento de fronteiras e da disputa cada vez maior por vacinas, com o que se intensifica a polarização política. Não bastasse, a ausência de definição de marcos regulatórios, sobretudo num mundo pressionado pela necessidade da digitalização, gera graves incertezas econômicas.

Entretanto, há narrativas que contrastam com essa crônica do desalento. Fala-se que a emergência da maior crise sanitária dos últimos cem anos trará momentos de aprendizado – lembrando que a criatividade nasce da angústia, da necessidade de superação, o que promove descobrimentos e invenções. Isto se aplica à ciência e à tecnologia, cabendo registrar que o investimento na pesquisa de imunizantes contra a Covid-19 acena para resultados surpreendentes. Como a perspectiva da morte se tornou mais real para o ser humano, tudo sinaliza no sentido da valorização do meio ambiente e de todas as formas de vida, o que concorrerá para a substituição dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural) por fontes de energia renováveis.

Outras mudanças socioculturais – segundo estudiosos – também contribuirão para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Como os negócios e as relações de emprego estão se digitalizando de maneira generalizada e em velocidade crescente, grande parte da população terá mais tempo para investir em alimentação saudável, no lugar do fast-food, o que, a médio prazo, interferirá positivamente na expectativa de vida, desonerando o sistema público de saúde e a previdência social (a alteração dos níveis de colesterol, segundo a indústria farmacêutica, é responsável por um terço das doenças cardíacas no mundo, matando anualmente cerca de 2,4 milhões de pessoas). No mesmo contexto, com a prática do home office, legítima revela-se a expectativa de queda do número de deslocamentos no meio urbano, o que implica a diminuição dos índices de poluição por monóxido de carbono (segundo a OMS, anualmente, entre 7 e 8 milhões de pessoas morrem no mundo em decorrência da poluição do ar).

Enfim, existem, na perspectiva dos que refletem sobre o cenário da pandemia, prognósticos sombrios, distopias que remetem à ideia de “crise” no pior sentido, assim como visões utópicas, que projetam, a partir da crise, o surgimento de um outro homem e de uma outra sociedade, o que dará lugar a diferentes práticas sociais, ao aprimoramento das instituições políticas, jurídicas, econômicas e à descoberta de novas expressões artísticas, rumo à promoção do bem-estar e à transformação da Humanidade, que há muito reclama por um controle ético sobre o controle técnico.

É precisamente em torno desses dois pontos de vista que habita o imaginário coletivo desde o início de 2020, podendo-se afirmar que palavras como “coronavírus” “pandemia”, “Covid-19”, “crise sanitária”, “crise humanitária”, “crise econômica”, “isolamento social”, “quarentena” estão entre as mais utilizadas nas redes sociais nos últimos tempos. Mas muito também se fala em Esperança, título de um texto que passou a circular na mídia digital como se tivesse sido produzido durante a pandemia do século 19, mas que é da autoria do artista cubano Alexis Valdés, escrito em março de 2020 e por ele compartilhado na internet no início da atual pandemia. Também naquele março, Catherine M. O’ Meara escreveu In the Time of Pandemic, poema publicando em seu blog (The Daily Round) com o nome de Kitty O’ Meara, mas que rodou o mundo (com o título “A Cura” ou simplesmente “Curar”) como se fosse da romancista franco-irlandesa Kathleen O’ Meara, morta em 1888.

Deixando de lado o sentido profético que os poemas ganharam – decorrente do desvio de informação quanto à autoria e ao contexto histórico –, significativo que a poesia de Alexis Valdés se inicie com a imagem de uma tormenta – evocando a ideia de desordem, da agitação que leva a um “naufrágio coletivo”, na expressão do escritor – para depois falar dos tempos ditosos que virão, da importância de nos sabermos frágeis e imperfeitos, seres cuja soberba, indiferença e ignorância cederá espaço para a empatia “por quem está e por quem já se foi”. Também impressiona, no poema da americana Kitty O’ Meara, a ideia de aprendizado que se retira desse período de introspecção, experiência que trará a cura para o homem e a cura para a Terra. Nos dois autores está muito bem representada a díade utopia-distopia, que não necessariamente indica oposição, contraponto, mas que tampouco quer dizer apenas superação, apontando, de outra forma, para a noção de transformação, presente no reconhecimento de fatos que se inscrevem como “divisores de águas” na História da Humanidade.

Para lembrar a advertência de Marilena Chaui – no contexto do nascimento da Filosofia –, “Escutemos, por um instante, a voz dos poetas, porque ela costuma exprimir o que chamamos de sentimento do mundo, o sentimento da velhice e da juventude perene do mundo, da grandeza e da pequeneza dos humanos ou dos mortais” (Convite à Filosofia, 2ª ed., SP, Ed. Ática, 1995, p. 23).

*Luiz Sergio Fernandes de Souza, mestre e doutor em Direito pela USP, professor dos cursos de graduação e pós-graduação da PUC/SP, é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo

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