O malvado necessário

O malvado necessário

Elizabeth Lopes

06 de maio de 2016 | 04h45

Eduardo Cunha. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Eduardo Cunha. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O afastamento de Eduardo Cunha do seu mandato eletivo e da presidência da Câmara dos Deputados, em decisão unânime do Supremo Tribunal Federal, foi comemorado por aqueles que desejam um País limpo da praga da corrupção, lamentado no ‘timing’ pela presidente Dilma Rousseff e seus aliados, que desejavam que isso tivesse ocorrido antes da votação da admissibilidade do processo de impeachment no plenário da Casa, e saudado por fogos de artifício pela vizinhança do peemedebista, na capital federal.

A avaliação corrente é que seu afastamento será favorável ao eventual governo de Michel Temer, pois ele não terá de carregar o ônus de ter como seu sucessor natural, em caso de viagens fora do País, alguém que é réu no Supremo, em um dos processos de maior repercussão no País, o da Lava Jato. Além disso, pesa sobre Cunha a suspeição de possuir contas no exterior que seriam depositárias de dinheiro ligado a propinas.

Mas há um outro lado da figura de Cunha, mesmo que pese sobre ele a indignação geral sobre os atos ilícitos de que é acusado, que não pode passar despercebido no dia em que ele é afastado de suas funções na presidência da Câmara dos Deputados: a capacidade de fazer o parlamento funcionar.

Sem entrar no mérito das discussões de setores da situação e da oposição, sobre a maneira do peemedebista conduzir os trabalhos do parlamento a seu bel prazer, é fato que ele possui a expertise de fazer andar a complexa máquina parlamentar, repleta dos mais variados interesses. E é justamente essa expertise que poderá deixar uma lacuna nos primeiros dias do provável governo de Michel Temer, onde ele terá de aprovar medidas emergenciais, segundo os especialistas em menos de 60 dias, para mostrar a que veio e começar a reverter as expectativas de confiança no País.

Em conversa com esta coluna, o cientista político e professor da FGV Marco Antônio Carvalho Teixeira concorda que Eduardo Cunha “é um gênio” na condução dos trabalhos da Câmara, dotado de inteligência, articulação e capacidade de trabalho como poucos no parlamento brasileiro. Mas infelizmente não soube direcionar este potencial na defesa dos interesses do País.

Roberto Jefferson, réu no mensalão e que recentemente foi reconduzido à presidência do PTB, foi quem conseguiu traduzir essa faceta de Cunha. Em recente entrevista ao Estadão, Jefferson afirmou que Cunha era o bandido pelo qual ele mais torcia, uma espécie de “malvado favorito”, pois é gelado, frio, e equilibrado em qualquer situação. Para Jefferson, Lula e o PT jamais imaginaram encontrar um “bandido da mesma qualidade moral e intelectual, um adversário à altura que joga qualquer jogo”.

Resta saber se na condução dos trabalhos da Câmara, no período crucial dos primeiros dias do eventual governo Temer, o afastamento de Eduardo Cunha fará com que o correligionário Michel Temer lamente a ausência do “malvado necessário”.

* Elizabeth Lopes é repórter do Broadcast Político

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