O legado de Sifan Hassan

O legado de Sifan Hassan

Fernando Goldsztein*

11 de agosto de 2021 | 09h30

Sifan Hassan. FOTO: KAI PFAFFENBACH/REUTERS

A olimpíada é o grande evento de congraçamento e união dos povos e também uma das maiores demonstrações da capacidade de superação do ser humano. A determinação, a disciplina e a obstinação destes atletas é um grande exemplo para a humanidade. Não me refiro exclusivamente aos medalhistas. A “simples” participação nos jogos já é algo formidável. Os atletas que participam das olimpíadas são os melhores do seu país e estão entre os melhores do mundo. Portanto, todos os participantes já são vitoriosos.

Sou um espectador contumaz dos jogos. Dentre os meus vários esportes “preferidos”, minha paixão é o atletismo. A princípio pensei que a aposentadoria de Usain Bolt, a grande estrela do atletismo dos últimos tempos, iria ofuscar os jogos de Tokyo. Ledo engano! Talentos como Karsten Warholm da Dinamarca; Selemon Barega da Ethiopia, Elaine Thompson da Jamaica, Lamont Jacobs da Itália, entre outros tantos, abrilhantaram o atletismo desta olimpíada.

Entretanto, a minha maior reverência aqui neste texto fica para Sifan Hassan, uma atleta espetacular que representou a Holanda conquistando duas medalhas de ouro, nos cinco mil e nos dez mil metros, e uma de bronze nos mil e quinhentos metros. Uma performance incrível! As provas dela são de longa distancia (ou fundas, no jargão do atletismo) o que exigem do atleta não só velocidade mas também estratégia e muita resistência.

Não obstante as enormes conquistas de Sifan Hassan em Tokyo, destaco um episódio extraordinário ocorrido nas eliminatórias para os mil e quinhentos metros. Hassan, que competia com dez outras atletas, tropeçou em uma Keniana que havia caído em sua frente e ela própria veio ao chão. A queda foi feia e provavelmente ela deve ter se machucado. Mesmo assim, Hassan se recompôs e partiu, com surpreendente determinação, em direção ao pelotão de  atletas que agora encontravam-se muito à sua frente. Numa recuperação inacreditável e muito emocionante, ela foi ultrapassando as suas adversárias, uma a uma, até dar um sprint final e vencer a prova classificando-se para a semi-final. Simplesmente sensacional!

Fernando Goldsztein. Foto: CRISTIANO SANTANNA/INDICEFOTO

Hassan aprendeu a enfrentar as adversidades desde muito cedo. Nascida no conturbado sudoeste africano, região muito pobre e palco de intermináveis guerras civis, a adolescente  de apenas quinze anos de idade saiu refugiada da Ethiopia para obter asilo na Holanda. Treze anos depois, aos vinte e oito, a refugiada transforma-se numa das maiores campeãs olímpicas do atletismo de todos os tempos. Foi a atleta escolhida, entre todos os 4.800 atletas Europeus que participaram dos jogos, para representar o continente na cerimônia de encerramento. Certamente Hassan ainda vai muito longe com a sua obstinação e as suas firmes e rápidas passadas nas pistas. Mas já deixa para todos nós um grande legado no final destas olimpíadas. A certeza de que pouco importa de onde você vem e sim para onde você vai.

*Fernando Goldsztein, empresário

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